por: Guilherme Albagli de Almeida

MINELVINOÉ claro que não é só Amado, Adonias, Cyro de Mattos e Sosígenes Costa que brilham nas Belas-Letras regionais; muitos outros autores aqui vivem ou viveram, nos deixando preciosas obras que nos grudam como chicletes em textos que, mesmo longos, nos levam ao seu final em uma, duas ou três sessões de leitura.

Um destes autores é o baiano de Mundo-Novo que, muito jovem, passou a viver em Itabuna, onde compôs cerca de mil livretos vendidos em feiras e romarias, incluindo Bom Jesus da Lapa, N.Sa. das Candeias, N.Sa. da Ajuda e outros centros devocionais; com a parca receita obtida da comercialização desta sua arte, MFS criou e educou sua família, mesmo passando as dificuldades muitas vezes declaradas nos seus textos.

MINELVIN0 2O Professor Jorge de Souza Araújo, Doutor em Letras da Universidade Estaduais de Feira de Santana, detentor de extensíssimo e valoroso currículo acadêmico e com vivência na Região Sul-Baiana, desde jovem também interessou-se pela obra deste trovador popular, analisando mais de quinhentos dos seus textos, onde aparecem todos os gêneros comuns à literatura trovadoresca que, mesmo originada na Idade Média, se mantém viva até hoje, com diversos trabalhos publicados e republicados em todo Nordeste Brasileiro.

A única exceção da temática cordelista na obra “minelvina” – como define JSA – é a pornografia, comum na poesia de outros autores trovadorescos; MFS era profundamente ético e religioso, dedicando considerável parte da sua obra à criação dos ” benditos” católicos que fizeram o bispo de Bom Jesus da Lapa, numa certa época, lhe dar o título de “Poeta do Bom Jesus”. Também o chamaram, merecidamente, “O Poeta-Apóstolo”. O único deslize minelvino no setor “pornô” seria uma única ou talvez duas palavras chulas encontradas por JSA em dois dos seus folhetos. Isso, contudo, não o impedia compor bem-humorados versos galanteadores às moças e às mulheres.

A política realista e os “causos” fantásticos estão entre os seus mais frequentes temas enfocados. Seria ele um artista intinerante que se alterna entre os conceitos de “realista” e “surrealista”?

Nos diz ele, realisticamente:

O poeta popular

Que se meter a escrever

Somente história verídica

Morre a fome, pode crer

Porque o povo não gosta

Nem mesmo pegar para ler.

O profícuo Prof. Dr. Jorge de Souza Araújo, no ano passado, nos brindou com a sua preciosa obra “Minelvino Trovador Apóstolo”, editado pela Editora Editus da Universidade Estadual de Santa Cruz. A sua excelência intelectual o impediu no uso de uma linguagem mais popular e acessível, não sendo impossível a necessidade de um bom dicionário para acompanhar alguns dos seus fraseados e raciocínios. Mas vale muito a pena este esforço; pelo conhecimento do excelente trabalho profissional de JSA que resenha o excelente trabalho profissional do nosso Trovador-Maior, que nos deixou em 1998.