Em Terras do Sem Fim, Jorge Amado  vai se abster de emitir julgamento de valor sobre a humanidade. A fatalidade  sugerida no clima que  a narrativa desenvolve emerge do desbravamento e conquista da terra, empresa trágica em seus rastros de desgraça, quase  impossível em si mesma de se realizar. Exigia homens rústicos  de forte determinação, vontade indomável na luta pela posse da  terra. Em epígrafe  extraída do romanceiro popular, o autor anuncia em Terras do Sem Fim que vai contar uma história  de espantar. Para  fugir  do  tom realista que essa história de espantar impõe  em seu argumento central, a luta entre o coronel Horácio e o clã  dos Badarós pela posse das terras  do Sequeiro  Grande, no antigo Pirangi, o autor  põe  na narrativa a  perspectiva de tragicidade. A atmosfera que envolve a luta pela posse da terra, já antes de acontecer, conota-se de presságios ameaçadores, havendo alusões no navio, logo no início da narrativa, quando então aparece a cor ensangüentada da lua sobre o mar, acontecem conversas de lamento e saudade, canções tristes como augúrios de desgraça.

Na segunda parte do romance, o autor refere-se à mata como uma virgem cuja carne nunca tivesse sentido a chama do desejo ( Conf. pág.44), mas que agora ia ser desejada pelos que chegavam  para recuá-la. Um deus terrível, a mata, com suas assombrações  infundindo medo no coração, nela somente morando o negro Jeremias, o que vivia com as cobras e fechava o corpo  dos homens  contra bala. O feiticeiro com suas pragas e visões, dizendo que cada pé de pau derrubado ia ser um homem derrubado, os urubus tantos que esconderiam o sol. ( Conf.pág.125)

Em Terras de Sem Fim há  lugar também para o amor, tema permanente em Jorge Amado, representado agora pela história da  ligação entre o advogado Virgílio e Ester, a mulher  do coronel Horácio. Mas a grande arte  de Jorge Amado está aqui expressa através da superação dos juízos ideológicos, construídos na reciclagem inteligente que o romancista imprime às constantes do velho Naturalismo, sempre estruturado com os  elementos referenciais de meio, momento e raça. Na dicção  poética apoiada nos cordéis a que recorre para projetar um vasto mural de cunho épico da civilização cacaueira baiana, Jorge Amado alcança com o discurso indireto, às vezes livre, uma das  realizações mais bem sucedidas a que  atingiu a ficção regionalista brasileira.

Romancista que narra o que viu,  viveu e presenciou, Jorge Amado usa a experiência pessoal para  revelar em Terras do Sem Fim a  situação crítica que certos personagens vivem. Do conjunto de cenas e situações, que formam o desenrolar  objetivo de acontecimentos, o narrador dramático emerge da expressão latejando sentimentos, vibrante de interioridade. No caso  do negro Damião, homem  de confiança  de Sinhô Badaró, certeiro de pontaria, incumbido de matar  o posseiro Firmo na mata do Sequeiro Grande, a tomada de consciência dessa situação, que sua profissão era matar, sendo assim a de um jagunço que, quando não havia  homens para derrubar na estrada, “ele não tinha nada que fazer” ( Conf. pág.80), esse mergulho terrível em si mesmo acontece no interior do pensamento. Era também um assassino, palavra justa  que o coronel Sinhô Badaró empregara a respeito do irmão naquela tarde, quando perguntou a Juca Badaró: Tu acha bom matar gente, negro? Tu não sente nada ? Nada por dentro? ( Conf. pág.66) Sentimentos tristes, imagens aflitivas, reflexões agudas, pensamentos carregados de dor fluem na narrativa hábil  para fixar o estado de remorso do jagunço. Não se cumpre a empreitada sinistra, o negro Damião preso ao seu desespero erra o tiro pela primeira vez e, como uma criança castigada pelo destino, vai errar  pelos caminhos do mato com a sua loucura.

*Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior. Atual diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.