AINDA SOBRE MULHERES NA FRANCO-MAÇONARIA
Por José Everaldo Andrade Souza

Ir.’. Everaldo
A julgar pelo que se observa em todas as Religiões e Igrejas, a admissão da cara-metade do homem nos Templos Maçônicos, hoje tão vazios em toda a parte, só lhes poderia dar maior colorido e vitalidade, e enriquecer sua cultura, sua moral e sua utilidade social… Em sã consciência, na Maçonaria e em seus Rituais nada existe de que a mulher não possa participar, e em sua antiga tradição nada há que justifique a recusa e afastamento do elemento feminino das cerimônias e iniciações maçônicas.
A presença feminina tornaria a Loja maçônica mais completa em seu significado filosófico-espiritual e mais autêntica em seu conteúdo simbólico, a ser verdadeira (como o é) a lenda maçônica de que uma Loja é o símbolo do Universo, ou o Universo em miniatura. No Universo de Deus não há nenhuma distinção entre os sexos; não existem ali leis masculinas e leis femininas; as leis são iguais para todos, homens e mulheres, anjos e humanos, vivos e mortos. Se esse é o exemplo que nos dá o Grande Arquiteto do Universo, por que fazerem os homens coisa diferente no mundo, e especialmente na Loja maçônica, reflexo desse Universo? Portanto, sob o critério filosófico, a Maçonaria se destina tanto ao homem como à mulher, complementos que são um do outro e destinados como estão a constituir a família como base celular de uma sociedade bem organizada. Examinando este assunto à luz da tradição maçônica, se remontamos sua origem aos antigos Mistérios do Egito, Grécia e Roma, sem esquecer a escola de Pitágoras, fundada em Crotana, em 529 a.C., calcada nesses mistérios, e depois difundida pela Grécia, ali encontramos iniciados homens e mulheres, passando todos igualmente pelas mesmas provas e cerimônias. Se, ao contrário, preferimos encurtar a idade da Maçonaria e situar sua origem nas Corporações Operativas da Idade Média, se então nada descobrimos expresso claramente a favor dessa tese, também nada deparamos contra. Também, no exame dos mais antigos documentos maçônicos existentes na Inglaterra, que são minuciosos em pormenores e em proibições, não nos mostra nenhuma proibição contra as mulheres, e há mesmo indicações de que elas por ali andaram.
O primeiro Escrito com o nome de Freemasons que aparece, é um ato do Parlamento de 1350, 25º do reinado de Eduardo I, regulamentando a profissão de pedreiro; é minucioso, mas omisso em relação à mulher. Depois vem o chamado “Manuscrito Régio” ou “Manuscrito de Halliwell”, descoberto por um antiquário não maçom e aparentemente sacerdote católico, no Museu Britânico de Dnodez, escrito em 1390 e publicado no Magazine Free-Mason de junho de 1815. Trata-se de um pequeno livro em papel de vitela, redigido em poema, com 794 versos em inglês antigo. Dos versos 97 ao 794, que são de estrito teor legal maçônico, não se encontra nenhuma consignação de ser a Maçonaria privativa tão só do homem. Bem ao contrário, deparam-se ali provas de que a Maçonaria Operativa daquela época tinha, no mínimo, a colaboração feminina. Igualmente nada se encontra em outros documentos antigos, como o “Manuscrito de Watson”, datado de 1440, o qual coincide bastante com o “Manuscrito Régio” e com o “Manuscrito de Rawlison”.
Afinal, no regulamento elaborado em Londres, em 27 de dezembro de 1663, numa assembléia geral, em que Henry Jermin, Conde de Santo Albano, foi eleito Grão-Mestre, consta em seu artigo 2º que “ninguém seria admitido na confraria que não fosse são de corpo, de nascimento honrado, de boa reputação e submissão às leis do país”. Ainda uma vez nenhuma referência à mulher. Mais recentes ainda são as Constituições da Grande Loja de Hamburgo e os Estatutos da Grande Loja e da Dieta Alemã. Essas Constituições foram aceitas e aprovadas em 10 de março de 1782, sendo Frederico Guilherme da Prússia o Grão-Mestre e Protetor da Ordem.Elas reproduzem com esmerada exatidão os “Antigos Limites”, sob a denominação mais moderna de “Charges Landmarks”, e nenhuma alusão fazem à mulher ou contra a sua admissão na Maçonaria.
A primeira vez que tal proibição aparece, na longa história da Maçonaria, é no “Livro das Constituições”, compilado e publicado em 1723, por James Anderson, presbítero anglicano e Gr. Vig. da Grande Loja de Londres, em seu art. 3º, que diz, no final: “As pessoas admitidas a fazer parte de uma Loja devem ser boas, sinceras, livres, de idade madura; não são admitidos escravos, mulheres, pessoas imorais e escandalosas, mas exclusivamente as que gozem boa reputação”. Esta proibição foi repetida posteriormente no 18º Landmark compilado por Mackey em sua Enciclopédia.
O fato é que a Maçonaria continental jamais se conformou com tratamento tão esdrúxulo. Consequentemente, em 1730 esboçou-se na França a Maçonaria de Adoção, para as mulheres, em quatro graus. Outras ordens surgiram depois, como a de Moisés em 1738, fundada por alemães, e a dos Lenhadores em 1747, derivada dos Carbonários na Itália.
Em 27 de julho de 1786, o conde Cagliostro funda em Lyon, França, a Loja-Mater Sabedoria Triunfante, do Rito da Maçonaria Egípcia, adaptada a homens e mulheres. E, finalmente as Lojas de Adoção se espalharam por toda a Europa e depois pela América do Norte, e o movimento culminou na fundação em 4 de abril de 1893, pelo Dr. Georges Martin e sua esposa, da Ordem Maçônica Mista Internacional “O Direito Humano”, também conhecida por Comaçonaria Internacional, que outorga iguais direitos a homens e mulheres “livres e de bons costumes” e os admite no mesmo nível de igualdade.
Mais uma vez, com o desenvolvimento deste texto, esperamos ter contribuído com mais algumas informações aos seguidores do R2CPRESS, especialmente aos curiosos e interessados na história da Franco-Maçonaria, Irmãos Maçons e ao público em geral.
JOSÉ EVERALDO ANDRADE SOUZA
MESTRE MAÇOM DA LOJA ELIAS OCKÉ – Nº 1841
FEDERADA AO GRANDE ORIENTE DO BRASIL – RITO BRASILEIRO
ORIENTE DE ILHÉUS – BAHIA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Joaquim Gervásio de Figueiredo
DICIONÁRIO DE MAÇONARIA
Seus Mistérios
Ritos
Filosofia
História
4ª edição – Editora Pensamento – São Paulo
Johnstone, Michael
Os Franco-Maçons – trad. Fúlvio Lubisco – São Paulo: Madras, 2010.
Título original: The Freemasons.


























































