Heckel Januário em: IMPREGNADA NA POLÍTICA BRASILEIRA
O pedido de perdão de Caminha ao rei português para o genro –desterrado por assaltar uma igreja e matar o padre– no finalzinho de sua famosa carta sobre a terra descoberta, ficou incrustado na história como nepotismo e como o pontapé inicial da corrupção política no Brasil.
Procede então, partindo desse princípio, ser realmente de “nascença” a corrupção no Brasil? A diferença de posição entre o Brasil e o seu principal ancestral europeu no ranking mundial da corrupção contesta o argumento da hereditariedade. Ademais se for relacionado o limiar da sociedade brasileira quando era impulsionada pelo vento e o vapor, com a dos dias de hoje, propulsionada por combustíveis como o petróleo, é possível notar que ela evoluiu para níveis muito além de suas raízes miscigenadas primitivas.
Anos atrás, teses e artigos, contrapondo este conceito, defendiam que a causa da corrupção no Brasil se assentava na quase inexistente fiscalização e auditoria do aparelho administrativo público, ou seja, não havia um “processo sistemático de auditoria”, como salienta Stephen Kanitz em seu texto “Origem da Corrupção” de 1999. Nele o professor Kanitz argumenta dentre outros enfoques que “A principal função do auditor inclusive não é a de fiscalizar depois do fato consumado, mas a de criar controles internos para que a fraude e a corrupção não possam sequer ser praticadas” e que “Não serão intervenções cirúrgicas (leia-se CPIs), nem remédios potentes (leia-se códigos de ética), que irão resolver o problema da corrupção no Brasil”
Descartada a questão dos genes, por outro lado, o andar da carruagem aponta que o Planalto não deu bola pro recomendado diagnóstico não governamental ou o medicamento fora ineficaz, pois a doença continuou terrivelmente a se manifestar. O saído do forno escândalo no Ministério dos Transportes é mais uma prova. Em direção à Emergência a presidenta Dilma enfatizou que seu governo vai combater a corrupção sistematicamente e que jamais irá abraçá-la. “Nós combateremos efetivamente”, completou. O “sistematicamente” e o “efetivamente” de alguma forma soaram positivos e esperançosos, embora não tenha declarado o método de controle da enfermidade, que bem pode ser o proposto da auditagem e fiscalização permanente, não aplicado, tudo indica. A oposição por sua vez, retornada ao Congresso do bem-bom recesso parlamentar, diante do quadro de progressão da doença, não hesitara, conforme notícias dos jornais, em dizer que volta disposta a “desgastar” a imagem do governo.
Longe das divergências democráticas, a exagerada simplicidade opositiva evidencia que o sistema governamental republicano brasileiro como um todo está bem distante do “harmônico” preceito constitucional, mesmo quando se trata de tentar erradicar uma doença impregnada na política brasileira e, causadora indireta de tanto mal a milhões de brasileiros.
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Heckel Januário


























































