Por Juventino Ribeiro

Muitas pessoas desconhece que calazar é uma das variantes da manifestação de leishmaniose, muito menos seu metabolismo e seu poder letal. Fui informado sobre o drama de várias pessoas infectadas, até mesmo de uma enfermeira que foi a óbito, embora trabalhando em um grande hospital universitário, com recursos humanos, equipamentos e materiais suficientes para detectar e debelar a doença. Há, ainda, muita negligência na prevenção e no trato desse mal, endêmico no Brasil e em dezenas de paises, onde mais de 200 milhões de pessoas estão expostas ao risco de o contrair.

A transmissão do parasita leishmania ou leishmania chagasi, causador da leishmaniose ou calazar, ocorre somente através da picada da fêmea infectada do mosquito palha, birigui, borrachudo, mosquitinho do mangue. Estas são algumas das denominações populares que variam em cada região do Brasil. No meio científico tem a denominação phlebotomus.

O ambiente propício para o mosquito é o ambiente doméstico, onde haja umidade, sombreamento e material orgânico, coadjuvante para sua proliferação. O cuidado com animais domésticos é imprescindível para prevenção, pois quando essa maldita criaturinha suga o sangue de um animal infectado pelos parasitas, a pessoa que for picada também será infectada. Pequenina no tamanho, mas de grande poder letal, ataca suas vítimas à procura de sangue para sustentar a preservação de sua espécie.

É quase certo que entre 2 e 4 meses após a picada ocorrerá a incubação do protozoário, podendo, em alguns casos, variar entre alguns dias até dois anos, período em que o sistema imunológico desenvolverá anticorpos.

Quando o organismo for suprido de anticorpos e controlar a infecção o paciente supera a doença que se manifesta apenas em forma de leishmaniose cutânea ou mucocutânea. Aparecem pápulas ulcerantes e muito irritantes em torno do local em que ocorreu a picada.

Porém, quando o sistema imunológico não se manifestar suficientemente para destruir as leishmanias ocultas no interior dos macrófagos, ocorrerá a leishmaniose visceral, também conhecida como CALAZAR. (kala-azar, termo de origem hindi e persa, que significa doença preta ou botão do oriente). É a segunda doença parasitária que mais mata no mundo. Em primeiro lugar está a malária.

Os sintomas podem se manifestar semelhantes aos da malária, esquistossomose, doença de Chagas e febre tifoide: febre intermitente por semanas, tremores, diarreia, suores, mal estar, fadiga, perda de apetite, perda de peso, prostração, inchaço no fígado e do baço, anemia, comprometimento da medula óssea, são algumas manifestações que variam de acordo com a resistência de cada indivíduo. Naqueles imunodeprimidos pode ser fulminante em curto período.

Os animais desenvolvem sintomas semelhantes aos das pessoas. É sempre letal para cachorros, enquanto que para seres humanos existe tratamento à base de antimoniais pentavalentes via endovenosa. Há ainda a anfotericina B e Miltefosina via oral, que também tem se mostrado eficaz.

A leishmaniose está incluída na relação de 17 doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial de Saúde. São assim denominadas, porque os investimentos em pesquisas para o combate são poucos e as ações para prevenção e controle ainda está longe do ideal.

Os medicamentos de uso continuado, por até um ano custam mais de R$1.000 cada dose. O governo fornece através do SUS-Sistema Único de Saúde, após cumprir algumas exigências burocráticas.

Vale lembrar, ainda, que os casos confirmados da doença, seja cutânea ou visceral, são de comunicação obrigatória à Secretaria Estadual de Saúde. Em Ilhéus, o atendimento é feito no SESP-Serviço Especial de Saúde Pública, na Av, Canavieiras, 489 – Centro, próximo do Estádio Mário Pessoa.