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CARNAVAIS COM A TURMA LÁ DE CIMA

Anísio Cruz – fevereiro 2018

As Moringuetes do Pontal, o Furdunço de Salvador, os Esquentas do Carnaval de Olinda, o Bola Preta, e demais blocos alternativos do Rio de Janeiro e S. Paulo, estão fazendo retornar o hábito do carnaval bagunçado, tão comuns nas décadas de 1960, e 1970, principalmente. E quem viveu essa época, sabe muito bem do que estou falando, e cada qual guarda as suas saudosas lembranças. Eram carnavais participativos, sem estrelismos, sem cordas, mas com muita folia, que levava o folião comum a ter os seus momentos de glória, fantasiado de sonhos. Aqui na Bahia, já haviam os trios elétricos, e todos corriam atrás deles, sem maiores preocupações, pois a violência se limitava a pequenas escaramuças, logo contidas pela polícia, ou mesmo, por outros foliões mais moderados. Quem fosse preso, ficava fora de circulação, só retornando às ruas na quarta-feira, com boas desculpas arranjadas para as famílias, e as namoradas. As meninas, quase sempre fantasiadas, mostravam a sua competência cheias de babados, lantejoulas e purpurinas, que realçavam as suas belezas sob os reflexos das luzes. Sorrisos rasgados, olhares provocativos, piscadelas discretas, e namoricos que duravam apenas os dias de Momo, o rei da folia, que saía pelas ruas das cidades, sob os acordes de clarins, despertando a cidade para a festança.

Alguns desses carnavais foram memoráveis, e imortalizaram muitas marchinhas que eram cantadas nas ruas decoradas com temática colorida, alusiva aos festejos. Nos salões dos clubes, em bailes alegres e descontraídos, havia espaço para concurso de fantasias, com renhidas disputas,nas diversas categorias estabelecidas. Por ser “carnavalia”, a festa da carne do mundo antigo, as pegações até aconteciam, e nove meses depois, nas “safras” correspondentes, os “buguelos” denunciavam o ocorrido, e não foram poucos os casos de casamentos forçados, quando o “ricardão” queria “morder a corda, e sair pela tangente, evadir-se sem assumir as suas responsabilidades. Em situações opostas, algumas donzelas choravam os seus desgostos, os seus desenganos, enquanto pais furioso armavam-se até os dentes, para lavar a sangue, a desonra acontecida.

Velhos carnavais da minha juventude, que me faziam passar horas sob uma cajazeira temporã, catando seus frutos, sobre a grama da fazenda, para fazer dinheiro vendendo-os nas fábricas de sorvetes, e picolés. Os primeiros pileques por efeito de generosas doses de conhaque, para perder a timidez, e encarar as lindas moçoilas de então, sob o risco de algum pai, ou irmão mais explosivos, me desmontarem com um bom tapa na “broca do ouvido”, para proteger a sua filhinha, ou irmãzinha. Pierrôs, desajeitados circulavam pelos salões abarrotados, acompanhados de marinheiros, índios, ou macacões enormes, com pernas e braços enrolados, pois os donos eram maiores. Os clubes Social de Ilhéus, Bancários, Comerciários, e depois da ponte, o Social do Pontal, promoviam bailes, onde orquestras animadas que tocavam até o dia amanhecer, quando corríamos até a padaria do “seu” Pereira Ventin, para devorar os pães com manteiga ainda quentinhos, da primeira fornada.

Nas ruas decoradas, blocos de empolgação, como o do Toroco, o Tengão, a Zorra, Cooperfolia, dentre outros, desfilavam sob animados acordes de marchas e frevos inesquecíveis, ou mesmo, músicas próprias, como o Só o Amor Constrói, ou as Escolas de Samba, como a do

Agostinho, ou do São Sebastião, prendiam os foliões e espectadores, até a madrugada das Quarta -Feiras de Cinzas, quando a folia se encerrava. “Quanto riso, quanta alegria”…

A propósito disso, escrevi há alguns anos, essa trova que de bons carnavais nos lembrávamos:

O Zé Carlinhos levantou/e Mascarenhas de “prima”/a velha bola tocou/e que ninguém lhes reprima! De velhos carnavais alembrou/ de blocos e batucadas de cima./O Anisão se tocou,/fazendo surgir a rima… Rabat, então publicou/no site que nos anima/a debater com furor/e que todo o povo se frima, Pois Carnaval que bombou,/de forma que nos dirima/foi carnaval que passou/com a turma lá de cima… Foi Agostinho, que sambou/e Toroco que não rima,/mas lembrando aquele Pierrot, os meus “zóio” se lagrima… Até Mundinho se mudou/pros “carnavá” lá de cima/onde a turma se entocou/prá buscar uma nova rima… De Guerrinha quem lembrou?/e do Herval, do “véio Grima”!/E da Zorra que zoou?/ Corra atrás, não se reprima, do Tengão que já passou,/prá tocar mais acima,/no Carnaval do Dodô,/e Osmar. Que obra-prima!

Bons carnavais que ficaram no passado, atropelados pelos trios elétricos gigantescos, onde os novos foliões hoje seguem confinados por cordas, preservados por seguranças, que impedem o acesso dos “pipocas”, que seguindo ao lado, usufruem dos potentes autofalantes capazes de se fazerem-se ouvir a quilômetros de distância. Dos velhos adereços carnavalescos que abrilhantavam os desfiles, poucos sobraram trocados por latinhas de cerveja, mortalhas, e abadás, mais recentemente, quase sempre mutilados por customizações que mal lhes preservam o colorido. As meninas, que antes bebiam refrigerantes, e raramente cervejas, hoje também embriagam-se com bebidas mais pesadas, capazes de lhes deixarem mais ligadas, e descontraídas, para beijarem as muitas bocas que lhes são oferecidas. Para aguentarem o tranco, energéticos passam de mãos em mãos, e são misturados insensatamente com as bebidas alcoólicas disponíveis, deixando todos mais espertos, e despudorados. Sem falar de outros ingredientes que são usados para ficarem “de boa”.

O cenário é praticamente o mesmo, em todas as cidades que promovem o carnaval, com algumas variações regionais. Em algumas delas, a festa já começou, sem dar a menor importância para o calendário. Vi nos noticiários das emissoras baianas que em Salvador serão distribuídas as afamadas “pílulas do dia seguinte”, que podem até evitar uma indesejável gravidez, mas não evitam as DSTs que circulam livremente entre os jovens, cheios de tezão, hormônios à flor da pele, sem nem lembrarem das famosas “camisinhas”, também disponibilizadas nos postos de saúde.

E as músicas, será que ainda podem ser chamadas assim? Sei não. Sei apenas que a “evolução” foi muito rápida, e atropelou a minha geração. E sem entender direito o que está acontecendo, muitas vezes nos perguntamos, meio aturdidos: onde foi que nós erramos? Sinceramente? Eu não sei. Mas os bons carnavais ficaram no passado, com a turma lá de cima.

3 respostas para “CARNAVAIS COM A TURMA LÁ DE CIMA”

  • Anísio Cruz says:

    Por favor, leiam usufruem, em lugar de usufrui. Obrigado.

  • mendes says:

    Eu queria saber porquê nunca se fala no bloco Seca Copo, tradicional aí do Pontal, e digo mais bons carnavais não ficaram no passado, basta sair nesse bloco pra ver que tenho razão.

  • Anísio Cruz says:

    Mendes, eu posso falar do que vi e vivi. Acredito que hajam blocos como o referido (não duvido). Também não citei todos os blocos do passado, pois não era essa a minha proposta. O que me propus foi comparar os carnavais do passado, especialmente das décadas citadas, com os dos últimos anos. A diferença é gritante, podes acreditar. O carnaval de Ilhéus era considerado um dos melhores do Brasil, como poderão testemunhar todos os que os viveram, e que sejam da minha faixa etária (69 anos). Hoje, nem temos mais carnaval, exceto por alguns heróicos carnavalescos persistentes, aos quais parabenizo. E viva o “Seca Copo”!

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