Maria Regina Canhos Vicentin em: Será que temos esse direito?
Estamos nos aproximando do dia das mães. Quero lançar alguns questionamentos, baseada em uma situação que presenciei na semana passada. Uma jovem mãe, grávida de seu quinto filho, participava de uma festa com seu esposo e conversava animadamente entre amigos, enquanto sua filha mais velha, de apenas dez anos, cuidava dos irmãos, privando-se das brincadeiras com as coleguinhas e atividades lúdicas disponíveis no local. A menina estampava frustração e cansaço em seu rosto. Imagino, no entanto, que maior dor estava escondida dentro de seu abnegado coraçãozinho. Sinceramente, fiquei arrasada!
A maternidade já foi várias vezes apresentada em seu melhor ângulo, o sublime. A mulher que se dispõe a doar seu corpo e tempo na produção de um novo ser. Também foi abordada em algumas de suas piores facetas, como nos casos de abandono e rejeição. Pouco se fala, no entanto, das mães que sacrificam os filhos para realizarem sonhos próprios. E aqui, lamentavelmente, as situações são inúmeras.
Muitas mulheres delegam a terceiros os cuidados com os filhos pequenos, pois precisam trabalhar e se sentem cansadas para acumular funções. Outras se veem impossibilitadas de gozar plena vida social em decorrência da necessária atenção que os filhos requerem. Algumas dividem com os próprios filhos os encargos adquiridos através da maternidade, considerando-os cúmplices em seu projeto de vida, ainda que na realidade não o sejam.
É muito fácil fazer cortesias com o chapéu alheio, mas, no meu entender, também é muito errado. Não podemos responsabilizar nossas crianças por compromissos que foram por nós assumidos. Aliás, filhos precisam ser planejados com amor e não simplesmente paridos aleatoriamente. Como diz padre Zezinho em um de seus livros: “filhos não são a nossa segunda chance na vida, são a primeira na deles”. Não podemos destituí-los do papel de filhos para aproveitá-los como cúmplices num projeto que nem é deles.
Assim mãe, se você deseja ter dez filhos, prepare-se para isso com seu esposo. Verifiquem se possuem estrutura para tal empreitada, evitando se amparar nos outros filhos para tanto, pois vocês podem os estar privando da própria vida em detrimento da de vocês. Isso não é justo com eles, assim como não está sendo justo com a menininha que mencionei. Ela não deveria ser obrigada a tomar conta dos irmãos enquanto seus pais conversavam descontraidamente com os amigos. Deveria estar brincando com as coleguinhas enquanto os pais cuidavam de seus outros filhos, pois essa é responsabilidade deles e não dela.
Neste próximo dia das mães vamos refletir acerca do papel que estamos assumindo. Será que temos o direito de exigir que nossos filhos assegurem a consecução de nossos sonhos? Ou eles devem se concentrar na realização de seus próprios sonhos? Podemos ser felizes subtraindo de nossos filhos a sua oportunidade de viver e sonhar?
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Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.


























































