por Tomé Pacheco

NO PRESÍDIO CARANDIRU (III)

Tomé Pacheco

Continuando com minhas Histórias de um Ilheense dentro do Presídio Carandiru inicio relatando o linguajar que os detentos tinham e que deu para gravar alguns como: Chico Doce(pedaço de pau), Maria Louca (cachaça feita de arroz), Jega (cama), Boi (privada no chão), Gererê (cigarro de maconha), Beca (roupa boa), Pizante (sapato), Gambê (polícia), Cana (policia civil), Couro Come (confusão), Cuzão (medroso), Cortado (comida melhor), Corror (xadrez), Vacilão (caguete), Primicia (careta), Cabeção (dono de coca), Correr Frouxo (liberado), Não Se Bula (não se mexa), Tem Brasa Aí? (acender cigarro), Divinéia (pátio de pavilhão), Jumbo (compras levadas pelas visitas), Sangue Puro (pessoa boa), Truta (pessoa amiga), Fazer Uma Goma (roubar), Requisitar (vamos conversar), Marcar Touca (vacilou, dormiu no ponto), Boleiro (costurador de bola), Arrombado (não presta, não vale nada), Marica (que cuidava do xadrez) etc.

O Pavilhão 5 era o famoso pavilhão dos “cuzões”, ou seja dos medrosos. Era onde abrigava os detentos marcados para morrer. Era onde ficava o Maníaco do Parque, estupradores e até os “travecos”, mas estes ficavam no porão. Certa vez um colega chegou “mamadão”, colocou um caixote na porta da cela para poder ficar na altura do guichê e já viu, deixou o “traveco” trabalhar certinho…

No 5º andar tinha uma ala de nome “Amarelão”, onde os detentos só saiam com escolta, e para tomar sol. Eles sentavam nas janelas e tomavam sol só nas pernas e nos braços. Quem passasse pelo metrô da Estação Carandiru dava para vê-los pendurados.

Tinha várias maneiras de entrar drogas na cadeia. Uma vez foi no bujão de gás. Um cara havia cortado um bujão de gás, colocado a droga e soldado. Para entrar no presídio, foi só corromper um colega com uma boa grana. O funcionário foi até um bar que ficava em frente ao presídio, pegou o bujão e tentou entrar. Como houve “cagoetagem”, o agente perdeu o emprego e ainda entrou em cana.

Já vi também alguns agentes entrarem com a droga dentro de tênis. Tiravam a sola, cavavam bastante e, ‘tome-lhe droga’.

Um dos detentos famosos que conheci, foi o “Luz Vermelha”. Como já estava preso havia mais de 28 anos, não tinha noção de mais nada. Houve ocasião em que mais ou menos às 2 da madruga ele começava a bater prato na porta da cela para chamar a atenção dos colegas, e gritava: “Socorro, a minha cela está cheia de cobras e de ratos!”. Era levado para o Jiqueri em Franco da Rocha. No processo da medição aplicava-lhe a famosa injeção “Sossega Leão”, então ele voltava calminho da silva. Outra alucinação dele era andar pelos corredores e quadras do Carandiru catando bituca (ponta de cigarro) no chão, e pedir café frio onde encontrasse para tomar.

Outro famoso detento foi “Chico Picadinho”. Um dos seus crimes foi esquartejar uma prostituta e colocar os pedaços do corpo na privada. Como deu descarga e nada desceu, ele pegou os pedaços e colocou num saco de lixo para os garis levarem. Como do saco pingava sangue, os garis acharam estranho e denunciaram a polícia. Ficou certo tempo preso e foi solto. Em liberdade cometeu crime semelhante. Daí o a alcunha de “Chico Picadinho”. Desde o último crime fazia 30 anos que estava preso.

“Bezerra” nos anos 60 foi o terror das madames nos bairros chiques de São Paulo como Morumbi e outros. Ele penetrava nas mansões e, além de roubar, estuprava as madames. Já tava também com mais de 25 anos de cadeia. Com o corpo todo marcado de queimadura de charuto e cheio de ferro enfiado no corpo, que eram os castigos recebidos no presídio, o cara foi mudando o comportamento e virou “meninona” lá dentro.

O pior pavilhão em termos de malandragem, dos “macacos velhos” (os mais espertos e calejados) era o Pavilhão 8. Só tinha “cobra criada”. Só iam pra lá os detentos que tinham mais de duas passagens pelo Carandiru, ou seja, era o pavilhão de reincidentes no crime. A guerra entre a malandragem e os policiais que ficavam numa muralha prestando serviço era constante.  Altas horas da noite os detentos ficavam mexendo com os PMs, e xingavam de tudo quanto era nomes feio. Um desses detentos, o Gambés, atrevido que só ele, num desses atritos com os policiais, disse: “Ó, tropa de cornos, vocês estão aí curtindo frio, e a mulher de vocês estão em uma caminha quente com os ‘Ricardões’ delas”. Pense, caro leitor, às 3 horas da manhã, um tremendo frio, os policiais só com os olhos de fora do agasalho e os vagabundos esculhambando! Como ninguém era de ferro, então o couro comia: Os policiais metiam balas em direção à malandragem. Duvido que os que ficavam tirando serviço na muralha não eram bons elementos. Acontece que, com uma tropa de sacanas os aborrecendo e os humilhando, ninguém tinha paciência, pois não tinham sangue de barata.

De vez em quando, o bando, todos bem armadas de pau, estiletes, chegava na “gaiola”, que ficava fechada com cadeados e rendia o agente. A patota chegava com ar ameaçador e intimava: “Chefia, abre esses cadeados que vamos ter uma parada na ala”. Abríamos e descíamos para chamar o reforço. Quando subíamos, depois de muito tempo, o “serviço” já estava pronto. O jeito era recolher os corpos, que não eram poucos, e levar para o IML(Instituto Médico Legal). Pra quem não tinha sangue frio não subia, pois a cena era de arrepiar. Era tanta as “estiletadas” nos corpos da vitimas que o sangue corria por tudo que era buraco.

Uma das mortes que mais me marcou foi a do Batata, conhecido como “Rato de Xadrez”, morto por um elemento chamado Dionísio, um detento de bom comportamento já perto de ganha a liberdade, mas como se diz, ninguém é de ferro. Aconteceu que o Batata havia assaltado todo o “jumbo” (ou seja, o Batata havia levado tudo que o  Dionísio havia ganho de seus parentes visitantes) e quando o cara marcou toca, o cachimbo caiu. Rapaz, a raiva deve ter sido tanta do Dionísio que até os olhos do Batata foram arrancados.

Não percam os próximos capítulos.