A abolição da escravidão no sul da Bahia
Ronaldo Lima da Cruz

Passados 123 anos de abolição da escravatura, vale à pena fazer uma sorrateira análise sobre o fim do período escravista na Comarca de Ilhéus, que com extensão territorial muito dilatada, compreendia a vila de São Jorge dos Ilhéus, Cachoeira de Itabuna e Una – de acordo com o Recenseamento de 1872. Portanto, senhores leitores é desta região que passo a me ocupar deste momento em diante.

É comum a falta de informações sobre a Abolição da escravatura em nossa região, o que levou os memorialistas, cronistas e mesmo alguns historiadores da zona do cacau, repetidamente a omitir ou negar o uso da mão-de-obra escrava na lavoura cacaueira.

Quando da realização do recenseamento de 1872 , a população de Ilhéus não ultrapassava 5.600 habitantes, sendo que destes 1051 eram escravos. Todavia, estavam distribuídos em pequenas propriedades, e poucas famílias tinham mais que 30 cativos sob suas ordens.

Nas últimas décadas do século XIX, muitos cativos da nossa região fugiam para as matas, outros procuraram assinar seus senhores, e não foram poucos aqueles que utilizaram de estratégias para apressar a alforria. Nestes termos, Ilhéus e região não difere do restante do Brasil.

E não pensem os mais incautos que os libertos de Ilhéus debandaram para outras regiões…não, parece-me que a maioria deles permaneceram por aqui, muitos nas imediações do atual distrito de Castelo Novo, na Lagoa Encantada, rumo a Serra Grande. Há não poderia me esquecer, que o Pontal da Além também foi um dos locais onde muitos destes ex-cativos foram viver.

Mas a liberdade de 13 de maio de 1888, se foi conquistada a duras penas pelas revoltas de escravos, assassinatos de senhores, e o medo da elite de que o Brasil viesse a se tornar um Haiti. Não seria diferente o destino de muitos libertos da região que acabaram morrendo na mendicância, a exemplo da preta velha de nome Gertrudes, que perdeu o movimento dos dedos e das mãos, passando então há viver estirada em uma taboa, dentro de uma palhoça úmida, sofrendo as maiores privações. E sem poder trabalhar passou seus últimos dias de vida com fome e com partes do corpo coberto de bichos.

É por essas e outras que não podemos continuar “negando” a não existência da escravidão no sul da Bahia, chão de cacau.


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