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O DIA EM QUE NASCI

Anísio Cruz – janeiro de 2018

Outro dia era um bebê, nascido no arrebalde do Iguape, na faz. Sto. Antônio, ali onde hoje está a desativada fábrica da Barreto de Araújo. Fui parido em casa, sob a ação de competente parteira, chamada às pressas, para acompanhar os trabalhos do parto. Fui o terceiro filho, e único varão da família, cujo nascimento foi festejado entre os amigos e parentes. A explicação é que tive a honra de ser registrado por meu avô materno, Juiz de Paz de Aritaguá, que possuía jurisdição sobre toda aquela região, até a divisa com Castelo Novo, e Água Preta (Uruçuca), distritos de Ilhéus. Ele me emprestou o seu nome, Anísio, ao qual foi acrescentado o nome do outro avô, o paterno, José (morto em 1918. Ambos tinham Pereira, mas não havia parentesco. Da Silva, um e da Cruz o outro. Nomes que carrego com orgulho, certamente.

Cresci menino de roça, dividido entre a Faz. Jacarecica, onde morávamos, e a Sto. Antônio, onde chegávamos sacolejando sobre o lombo de algum dócil animal, dentro de um caçuá preparado para a viagem, amparado por travesseiros para amenizar os impactos das sacudidelas, que também embalavam o meu sono. Era uma longa viagem de quase três léguas, seguindo por trilhas perigosas, por dentro de roças de cacau, e matas traiçoeiras, com subidas e descidas na serra do Bco. da Vitória, cruzando a atual Mata da Esperança, até a Fazenda Sagrada Família (Itacanoeira), onde era feita a travessia do riacho, até chegarmos ao nosso destino. Assim era, até que começamos a chegar a Ilhéus nas empoeiradas marinetes, para depois completarmos a viagem nos vagões da Estrada de Ferro, até a estação do Iguape. De lá, por mais um kilômetro, a pé, até a casa da Dona Leó, a minha querida avó materna. A chegada sempre foi festiva, e era disputado para acolhimento carinhoso dos tios, e tias, pois era o “dengo da casa”, segundo contavam. Na capelinha do Iguape fui batizado, e um vagão do comboio foi fretado para levar de Ilhéus, os parentes e amigos. Os demais que residiam nas redondezas, também chegaram em bom número. Dizem que a festança foi forte, e fartos os comes e bebes. E como era de tradição, a “meladinha” preparada por meu pai, para celebrar o evento, foi servida generosamente. Foguetes espocaram no ar.

Evidente que não conservo lembranças dessa época, e as que me restaram, são da minha vivência na Jacarecica, até os cinco anos, quando viemos morar na cidade, logo após a trágica morte do “velho Anysio”, no acidente ferroviário de 1954. Desse dia 1º de agosto, lembro-me do motorista do taxi que foi nos buscar, e também deu a notícia. No acidente também foi vítima o meu tio Expedito, irmão do meu pai, candidato a Deputado Estadual. Lembro-me do desespero da minha mãe, quando foi comunicada da morte do pai e teve que beber água açucarada quase quebrando o copo com os dentes. Depois, a chegada na Sto. Antônio, onde estava o corpo do meu avô na sala principal, coberto de flores do campo. Muitos amigos foram velá-lo. No dia seguinte, o café da manhã com os primos, e o cheiro do chocolate ao leite, que nos serviram junto com biscoitos.

Quantas coisas aconteceram, desde aquele dia 29 de janeiro de 1949, em que nasci. Tive uma infância rica em folguedos, com os primos, e os amigos, os filhos dos agregados, que correram, e partilharam comigo, os campos da minha infância, as goiabeiras, e os cajueiros…

As lembranças são muitas, e as cultivo com muita saudade durante esses 69 anos que completo. Tenho convicção de que tudo o que vivi, valeu à pena, apesar das inevitáveis perdas.

O tom melancólico que hoje compartilho com vocês, são de saudades daqueles tempos, dos que já se foram, e de gratidão por tudo que fizeram por mim. Tenho certeza de um dia os encontrarei nos campos da eternidade, para celebrarmos juntos, a vida que compartilhamos aqui. Luz e paz a todos.

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