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A COROA DE JESUS

Sempre fui tomado de um sentimento estranho ao ver as imagens de Jesus, e de sua mãe, Maria, mostrando-os coroados, com este adereço as vezes mal colocado sobre a cabeça, denunciando que foi posto ali depois da imagem pronta, pouco se integrando à roupagem original de ambos.

Teriam sido rei e rainha? Não, positivamente não! Mas quando criança, diziam-me que Jesus era rei e que Maria era a rainha das mulheres. Esta explicação era mais do que suficiente para uma cabecinha infantil.

Cresci e após muitos anos passei a reparar, nas representações das Igrejas Cristãs mais diversas, como se apresentavam as roupas de Jesus: Este quase sempre com um manto púrpura, de um vermelho fidalgo, imponente, de ostentação; e com relação a Maria, observa-se a aplicação desta mesma concepção de luxo, com manto de grosso veludo e suntuosa cor. Em ambos, muitas vezes, há nas barras das roupas uma franja bordada a fios de ouro, da mesma forma que se usava nos trajes de reis, imperatrizes e príncipes do mundo, até bem pouco tempo atrás.

A representação que vemos é tão historicamente falsa quanto, sobretudo, enganosa do ponto de vista da imagem de riqueza e poder mundanos que induz aos observadores.

Jesus foi um homem extremamente simples e sem posses materiais. Vivia entre pescadores e pessoas do povo, conversava com pobres, crianças e idosos. Viajava a pé. Não tinha casa, hospedando-se onde podia, muitas vezes de favor. Só uma única vez a Bíblia registra que tenha se utilizado de montaria, quando da entrada em Jerusalém, uma semana antes da crucificação. Teria sido a primeira e última vez.

Se Jesus, o Mestre, o Rabi, seguido por doze apóstolos e uma multidão, nada tinha para si, muito menos haveria de ter sua pobre e idosa mãe.

É necessário lembrar que os pobres da época de Jesus vestiam uma túnica de linho cru. E quase sempre era uma só, tanto pela pobreza extrema do povo quanto pelo fato de que alguém quase nômade, tal como Jesus, não carregaria armário nem mala, nem há registro de que alguém lhe carregasse a bagagem.

Da mesma forma, os pobres, em geral, não usavam roupas de tecidos tingidos, uma técnica que encarecia as roupas. Pessoas do povo usavam vestes de linho cru, variando apenas um pouco o tom conforme a matiz do fio de linho.

Pobre na acepção mais ampla do termo, não há na Bíblia sinal algum de riqueza em Jesus, exceto aquela contida em seu olhar e nas mensagens plenas de infinito amor.

Jesus e Maria, durante séculos, foram intencionalmente representados com as roupas e adereços da nobreza das épocas passadas, em uma tentativa de retirá-los do seio do povo, como a dizer aos pobres que ambos eram ricos, e que estariam sempre ao lado dos ricos e contra os pobres caso estes reivindicassem quaisquer direitos junto àqueles, constituindo-se tal imagem em sutil e eficaz instrumento de dominação ideológica, política e social, cruelmente exercida durante séculos sobre a plebe embrutecida pela ignorância e pela miséria.

Libertemo-nos das visões suntuosas e equivocadas de Jesus e Maria cobertos de ouro e púrpura. Não precisamos disso. Que nos baste a riqueza infinita do Seu olhar, da Sua mensagem, e da Sua Paz.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz. e-mail: juliogomesartigos@gmail.com

Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a autoria.

3 respostas para “A COROA DE JESUS”

  • EVERALDO says:

    Parabenizo ao autor, Sr. Julio Cezar, por nos brindar com um texto excelentemente balizado, de um profundo teor reflexivo!

  • Duda Weyll says:

    Você está tentando banalizar a forma representativa de Jesus e Maria mas não citou o movimento artístico que iniciou esta tendência e o porquê de ter iniciado esta tendência.

    1- O “esplendor de Jesus” iniciou-se na Idade das Trevas, principalmente pela arte gótica que, para tentar explicar ao povo leigo o que seria a ressurreição e atraí-los às missas para a construção da sociedade medieval apos o colapso do Império Romano, fez-se a analogia direta naquilo que mais se aproximava de de representação de “ser livre” àquela época: ser bem vestido, limpo, gracioso e sadio. A intenção jamais foi “distorcer a história”, a intenção é – basicamente – fazer entender o que é Jesus ressuscitado, livre da carne e das moléstias da vida.

    2- A centralização nas roupas e “como elas deveriam historicamente ser” é materialismo, essa concepção e pensamento só se consolidaria na Europa em meados do Século 18, antes disto a Europa sequer tinha esta preocupação, talvez de forma velada na Reforma Protestante (Séculos 16 e 17).

    3- A representação de Jesus e Maria bem adornados SÃO SIM muito importantes, trata-se do redirecionamento da civilização ocidental, onde basicamente toda a cultura da Europa e de suas futuras colônias seria baseada. Significa sair de um status de flagelos perdidos após a queda Roma para Nações organizadas sobre a doutrina cristã; entender estes conceitos NÃO SIGNIFICA DISTORCER A HISTÓRIA DE CRISTO, entender estes conceitos significa saber de onde viemos e que doutrina nos tirou de lá.

  • Julio Cezar de Oliveira Gomes says:

    Agradeço por todas as considerações. A finalidade do texto é, entre outras, a de despertar questionamentos e manifestações. Concordando ou não com elas, serão sempre bem vindas!

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