A história do Brasil está repleta de mitos nos quais acontecimentos reais se confundem com situações imaginadas pelas gerações posteriores, conforme a conveniência de cada momento. Um desses mitos está relacionado ao papel desempenhado pela maçonaria em 1822 e, por ele, a separação de Portugal teria sido tramada dentro das lojas maçônicas nos meses anteriores ao “Grito do Ipiranga”. Realmente, a maçonaria teve papel primordial na Independência, mas é um erro aponta-lo como um grupo homogêneo.
Em 1822, a maçonaria brasileira estava dividida em duas grandes facções. Ambas eram favoráveis à independência, mas a corrente liderada por Joaquim Gonçalves Ledo defendia ideias republicanas e a outra, de José Bonifácio de Andrade e Silva, acreditava em manter D. Pedro em regime de monarquia constitucional. E, por interesse em vigiar as diversas correntes políticas da época, D. Pedro participou ativamente das duas facções.
Nas lojas maçônicas foram discutidas e aprovadas importantes decisões, como o manifesto que resultou no “Dia do Fico” (9 de janeiro de 1822), a convocação da Constituinte, os detalhes da aclamação de D. Pedro como “defensor perpétuo do Brasil” e, finalmente, como imperador no dia 12 de outubro. Numa época em que ainda não havia partidos políticos, foi o trabalho das sociedades secretas que levou a semente da independência às regiões mais distantes do território.
Um exemplo é a distante vila de Parnaíba, responsável pelo primeiro grito da Independência do Piauí. A iniciativa partiu da loja maçônica local, liderada pelo juiz João Cândido de Deus e Silva e pelo coronel Simplício Dias da Silva. Era formado em Coimbra e um dos homens mais ricos do Brasil. Tinha 1.200 escravos e no final do século 18 chegou a abater 40 mil bois por ano, transformados em charque, banha e couro curtido.
Após abertura dos portos em 1808, esses produtos eram transportados por uma frota privada de 5 navios que cruzavam o Atlântico em direção à Europa, aos EUA e às capitais do Nordeste e Sul do país. Simplício acumulou uma fortuna tão grande que mantinha uma orquestra particular nos seus domínios. Teria presenteado D. Pedro com um cacho de bananas em tamanho natural, todo em ouro maciço incrustado com pedras preciosas.
No começo do século 19, a maçonaria era uma organização altamente subversiva, comparável ao que seria a Internacional Comunista no século 20. Nas reuniões, conspirava-se pela implantação de doutrinas políticas que estavam transformando o mundo. Cabia aos seus agentes propagar essas novidades nas “zonas quentes” do planeta. A mais quente era a América que, depois de três séculos de colonização, começava a se libertar de suas metrópoles e a testar essas ideias. A presença de militares e intelectuais maçons estrangeiros nas guerras de independência do continente nesse período é marcante.
No Brasil há dois casos exemplares. O primeiro é o general francês Pierre Labatut, que comandou as tropas brasileiras na guerra da Independência da Bahia. Sabe-se que ele nasceu em Cannes, serviu no Exército de napoleão, lutou contra os ingleses nos Estados Unidos e, algum tempo depois, estava ao lado de Simón Bolívar na independência da Venezuela. Dessa forma, sem houvesse maiores referências sobre o seu passado, foi imediatamente contratado por D. Pedro para comandar o exército na Bahia. A pergunta é: _ de onde veio tanto prestígio?

Para o historiador Braz do Amaral a indicação para o posto partiu da maçonaria, pois o seu nome foi sugerido a José Bonifácio pelo Frei Francisco Sampaio, que era um importante líder maçônico do Rio de Janeiro. Outro caso é o do português João Guilherme Ratcliff, um dos réus da Confederação do Equador. Maçom e republicano, ele viajou por diversos países e aprendeu várias línguas. Em Portugal, foi um dos líderes da Revolução Liberal do Porto de 1820.
No ano seguinte, redigiu o decreto de banimento da rainha Carlota Joaquina, que se recusou a prestar juramento à nova constituição liberal na volta da corte de D. João a Lisboa. Ratcliff pagou um alto preço pela atitude, pois em 1823 fugiu de Portugal depois do golpe absolutista de D. Miguel. Passou pela Inglaterra, pelos Estados Unidos e chegou a Pernambuco, onde foi preso e despachado para o Rio de Janeiro. D. Pedro I ordenou que ele fosse sumariamente sentenciado, condenando-o a morte na forca e, numa versão nunca comprovada, sua cabeça teria sido salgada e enviada por D. Pedro à mãe – Carlota Joaquina – como vingança pelo decreto de banimento de 1821.
As origens da maçonaria se perdem nas brumas do tempo e, na falta de documentos, as informações têm mais o aspecto de lenda do que de realidade que se possa comprovar. Entre os maçons, acredita-se que as sociedades secretas são herdeiras dos símbolos dos antigos construtores do templo de Salamão e, esses segredos, teriam chagado ao Ocidente pelos cavaleiros templários. No começo do século 14, os templários haviam acumulado tanto dinheiro que seu poder rivalizava com o dos reis e do próprio Papa.
Eles haviam se tornado um banco internacional, financiando guerras e expedições dos monarcas europeus. Entre os grandes devedores estava o rei da França – Felipe IV que, sem condições de pagar a dívida, teria convencido o Papa Clemente V a extinguir a ordem e confiscar seus tesouros. O último grão-mestre templário – Jacques de Molay – foi executado em 1314 e, no entanto, muitos monges guerreiros sobreviveram à perseguição. Parte deles se refugiou na Escócia, a qual era considerada o berço mundial da maçonaria. Outros foram acolhidos em Portugal, pelo rei D. Diniz.
Os primeiros grupos maçônicos surgiram nos canteiros de obras da Idade Média, na construção das grandes catedrais que hoje deslumbram os turistas. Em 1717, ano oficial do nascimento da maçonaria, os quatro “lodges” de Londres se unificaram numa única Grande Loja. A primeira reunião se realizou em uma cervejaria chamada “Goose and Gridiron”, situada na catedral de Saint Paul. A maçonaria estaria por trás de várias das grandes transformações ocorridas nos dois séculos seguintes. Na Revolução Francesa, cunhou o lema “liberdade, igualdade e fraternidade”.
Em nenhum outro episódio a atuação da maçonaria foi tão decisiva quanto na independência americana. Dos 56 homens que assinaram a declaração, 50 eram maçons, incluindo Benjamin Franklin e o próprio George Washington. Os símbolos maçônicos estão hoje na nota de um dólar e espalhados pela arquitetura americana. No Brasil, a Independência foi proclamada por um grão-mestre maçom (D. Pedro I) e a República, por outro, o Marechal Deodoro da Fonseca. Entre os 12 presidentes da Primeira República, 8 eram maçons. O primeiro ministério era todo maçom, incluindo Rui Barbosa, Quintino Bocaiuva e Benjamin Constant.
 
Colaboração de Luiz Castro
Grau 33 – Rito Brasikeiro
ARLS Elias Ocke – Ilhéus – Bahia