CAUSOS DE PIRANGY 

Aos domingos pontualmente às 10:00h na TV Educativa/Cultura, assisto o programa “Sr. BRASIL” com Rolando Boldrin, que  apresenta cantores regionais da musica popular brasileira, bem como  conta  causos caipiras bastantes engraçados. Outro robby cultural é ler as crônicas escritas por  Helio Pólvora, principalmente  seu livro “Crônica da Capitania”, que narra um causo ocorridos em Pirangy sobre um  individuo apelidado por  Galo Cego. Seu nome verdadeiro ninguém sabe até hoje. Tipo feio, asqueroso. Jamais o viram banhando-se no rio Almada, e parecia ter vindo ao mundo com aquela roupa esfarrapada e encardida. Os pés assemelhavam-se a cascos e no rosto despontava em touceiras e barba espinhenta. De vez em quando, em instantes de estupor, escorria-lhe a baba pelos cantos da boca.

Comentava-se em Pirangy que Galo Cego virava lobisomem na Sexta-Feira Santa. Moradores do local viram de longe, em noite de lua cheia, a transformação hedionda. Nos dias comuns, porém, Galo Cego vendia peixes. Carregava-os em duas pencas, um barbante prendendo-os pela boca.  A cauda dos robaletes arrastava-se, algumas vezes, pelo chão. Ainda assim, havia quem comprasse o peixe fresco de Galo Cego.

O gerente do Cine-Teatro Pirangy, detestava Galo Cego. Enxotou-o uma vez da porta do cinema, quando o pobre diabo, ou diabo pobre,  escancarava os olhos para os cartazes com as artistas quase nuas, isto é, com as coxas de fora e com os seios mostrando os sulcos. Certo dia no cinema  passou uma fita de cawboy e a emoção foi tão grande que um jagunço que assistia o filme entusiasmou-se tanto e gritou da platéia:

– Eu saco mais rápido!

E atirou na tela. A sessão acabou e o gerente do cinema fugiu para não devolver o dinheiro dos ingressos. Em outra ocasião,  um expectador jogou na tela um charuto grosso, ordinário, infelizmente aceso, e provocou um começo de incêndio.

Tumultos semelhantes a esses só foram superados em Pirangy por uma briga na Rua do Cacau que era a rua dos lupanares. Duas mulheres, ambas as damas da noite, naturalmente, engalfinharam-se aos gritos, às mordidas, aos puxões de cabelo. Xingavam-se com todo o esmero. Choviam palavrões, mais numerosos e cabeludos. No meio do despautério, sobressaiam duas afirmações:

– O homem é meu!

– Mentira sua! É meu!

Desapartada a feia briga, separadas as contendoras, que se encaravam  com ódio mortal, alguém foi chamar o delegado por sua vez encontrava-se refestelado numa cadeira do Cine-Teatro Pirangy. Estava na iminência de assistir uma película “Gilda” com mulheres nuas fazendo strip-tease. O delegado atento ao filme limpou os molhos com o lenço, abriu-os o mais que pôde, que era para enxergar tudo – mas deram-lhe um puxão no ombro. O cabo do destacamento convocava-o ao dever.

O delegado entrou irritado  na delegacia de policia e diante de si, vermelho de raiva, o delegado viu duas rameiras desgrenhadas, sem nenhum sex-appeal. Sem qualquer it, sem bulhufas de charme. Mandou lavrar os depoimentos. As mulheres reiniciaram a disputa pelo mesmo homem:

– Ele é meu!

– Sua descarada! É meu e não divido com ninguém!

– Mas afinal de contas, de quem se trata? Quem é o Romeu dessas Julietas desbragadas? – Indagou, com um murro na mesa, o delegado.- É Galo Cego  – informou calmamente o cabo.

 

Colaboração de Luiz Castro

Bacharel Administração de Empresa