AGRISSÊNIOR NOTICIAS – Edição 680 – ANO XV – Nº 04 – Agosto de 2018

SOS VELHO CHICO
Luiz Ferreira da Silva
A preocupação maior, em termos de degradação dos ecossistemas brasileiros, recai na Mata Atlântica, no Trópico Úmido da Amazônia e no Cerrado, sobretudo do planalto central.
Os “olhares” pouco se voltam às matas do semiárido, notadamente as Caatingas, justamente a região mais deteriorada e, por suas condições fisiográficas aliadas ao clima, que está sujeita à desertificação, em termos de degradação do trinômio – solo, água, vegetação.
Isso porque se trata de um ecossistema frágil, sobre o qual se insere a energia solar intensa, com 300 dias de sol pleno, resultando uma evaporação avassaladora. Em outras palavras, a chuva que cai, grande parte é devolvida para o espaço. Tal fenômeno advém concentração de sais, tanto hídrica, quanto no solo.
Mas a Natureza compensou essa região com um caudaloso manancial de água, o Rio São Francisco. Conhecido como o “rio da integração nacional”, é a bacia hidrográfica mais importante do Nordeste.
Ele tem aproximadamente 2. 700 km de extensão, entre o seu nascedouro, na serra da canastra (MG) e a sua foz, no Peba (AL), subdividindo-se em ALTO (da serra da canastra até Pirapora), MÉDIO (de Pirapora até Remanso), SUBMÉDIO (de Remanso até Paulo Afonso e BAIXO São Francisco (de Paulo Afonso até o Oceano Atlântico).
Desenvolvia-se em seu leito um plâncton rico – organismos que vivem em suspensão na água – base da sua cadeia alimentar, fundamental ao desenvolvimento dos organismos maiores, a exemplo dos peixes e outros animais aquáticos.
O homem ribeirinho se fartava desses frutos fluviais; vivia feliz e mantinha nutrida sua família de proteínas de alta qualidade.
Quem não se regalou do surubim, de sabor inigualável, ao comer tão apreciada iguaria às margens do Velho Chico em uma pensão humilde lá para as bandas de Propriá, SE? E também não se deliciou com as pilombetas de Pebas/Al, pequenos peixes salgados e enfileirados em cordéis nos varais, secando-se a pleno sol, juntando a energia deste com a do rio dadivoso?
Hoje, o surubim está em fase de extinção, significando um alerta da degradação ambiental das águas e da falta de condições para a sobrevivência da espécie. Outros peixes, além do surubim, também estão em situação crítica, inclusive a pilombeta dos tomadores de cerveja.
O que aconteceu?
A extração de carvão, a monocultura e a atividade pecuária são os fatores responsáveis pela deterioração do rio São Francisco e de seus afluentes. Isso porque o desmatamento das matas ciliares faz com que aumente o número de sedimentos que se depositam no fundo dos rios. Quando acumulados, os resíduos interferem no fluxo das águas, secando as nascentes. Ademais, a falta de tratamento de esgotos (urbanos e industriais) é o responsável maior pela morte ictiológica.
Não se pode dissociar a deterioração do Velho Chico do mau uso da vegetação que lhe margeia, a caatinga.
Antigamente, aprendendo com a natureza e respeitando seus recursos naturais era possível viver e conviver com o semiárido. No sertão, milhares de famílias viviam do trabalho na agricultura e na pecuária cultivando sua cultura e suas tradições em harmonia com o meio ambiente. No entanto, com a degradação dos recursos naturais, essa realidade se foi por terra.
As ações antrópicas e atos irracionais – mau uso do solo, desmatamento criminoso e inadequação de cultivos – destruíram mais de 50% dessa floresta e comunidades afins, havendo a necessidade de recompor as áreas em processo de deterioração solo/vegetação, sobretudo a mata ciliar.
Pois bem. Enquanto o Velho Chico agoniza, investiu-se bilhões na transposição de suas águas, quando o problema do Nordeste é a distribuição hídrica espacial e, ademais, não dispõe dessa água, haja vista o assoreamento de seu leito e a morte de muitos de seus afluentes. Só o custo de manutenção dos canais e estações elevatórias ascende a R$ 500.000.000,00.
A lógica seria a revitalização do São Francisco, centrada na recomposição florestal de suas margens e das respectivas fontes hídricas da bacia hidrográfica, capaz de inverter o processo, restabelecendo toda a bacia deteriorada e mutilada pelas ações antrópicas exercidas ao longo do século XX, como muitos estudiosos nordestinos tem clamado
É importante contextualizar a interação vegetação & hidrologia para que se tenha ideia da importância da mata ciliar.
Anos atrás, tal cobertura florestal protegia o solo e direcionava o fluxo hídrico para os caminhos demandados pelo ecossistema, sobretudo recarregando os lençóis freáticos.
Dessa forma as águas do Velho Chico eram cristalinas, sem carreamento de material sólido; a máxima enchente era de 12.000 m3/s e a mínima 5.000 m3/s, em termos gerais. Era, pois, um rio em perfil de equilíbrio.
E, hoje? Vale desnudado, rio morrendo, a miséria se multiplicando a olhos vistos e os políticos usufruindo da famosa indústria das secas!
ENSINAMENTO DA NATUREZA. As águas se enriquecem, repartem bônus e seguem seu curso para atender compromissos com o Mar. O trabalho não para evitando perdas para o ecossistema e para o homem.
ESQUERDA E DIREITA E A SUA CONVERGÊNCIA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Fernando Alcoforado
Engenheiro, Professor e Escritor.
O Brasil, como organização econômica, social e política, está em desintegração. Os sinais de desintegração são evidentes em todas as partes do País. É sabido que o nível de bem-estar desfrutado pela população de um país determina o índice de governabilidade existente em um dado momento. Em outras palavras, quanto maior é o estado de bem-estar social maior é a estabilidade política de um país. Por isso, para poder governar, todo governo deve buscar a melhoria do bem-estar material da população. E, para melhorá-lo, o governo precisa promover o desenvolvimento econômico para gerar emprego e a distribuição da renda. A estagnação econômica atual que tende a se agravar no Brasil, além de elevar o desemprego e afetar negativamente a distribuição da renda, pode reduzir as receitas do Estado e exigir cortes no orçamento do governo brasileiro como já está ocorrendo. Com os cortes no orçamento, o governo brasileiro fica impossibilitado de realizar investimentos em benefício da população para elevar o seu nível de bem-estar social.
A incapacidade do governo brasileiro e das instituições políticas em geral de oferecer respostas eficazes para superação da crise econômica recessiva em que se debate a nação brasileira e debelar a corrupção desenfreada em todos os poderes da República na atualidade tende a contribuir para o aumento da violência política no Brasil. Sem a solução desses problemas, o País poderá ficar convulsionado como aconteceu na década de 1960 do século XX quando setores da extrema-direita arquitetaram o golpe de estado que derrubou o presidente João Goulart. O caos poderá se instalar novamente no Brasil com o incremento das manifestações da população nas ruas e a presença das milícias de direita e de esquerda para combater seus opositores.
Da mesma forma que as SA (milícias nazistas) e grupos paramilitares comunistas surgiram e se confrontaram com extrema violência na Alemanha durante a República de Weimar após a 1ª Guerra Mundial, o mesmo pode acontecer no Brasil antes, durante e após as eleições a depender de quem vença essas eleições. A violência que venha a ser praticada pelas milícias de direita e de esquerda poderia criar um ambiente de convulsão social que ofereceria a justificativa necessária para que seja patrocinado um novo golpe de estado no Brasil visando a manutenção da ordem política, econômica e social. Se esta violência atingir níveis críticos antes das eleições poderá contribuir até mesmo para não haver eleições.
O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, que acompanhou os terríveis anos nazistas de Berlim, escreveu em 1985 um livro chamado A Lei e a Ordem (Editora Instituto Liberal, 1997), quando afirmou que a anarquia, definida como ausência generalizada de respeito às normas sociais, costuma anteceder aos regimes totalitários. No estado de anarquia, as normas reguladoras do comportamento das pessoas perdem sua validade. As violações de normas simplesmente não são mais punidas. Neste contexto, todas as sanções parecem ter desaparecido. O “contrato social”, entendido aqui como normas aceitas e mantidas através de sanções impostas pelas autoridades competentes, é rasgado, restando o vácuo em seu lugar. Tudo passa a ser visto como permitido, já que nada mais parece ser punido.
Não há como dissociar esta situação descrita por Dahrendorf do grave momento atual do Brasil onde a impunidade é crescente e os valores básicos da civilização estão completamente enfraquecidos. Políticos cometem crimes à luz do dia, nada acontece, e os próprios eleitores ainda votam neles novamente. Condenados de “colarinho branco”, por exemplo, vão à prisão, mas logo depois são libertados. A crença de que as leis não funcionam mais é generalizada no Brasil. O Brasil já está vivenciando, infelizmente, a anarquia descrita por Ralf Dahrendorf. Algo precisa ser feito urgentemente, porque vivemos uma crise econômica e uma crise de valores morais com a falência das instituições necessárias para a manutenção da lei e da ordem que estão a exigir uma reforma do Estado e uma reforma política radical. A continuidade da situação vivida atualmente pelo Brasil no âmbito do Estado e da Sociedade Civil é insustentável abrindo caminho para um tempo de catástrofe no País.
No cenário político nacional existem forças políticas de esquerda, forças políticas de direita e liberais que se digladiam entre si na luta pelo poder político. Entre as forças políticas de esquerda existem setores radicais que lutam pela revolução socialista e há outros setores que participam de eleições para acumular forças fazendo aliança com liberais ou até mesmo forças de direita para galgar o poder democraticamente. O que unifica estas forças de esquerda é a luta contra as desigualdades sociais. Entre as forças políticas de direita há setores que são partidários da intervenção militar para combater a corrupção e impedir a ascensão da esquerda e a volta do PT e aliados ao poder e há outros setores que consideram importante manter e galgar o poder participando de eleições quando as condições lhes são favoráveis. O que unifica estas forças de direita é a luta pela manutenção do “status quo” político, econômico e social. Entre os liberais há setores que consideram importante manter e galgar o poder participando de eleições fazendo aliança inclusive com determinadas forças de direita e de esquerda e há outros que são partidários da intervenção militar para impedir que as forças de esquerda galguem o poder. O que unifica os liberais é a luta pela manutenção do “status quo” político, econômico e social ou, em última instância, por mudanças que não comprometam seus interesses fundamentais.
O futuro do confronto entre a esquerda e a direita vai depender do resultado das eleições de 2018. Se for eleito um candidato presidencial que não apresente nenhuma perspectiva de superação dos problemas políticos, econômicos e sociais do Brasil, seja ele ou ela liberal ou de direita, não terá condições de governar porque poderá haver o desencadeamento de violência pelas forças de esquerda e de reação das forças de direita e liberais em defesa do novo governo que pode levar o País ao estado de exceção para manter a ordem. Se for eleito um candidato que apresente proposta de superação dos problemas políticos, econômicos e sociais do Brasil, seja ele ou ela de esquerda, não terá condições de governar porque haverá o desencadeamento de violência pelas forças de direita e pelos liberais e de reação das forças de esquerda em defesa do novo governo que pode levar o País ao estado de exceção para manter a ordem. Está claro que as forças políticas de esquerda, sobretudo as radicais, consideram inaceitável a direita no poder, especialmente se Bolsonaro vencer as eleições presidenciais. O país poderia ser convulsionado, nessas circunstâncias. As forças políticas de direita e setores liberais consideram inaceitável a esquerda no poder, especialmente candidatos do PT, PSOL e PC do B. O país poderia ser convulsionado, nessas circunstâncias.
O único cenário que evitaria o desencadeamento de violência entre a direita e a esquerda seria o surgimento de um candidato que tenha a capacidade de aglutinar a nação brasileira em torno de um projeto comum que deveria resultar de um amplo debate em uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva que o futuro presidente da República convocaria após sua eleição em 2018. A Assembleia Nacional Constituinte serviria para, não apenas deliberar sobre o futuro econômico, político e social do Brasil, mas, sobretudo para celebrar um pacto social e com isto fazer com que a paz social se sobreponha ao conflito social que resultaria se não for adotado este caminho.
Para evitar que a violência política atinja níveis críticos no Brasil, urge a refundação da República que é, no momento, uma mera peça de ficção. República é uma forma de organização do Estado cujo termo vem do latim res publica que significa “coisa pública”, “coisa do povo”. Um governo republicano é aquele que põe ênfase no interesse comum, no interesse da comunidade, em oposição aos interesses particulares e aos negócios privados fato este que não ocorre no Brasil. A crise política, ética e moral, que abala atualmente o Brasil, resulta, fundamentalmente, da falência do modelo político aprovado na Constituinte de 1988. A falência do modelo político do Brasil está configurada no fato do presidencialismo em vigor desde 1989 ser gerador de crises políticas e institucionais como as que estão ocorrendo. Além disso, o sistema político do País está contaminado pela corrupção como comprovam os processos do “Mensalão” e da Operação Lava Jato. Para reconstruir as instituições políticas do Brasil e construir a paz social, é preciso que o povo brasileiro se mobilize para exigir a imediata convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva para celebrar um novo pacto social visando reordenar a vida política e econômica nacional em novas bases
O PENSAMENTO DA SEMANA
É preciso amar as pessoas como se elas fossem sexta-feira.
A POESIA DA SEMANA
Timidez
Cecília Meireles
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
– mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras distantes…
– palavras que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
– que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
– e um dia me acabarei.
A PIADA DA SEMANA
Oi, Zé, não case com a Maria.
– Por que, ela não é uma moça trabalhadeira?
– Não é isso não.
– Então me explique? Pois vou lhe contar: ela é furada.
– Oxente, não vou carregar água nela!?
oOo
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