Coluna Carlos Brickmann / “São iguais, mas diferentes”
Todos são iguais perante a lei, diz nossa Constituição.
Mais ou menos: e não é apenas por causa do deputado federal Jair Bolsonaro, do PP fluminense, com suas tristes declarações contra gays e negros. Não é apenas, também, pelo deputado federal Marcos Feliciano, do PSC paulista, que disse que os negros descendem de ancestrais amaldiçoados – Can, um dos filhos de Noé – e cita a Bíblia como fonte (embora religioso, nem de Bíblia ele entende).
Há no país um racismo difuso e uma homofobia mais explícita. Quando a candidata Marta Suplicy lançou suas célebres perguntas ao adversário Gilberto Kassab, “ele é casado? Tem filhos?”, revelou um lado nela desconhecido – e que, exatamente por ser dela, com um ativo passado de luta contra a homofobia, foi surpreendente. Perdeu a eleição; e, sempre que empunha sua antiga bandeira, tem de se explicar. A ministra da Igualdade Racial (sim, existe! Acredite! Seu nome é Luiza Bairros) critica a frase racista de Bolsonaro com um argumento igualmente racista: “Isso demonstra como ser branco na sociedade brasileira implica determinados privilégios em detrimento dos direitos dos negros em geral”.
Ou seja, todo branco – seja Dilma, seja Lula, seja o ministro Palocci, seja o ex-ministro José Dirceu – tem privilégios em detrimento dos direitos dos negros. Sua Excelência ataca os brancos como Bolsonaro atacou negros e gays. Racismo é, pois: pode até ser o outro lado da moeda, mas a moeda é a mesma.
Não se combate meio preconceito. É preciso combater o preconceito inteiro.
Os árabes
Esse negócio de descendente de árabe jogar bola com o próprio nome, como Adib, Adinã, Habib, é coisa nova no Brasil. Não faz muito tempo, usavam apelido, que dependia do tamanho do atleta: era Turquinho ou Turcão. E o presidente Ernesto Geisel não costumava se referir ao senador Pedro Simon, do PMDB, pelo nome: era “aquele turco que vai ser governador do Rio Grande do Sul”.
Os judeus
Para citar o mesmo presidente Geisel, ele se referia a um dos críticos de sua política, o ex-ministro Eugênio Gudin, como “aquele judeu ordinário”. Gudin nem era judeu. E “ordinário” não era exatamente a palavra com que se referia a seu crítico, mas há termos que devem ser usados apenas nos estádios, para referir-se a juízes que erraram contra nosso time.
Um adversário ideológico de Geisel, o dominicano Frei Betto, num histórico artigo para a revista Imprensa, responsabilizou os comerciantes judeus e árabes pela comemoração do Natal com Papai Noel, presentes e festas, que parece desagradá-lo.
As brincadeiras
Os fatos narrados acima são francamente discriminatórios. Mas não podem ser confundidos com brincadeiras inocentes, como se tenta agora em correntes de Internet, que acusam Lula de homofobia por ter dito ao prefeito de Pelotas que a cidade era um polo exportador de veados. O ex-governador Orestes Quércia, que iniciou a carreira política em Campinas, certa vez atendeu a uma ligação do prefeito de Pelotas já propondo a construção da Transveadônica, que ligaria as duas cidades. Deu-se mal com a brincadeira: o prefeito pelotense odiava essas piadas.
O sorriso que sumiu
Os mortos saem do cotidiano, mas o exemplo que deixam é para sempre. O ex-vice-presidente José de Alencar certamente cometeu muitos erros, tomou atitudes que não deveria tomar, estava longe de ser um santo. Ainda bem: era um ser humano, com defeitos e virtudes. Um bom sujeito.
Não era isento de pecado, mas não atirava a primeira pedra. E deu aos brasileiros o exemplo de quem enfrentava a maior das adversidades, a luta contra o câncer que o corroía há tantos anos, com um permanente sorriso. Sabia que não era imortal; mas encarava cada dia de vida como um dia a mais, como uma vitória a ser comemorada com alegria. O Brasil ficou mais triste e o Céu mais feliz.
Fique com Deus, Zé.
Dúvida pertinente
Um assíduo leitor desta coluna quer saber por que ele ajuda a sustentar uma polícia que envia centenas ou milhares de agentes a um estádio para cuidar de torcedores mal-educados, enquanto em tantos lugares habitados por pessoas ordeiras e decentes, que pagam seus impostos em dia, jamais aparece um PM.
Boa pergunta: se os clubes são entidades privadas, se vendem ingressos, se buscam o lucro, por que não arcam com serviços de vigilância particulares? Cabe à Polícia manter a ordem nas ruas – mas por que dentro dos estádios?
O mundo muda
Grupos de mulheres, no Primeiro Mundo, estão se organizando para combater o assédio sexual nas ruas – que pode ir de assobios e cantadas insistentes a tentativas de contato físico forçado. O primeiro grupo foi criado em Londres por Vicky Simister, que tinha sido perseguida nas ruas da cidade por um grupo de homens que anunciava seus objetivos de contato sexual. Chama-se Anti-Street Harassment UK, e se espalha rapidamente. Nos Estados Unidos, já existem novos grupos, e um site, o www.stopstreetharassment.com, está funcionando.


























































