Era uma noite de lua cheia, mas que a natureza, com seu sábio relógio, adora pregar peças em turistas desavisados e desinformados. Ilhéus, rainha do sul da Bahia, cercada por manguezais que parecem saídos de um quadro de Tarsila do Amaral, entrava no famoso período da andada. Para quem não sabe, a andada é o momento em que os guaiamuns, aqueles caranguejos azuis grandalhões, com pinças que parecem alicates de mecânico, resolvem que está na hora de fazer amor. E, para isso, eles saem em massa dos mangues, atravessam ruas, invadem quintais, restaurantes e, claro, hotéis.

O Hotel Pousada Terras do Sem Fim, charmoso, com apartamentos térreos bem próximos da praia, se tornou o paraíso de turistas incautos.

O nome “Terras do Sem Fim” já deveria ter sido um aviso: aqui o misterioso acontece com os hóspedes que despretensiosamente desconhecem as regras da natureza litorânea.

O casal em questão, vamos chamá-los de Seu Jorge e Dona Maria ambos com aquela cara de quem “merece umas férias tranquilas, chegaram cheios de expectativas românticas. Malas abertas, chinelos Havaianas premium jogados no chão, toalhas particulares, cheirosas, prontas para serem esticadas na areia e, o pior de todos os pecados capitais em época de andada: a porta da varanda térrea foi esquecida escancarada “para sentirem a brisa do mar”.

Deixa aberta, Jorge! Tá tão abafado! disse Maria, abanando o decote com o cardápio do restaurante.

Eles foram jantar. Moqueca apimentada, caipirinha, violão ao fundo, tudo perfeito. Enquanto isso, lá fora, uma legião de guaiamuns de elite, os mais abusados do manguezal, farejava o ar. “Tem cheiro de chinelo novo, de pasta de dente mentolada e de mala aberta com roupa limpa. É hoje!”

Quando o casal voltou do jantar, de mãos dadas e com aquele sorriso bobo de quem comeu bem demais, o cenário era outro.

Primeiro veio o barulho. Um clac-clac-clac ritmado, como se alguém estivesse batucando com talheres na pia.

Que isso, Jorge? O ar-condicionado tá com defeito?

Eles acenderam as luzes.

O que viram jamais será esquecido enquanto viverem.

Havia uns quinze guaiamuns de tamanho respeitável (alguns pareciam ter feito academia no mangue) passeando pelo apartamento como se tivessem comprado o imóvel. Um deles, o líder, claramente, estava empoleirado na pia do banheiro. Tinha subido pela toalha felpuda branca como um alpinista profissional e agora tentava, com pinça cirúrgica, abrir o tubo de Colgate Total 12. Outro, mais romântico, se instalara dentro do box do chuveiro, abrindo e fechando as pinças como segurança de balada: “Pode entrar, mas não faz gracinha”.

O mais audacioso de todos tinha arrastado um chinelo Havaianas Topázio (R$ 89,90 na promoção) para debaixo da cama, provavelmente para usar como ninho ou troféu de guerra. Dois outros haviam entrado nas malas abertas e faziam um inventário minucioso das cuecas e sutiãs, revirando tudo com a delicadeza de fiscais da Receita.

Meu Deus do céu, Jorge! Os caranguejos invadiram! gritou Maria, subindo na cama como se fosse um navio afundando. 

Jorge, tentando manter a dignidade masculina, pegou a vassoura do armário.

Calma, mulher! São só caranguejos! Eu resolvo isso!

Foi aí que começou a Batalha de Ilhéus.

O primeiro guaiamum que ele tentou enxotar respondeu com uma pinçada tão precisa na vassoura que voava de um lado para o outro agarrado a piaçava. O bicho ainda fez um barulhinho que soou perigosamente como “tá louco, paulista?”. Maria pegou o balde de gelo do frigobar e começou a jogar cubos como granadas. Um guaiamum escorregou, bateu com a carapaça no rodapé e saiu girando como pião, mas se recuperou e contra-atacou, agarrando na perna da calça de Jorge.

Tá subindo! Tá subindo! Tira! Tiraaa!

Os gritos acordaram metade do Hotel. Hóspedes abriram portas, só para ver um homem batendo vassouradas no ar, uma mulher jogando gelo e caranguejos saindo de todas as direções.

O segurança do hotel, um senhor perto dos sessenta anos que já tinha visto de tudo, apareceu de chinelo e lanterna.

Ih, minha filha… vocês deixaram a porta aberta na andada? Pois é… isso aqui não é invasão, é reintegração de posse. Essa praia era deles antes de ser nossa.

O proprietário do hotel, Leonardo, chegou assustado, tentando manter a compostura.

Calma, pessoal! Vamos resolver isso civilizadamente!

Civilizadamente? Os guaiamuns não estavam nem aí para diplomacia. Um deles havia encontrado o pacote de biscoitos de queijo e agora defendia o território com ferocidade. Outro estava dentro da mala de mão, provavelmente escolhendo qual perfume levar de recordação.

A operação de resgate durou quase duas horas. Foi uma verdadeira Odisseia dos Guaiamuns. Vassoura, balde, toalhas molhadas, chinelo voador, grito agudo de Maria em mi bemol, xingamentos que o guaiamum jamais tinha ouvido no manguezal. Em determinado momento, Jorge tentou usar o secador de cabelo como arma de choque, mas só conseguiu assustar a si mesmo.

Quando o último caranguejo foi devidamente devolvido ao manguezal (com direito a discurso do segurança: “Vai com Deus, cumpadi, e leva essa pinça pra tua patroa”), o quarto parecia um campo de batalha. Chinelo mordido, toalha rasgada, gelo derretido pelo chão, malas reviradas e um cheiro leve de mangue que jamais sairia da memória olfativa do casal.

Sentados na cama, exaustos, Jorge e Maria se olharam.

Amor… ,disse ela, ainda tremendo, nunca mais deixo porta aberta.

Nem janela, completou ele.

No dia seguinte, no café da manhã, o casal foi recebido como heróis de guerra. Os outros hóspedes queriam detalhes. Leonardo ofereceu uma rodada de pão de queijo e, com um sorriso maroto, entregou um pequeno folheto que ele mesmo tinha mandado imprimir:

AVISO IMPORTANTE AOS EXCURSIONISTAS.

“Prezado hóspede, que se dirige ao litoral baiano: Saiba que, entre os meses de janeiro e abril, aproximadamente, ocorre a andada dos guaiamuns. Durante este período, os simpáticos crustáceos consideram qualquer porta aberta como convite para festa. Deixe a brisa do mar entrar, sim. Mas fechem a porta, pelo amor de São Jorge.

Caso contrário, prepare a vassoura, o balde de gelo e os pulmões. Porque os guaiamuns não vêm em paz. Eles vêm em andada.”

“Eles eram donos da praia antes de nós. Estamos apenas alugando.”

Jorge e Maria riram. E, no fundo, sabiam que aquela história entraria para o repertório eterno das férias: “Lembra quando fomos invadidos pelos caranguejos assaltantes?”.

Moral da história: quem vai para o litoral baiano em época de andada precisa entender uma coisa fundamental, a natureza não tira férias. E, às vezes, ela tem quinze pares de pinças e zero respeito por chinelos Havaianas Topázio.

 

Leonardo Garcia Diniz Hotel

Pousada Terras do Sem Fim