por Guilherme Albagli

Podemos encontrar alguns pontos de convergência entre a romaria da Lapa e a História da Arte. Começando, pelo fundador da devoção, o artista português Francisco Mendonça Mar. Nos informa D. Turíbio Vilanuova que era filho de um ouriveis estabelecido na Baixa de Lisbôa, falido pela falta de ouro, num período de carência deste metal que ali chegava do Brasil. Mudou-se o jovem à Bahia, frequentando suas Mascaradas e Cavalhadas – festejos populares evitados pela elite local -. Pintor de sucesso, foi chamado pelo Governador para decorar o teto do seu palácio, ainda hoje de pé, na praça da Sé, em Salvador. O artista pagou as tintas, pincéis, os ajudantes e nada do dinheiro sair. Esperou muito, até escrever ao Rei pedindo providências. Chegando à Bahia um documento pedindo verificação do caso, o Governador trancafia o pintor por oito ou nove anos na cadeia pública. Ao sair, transtornado, imbuído numa crise de misiticismo certamente provocada pela depressão, pergunta nas ruas onde estava o lugar mais distante da Bahia, onde poderia chegar.

“Vá à Vila da Cachoeira, suba a margem do Paraguaçú até a sua nascente. Desça o Paramirim e atingirás o Opará, o grande rio. Adiante da sua foz está a Itaberabussú, “a grande pedra que brilha”, ao lado de um dos currais de Antonio Guedes de Brito, o Conde da Ponte. É o lugar mais longe, sertão adentro, onde poderás chegar” – foi mais ou menos assim alguém deve tê-lo informado-.

Caminhou semanas e meses e chegou à grande pedra, há mais de tres séculos. Encontrou ali algumas grutas e deve ter visto os vestígios da sua ocupação pelos Índios Acroá, nos periodos da cheias do rio. Escolheu uma das grutas como moradia, aquela voltada à margem do rio, que a chamou “da Soledade“, onde instalou a imagem da sua santa padroeira que trouxera da Bahia. Dizem que ficou ali vivendo, tendo como vizinhas apenas uma jibóia e uma onça. Instalou, na banda norte da pedra, numa outra gruta, a imagem do Bom Jesus que ficou tendo o sobrenome “da Lapa“.

A cada ano aumentava o numero de visitantes ao local. Dizem ter sido ali uma parada obrigatória dos poucos viajantes que cruzavam o rio, indo às bandas de Goiás. Dizem que todos que adoeciam, nas redondezas, corriam a um hospital improvisado que o Francisco Mendonça Mar instalara na esplanada à frente da Gruta do Bom Jesus. Quase todos os romeiros que  iam ali agradecer supostos milagres, levavam ex-votos de madeira, cerâmica ou cera de abelha, depositados no interior da gruta. Nos anos setenta, a congregação que mantém o santuário encomendou a uma equipe profissional uma apresentação museogáfica deste material num dos recôndidos da Gruta da Soledade. É uma grandiosa exibição da mais pura arte espontânea, popular, do sertão brasileiro. À frente da entrada da gruta, estão grandes esculturas modernistas fundidas em bronze, representando santos católicos, ali instaladas num dos vários períodos de remodelação do santuário.

Nas ruas, nos períodos de festa, entre Julho e Agosto, milhares de romeiros se acotovelam, quase todos com chapéus de palha forrados com pano branco e uma faixa verde acima da aba. Alto-falantes a toda altura, numa polifonia de músicas sacras e nordestinas, anuncios de restaurantes e hospedarias. Todos com seus pertences bem seguros à frente, pois são incontáveis os ladrões ao meio de todos. Na delgacia, presos, predominam aqueles chegados de Ilhéus. No mercado, restaurantes populares que vendem churrasco de rês, assado no carvão cheiroso de madeira da caatinga. Artesãos de toda espécie acorrem à lapa para venderem seus trabalhos de lata, de gesso, de madeira e camisetas estampadas a silk-screen. Os evngélicos, para não perderem o tom, armam circos e convidam Zezé de Camargo e Luciano ou o Palhaço Bozo para apresentação dos seus shows. É imperdível, a Festa da Lapa, mesmo para quem não professa a religião católica ou nenhuma outra.


*Guilherme Albagli
Departamento de Letras e Artes
Universidade Estadual de Santa Cruz