Por Guilherme Albagli de Almeida
Depois de uma leve febre e só um dia de prostração, começaram as dores, na sola e peito dos pés, no tornozelo, joelho, ombros e dedos das mãos. Emergência hospitalar e Dipirona amenizaram o sofrimento. Cessada a medicação, dores insuportáveis. Para se levantar de uma simples cadeira, só com alguém me puxando as duas mãos. A minha valença era saber que este vírus incomodava, mas não matava, me disseram.
O pior era estar com uma breve viagem marcada àquela cidade romana da margem norte do Tâmisa. Comprara a passagem faz um ano, para os trinta anos da minha mais velha, mas fui proibido pela Dra. Cavicchiolo, pois estava, então, ruim da glicemia. A empresa aérea me dera um ano de prazo para remarcar a viagem e eu não queria perder o investimento já pago em dez prestações. Com a chikungunya mesmo, resolvi partir. Por lá, no frio, as dores cessaram.
No último dia, contudo, chegada a primavera, com muita luz, calor e as árvores já exibindo os seus botões florais, lá me voltam as dores citadas. Onze horas no avião me deixaram quase sem poder andar, mesmo me levantando umas doze vezes para circular no corredor da aeronave. Êta vírus amaldiçoado, distribuído sem pena pela mosquita. Tive que me mudar para o térreo da minha casa para evitar subir e descer as escadas, quase de quatro.
Nos out-doors, muita propaganda, nos pedindo que façamos a nossa parte. Mas a parte do governo, arrombando as casas abandonadas que, com certeza, guardam focos das tais mosquitas, me parece ter ficado só no papel, com as autorizações judiciais para as equipes arrombarem portas e muros das casas e terrenos desabitados que temos por muitos bairros. Aristides, um cabocão motorista da linha de Olivença, ontem, me disse: “Essa doença é racista: não ataca nem preto nem pobre“. Retruquei: “Não seria ela conscienciosa, por já terem os pretos e os pobres problemas demais?”. O Aristides parece ter mesmo razão: Um cientista, na TV, afirmou ser esta mosquita mais presente longe das áreas verdes tão necessárias em toda cidade. Disse ele que, na falta da seiva vegetal, a zorra da mosquita vem se hidratar com o nosso sangue, ali deuixando o maldito vírus. O povo do Couto diz que, ali, quase ninguem pegou essa miséria. Vamos, então, priorizar a cobertura vegetal das nossas cidades, em vez de as cobrir com o concreto armado, como tanto gostam nossos dirigentes, por algum motivo. Chega de concreto, chega de chikungunya!