Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada
Pastoral Vocacional (PV) / Serviço de Animação Vocacional (SAV)

20º Encontro Nacional do Pastoral Vocacional

ANIMAÇÃO VOCACIONAL E EVANGELIZAÇÃO

Todo trabalho vocacional e evangelizador costuma ser difícil, principalmente na fase inicial. Jesus também encontrou muitas dificuldades na sua missão evangelizadora. A narrativa da vocação dos quatro primeiros discípulos é precedida pelo início do ministério de Jesus em Nazaré no qual ele encontrou muita resistência e por pouco não foi empurrado pelos seus adversários do alto de uma montanha.[1] Lucas mostra Jesus deixando Nazaré. Logo ele foi a Cafarnaum onde curou um endemoninhado.[2] Em seguida entrou na casa de Simão, curou sua sogra e realizou outros milagres até o pôr-do-sol.[3] Sua fama já havia se espalhado pela redondeza alcançando inclusive a Judéia onde pregava nas sinagogas.[4] O evangelista observa ainda o costume de Jesus de frequentar lugares desertos para rezar.[5]

De acordo com Lucas, até este momento Jesus exercia seu ministério sozinho. No evangelho de Marcos vemos Jesus convidar os discípulos desde o início de seu ministério.[6] Lucas prefere apresentar o chamado vocacional de Jesus depois que sua fama se espalhou por toda a região.[7] Desta maneira os discípulos seguiram alguém já conhecido pelas redondezas, afamado pela sua ação evangelizadora e serviço ao Reino de Deus.[8] É a partir da cena da vocação dos primeiros discípulos, que este evangelista mostra Jesus chamando pessoas para segui-lo e ajudá-lo na missão evangelizadora. Observa-se, porém, que antes de apresentar o chamado para o discipulado e a missão, houve a experiência do encontro de Jesus com os pescadores da Galiléia. Desta maneira aprendemos que o chamado é precedido por uma experiência de encontro com Jesus Cristo o qual nos envia em missão.

1. Os caminhos da animação vocacional no contexto atual

A realidade atual é provocante, pois há uma multidão cansada e abatida, “o rosto humilhado de tantos homens e mulheres de nossos povos”,[9] também por falta de pastores, de evangelizadores, de ministros, de lideranças. Ao mesmo tempo pela Palavra de Deus, se escuta o apelo da fidelidade ao mandato de Jesus, de anunciar o Reino, de evangelizar, de não ter medo, de lançar as redes, de também pedir ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe[10], para que a pesca seja abundante.

Diante de um contexto de grandes mudanças que “nos afligem, mas não nos confundem”,[11] é necessário continuar fazendo o caminho, na acolhida aos apelos de Jesus e da Igreja.  Na continuidade, a fidelidade ao que se fez e viveu, mas também a novidade, capaz de gerar um novo espírito e um novo coração. Pois é sempre tempo para construir o novo na Igreja e no serviço de animação vocacional, tempo de avançar e de planejar, de ir para águas mais profundas, pois todos os discípulos-missionários são responsáveis no serviço às vocações.

2. O caminho e processo de conversão da Animação Vocacional

Na Igreja o serviço de animação vocacional deve fazer uma conversão pastoral e renovação missionária, que leve a “impregnar todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e de qualquer instituição da Igreja”[12].  Trata-se de fortalecer a cultura vocacional para que todos os batizados assumam seu chamado de ser discípulos missionários nas circunstâncias atuais.

A conversão implica em escutar com atenção e discernir “o que o Espírito está dizendo às Igrejas”[13] através dos sinais dos tempos em que Deus se manifesta.  A renovação missionária consiste em construir e fazer comunidades “de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo, Mestre e Pastor”[14]. Para tanto se exigem atitudes de “abertura, diálogo e disponibilidade para promover a co-responsabilidade e a participação efetiva de todos os fiéis na vida das comunidades cristãs”[15].

3. Uma animação vocacional que forma discípulos missionários

“A vocação ao discipulado missionário é convocação à comunhão em sua Igreja” [16]. No processo de formação dos discípulos missionários de Jesus Cristo um lugar particular tem a pastoral vocacional que “acompanha cuidadosamente todos os que o Senhor chama a servir à Igreja no sacerdócio, na vida consagrada ou no estado laical”[17]. Diz Aparecida que este serviço vocacional é responsabilidade de todo o povo de Deus. Inicia na família, continua na comunidade cristã, dirige-se às crianças e especialmente aos jovens. Finalidade desta pastoral é ajudar a “descobrir o sentido da vida e o projeto que Deus tem para cada um, acompanhando-os em seu processo de discernimento”.[18] Já o I Congresso Continental latino-americano de vocações dizia que a pastoral vocacional “se entende como o serviço a cada pessoa a fim de que ela possa descobrir o caminho para a realização de um projeto de vida tal como Deus o quer e como o mundo de hoje necessita”.[19]

4. Elementos fundamentais da animação vocacional

O Documento de Aparecida[20] contempla alguns dos elementos fundamentais do um serviço de animação vocacional, como o entendemos hoje, a saber: responsabilidade de toda a Igreja, o povo de Deus; integrada na pastoral ordinária, de conjunto e orgânica; a dimensão eclesial e específica da vocação dos discípulos missionários a partir do batismo e do sacerdócio comum (ministros ordenados, vida consagrada, cristãos leigos e leigas); o ambiente propício para o florescimento da vocação, a família e a comunidade cristã, completado pela escola católica e demais instituições eclesiais; os interlocutores imediatos da animação vocacional, as crianças e os jovens; a necessidade de um processo de acompanhamento e discernimento; e a mesma natureza da animação vocacional, que consiste em ajudar a descobrir o sentido da vida, a vocação, no projeto que Deus tem para cada um.

5. Os desafios da animação vocacional

Entre os objetivos específicos existe a necessidade de elaboração de pistas em vista de uma animação vocacional que seja evangelizadora, bem como a necessidade de critérios para os itinerários vocacionais. Além de dar resposta a esses, outros se encontram no serviço de animação vocacional. É preciso avançar em relação aos estudos da questão vocacional, sobretudo nos seus aspectos sociais, pedagógicos e psicológicos. Faz-se necessário um maior aprofundamento, com didática e planejamento, da dinâmica do itinerário vocacional, preparando e oferecendo subsídios e materiais adequados para os animadores vocacionais e os vocacionados.

Desafio ainda é a utilização das novas tecnologias para entrar nas novas praças, os novos aerópagos, atingir novos públicos, chegar até as águas mais profundas. Há uma grande defasagem neste sentido, o que comporta formação específica e disponibilidade de recursos humanos.

Preocupa também a falta de recursos financeiros, e a disponibilidade de tempo de pessoas preparadas, sobretudo nas áreas da teologia, ciências humanas e comunicação, entre outros. A mesma reflexão bíblica e teológica do ponto de vista vocacional é um universo inesgotável, tendo presente o chamado à santidade e a vocação batismal como eixo transversal de toda a ação pastoral na Igreja.

6. O perfil e a identidade dos animadores vocacionais

No processo de afirmação e consolidação da identidade do serviço de animação vocacional e de seus agentes e protagonistas está a Palavra de Deus, fonte da vida e da missão da Igreja.

Deve-se aprofundar a identidade, o perfil e a missão dos animadores vocacionais. O despertar, o discernir, o acompanhar, o perseverar das vocações dependem, em parte, do animador vocacional, na medida em que ele se identifica com o serviço a que foi chamado, tem o perfil humano e espiritual adequado, e é capaz de dar testemunho eloqüente de amor a Jesus Cristo, a Igreja e ao povo, com generosidade,  despojamento e alegria.

7. A formação dos animadores vocacionais

Uma das principais contribuições é a formação dos animadores e animadoras vocacionais, como base para um serviço vocacional de qualidade, na perspectiva de uma Igreja ministerial. Isto através dos vários cursos, assessorias, subsídios, tendo a escola vocacional, em suas diversas modalidades, como uma ação específica e completa, abrangendo as dimensões antropológicas, teológicas, bíblicas, pastorais, e outros.

Além disso, é preciso continuar os estudos e pesquisa, buscando aprofundar as várias dimensões das vocações e do serviço de animação vocacional, produzindo livros subsídios que auxiliem os animadores e suas equipes em sua tarefa. Há necessidade de materiais vocacionais, como textos, áudios-visuais, filmes vocacionais.  Hoje um instrumento valioso é a rede informatizada e virtual, a internet, sendo um importante e eficaz instrumento de evangelização e animação vocacional.

8. A oração: escuta da Palavra de Deus

Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. A Palavra de Deus é a fonte e o sustento do discipulado e da missão. No mistério de Deus que fala está a atitude de escuta daquele que crê pela obediência da fé.

A Palavra de Deus tem uma dimensão vocacional, que por si mesma chama, pois age de um modo eficaz no coração daqueles que a acolhem. Ela contém figuras, histórias e reflexões que narram os chamados de personagens bíblicos em vista de uma missão.

A relação entre Palavra e vocação leva à questão da oração pelas vocações e tem um grande valor espiritual. Esta oração, ensinada por Jesus no Evangelho,[21] para se pedir operários à messe, torna-se lugar de escuta, de proposta, de disponibilidade e de resposta vocacional.

O serviço de animação vocacional se fundamenta na compaixão de Jesus pela messe abandonada, como ovelhas sem pastor. Da compaixão brota a oração e se manifesta a urgência da missão[22]. As vocações são dons de Deus e por isso não devem faltar orações especiais ao Senhor da messe[23]. Há necessidade de intensificar, de diversas maneiras, a oração pelas vocações. É pela oração que se pode criar maior sensibilidade e receptividade ao chamado do Senhor. E também promover e coordenar iniciativas vocacionais.

A animação vocacional é chamada a se apropriar e a aprofunde a relação entre a Palavra de Deus e a vocação, bem como do tema do discipulado e da missionariedade, nas vertentes antropológicas e culturais, bíblicas, teológicas e pastorais.   Menção particular na perspectiva bíblica é a Leitura Orante, onde o Sínodo exorta os fiéis e os jovens a “aproximarem-se das Escrituras por meio da leitura orante e assídua, de modo que o diálogo com Deus se torne realidade cotidiana do povo de Deus”.[24]

9. Espiritualidade vocacional

A espiritualidade tem um lugar central na animação vocacional. Ela é a seiva que alimenta e dá vitalidade a toda ação vocacional. É o eixo por onde se movimenta a vida e a missão dos vocacionados e dos animadores. A base da espiritualidade cristã é a experiência do batismo fundada na Trindade, e “uma autêntica proposta de encontro com Jesus Cristo deve estabelecer-se sobre o sólido fundamento da Trindade-Amor”.[25]

Uma espiritualidade bíblica fundamentada sobre a oração pelas vocações faz com que a Palavra ouvida e acolhida no coração possa transformar-se em discernimento e itinerário vocacional. Pois “encontramos Jesus na Sagrada Escritura, lida na Igreja”.[26] Faz-se, pois, “necessário propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo vivo…”.[27]

O caminho de uma espiritualidade no serviço de animação vocacional contempla a experiência trinitária e é chamada a integrar os acontecimentos da vida e da história com os tempos de oração e de celebração. É importante também que o animador vocacional articule em sua própria vida a contemplação e ação. E a espiritualidade mariana é decisiva para uma cultura vocacional e para o discipulado, o seguimento de Jesus.

10. A centralidade do Encontro com Jesus Cristo

O despertar dos discípulos missionários na Igreja acontece na medida em que se propiciar e garantir o encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo[28]. Na missão evangelizadora, o serviço de animação vocacional, como um instrumento do Espírito de Deus, tem como tarefa fundamental fazer com que os vocacionados tenham um “encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”[29].  O primeiro e grande dom é o encontro com a pessoa de Jesus Cristo, pois Deus amou antes de tudo, e a vocação é sempre resposta de amor. Do encontro nasce o discipulado – Jesus é o Mestre – o seguimento, a missão.

Neste sentido se pode falar da necessidade de promover no serviço de animação vocacional uma “pedagogia do encontro” que desperte e forme autênticos discípulos missionários. Pois “conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido  com nossa palavra e obras é nossa alegria”.[30]

Jesus Cristo é a plenitude da revelação de Deus. É o Verbo de Deus feito carne, Caminho, Verdade e Vida, o único Libertador e Salvador. Pois em Jesus se revelam o amor misericordioso do Pai e a vocação, dignidade e destino da pessoa humana.[31] Jesus Cristo é o missionário de Deus Pai. É pelo encontro pessoal e comunitário com Ele que se podem despertar discípulos e missionários, com fidelidade e audácia na missão.

11. Itinerário fundamental dos discípulos missionários

No processo do itinerário, em suas etapas, a animação vocacional é chamada a acolher os princípios que Aparecida indica em relação ao processo formativo dos discípulos missionários.[32]

Antes de tudo contribuir para um encontro mais profundo com Jesus Cristo, pois é o Senhor que chama no caminho de descoberta do sentido da vida. É o querigma o fio condutor de um processo que leva à maturidade de fé e da vocação.

A conversão é o segundo passo, como resposta inicial de quem escutou o Senhor, por Ele se deixou seduzir, acredita, decide ser seu amigo, e quer segui-lo.

O discipulado, como terceiro passo, consiste em amadurecer no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre. Neste processo vocacional é importante a catequese permanente e a vida sacramental.

O discernimento e acompanhamento vocacional presumem uma vida cristã intensa na família, na comunidade eclesial, na realidade social onde se está, como a escola, o trabalho. Nestes espaços o vocacionado é acompanhado e estimulado a viver sua vocação e responder ao chamado de Deus.

Por fim, a missão, como resposta à necessidade que o discípulo tem em compartilhar com os outros a sua alegria, de ser enviado, irão mundo anunciar Jesus Cristo.

A missão é inseparável do discipulado. O caminho vocacional é longo e permanente, e requer itinerários diversificados, respeitosos dos processos pessoais e dos ritmos comunitários, contínuos e graduais, com pedagogias dinâmicas, ativas e abertas.[33] Existem itinerários diversificados para os vocacionados, para os cristãos leigos e leigas, a vida consagrada, ao presbiterato, ao diocanato permanente.

12. O processo vocacional e formativo dos discípulos missionários

A animação vocacional acolhe ainda as indicações de Aparecida referentes às diversas dimensões do processo vocacional e formativo.[34]

Deve ser integral, querigmatica e permanente, de acordo com o desenvolvimento das pessoas, contribuindo para que cada um possa encontrar a pessoa de Jesus, ser seu discípulo e missionário.

Atenção particular merece a dimensão humana e comunitária, que leva a pessoa a assumir sua própria história, sendo capaz de viver em um mundo plural, com equilíbrio, fortaleza, serenidade e liberdade interior.

Do mesmo modo a dimensão espiritual na medida de uma profunda experiência de Deus, que permite aderir a Jesus e seu Evangelho, na Igreja, de coração e com fé, por  meio dos diversos carismas e ministérios.

Já a formação intelectual permite potencializar o dinamismo da razão, abre a inteligência para a verdade, capacita para o discernimento, o juízo crítico e o diálogo sobre a realidade e a cultura e assegura o conhecimento bíblico-teológico e das ciências humanas.

E por fim dimensão pastoral e missionária projeta para a missão de formar discípulos missionários para o serviço ao mundo, habilita a propor projetos e estilos de vida cristã atraentes, contribui para integrar evangelização e pedagogia, incentiva a responsabilidade dos leigos no mundo.

Em se tratando de Animação Vocacional e Evangelização, entendemos que a preocupação com a dimensão vocacional está em estreita relação com todas as pastorais, ou como queiramos dizer, com a Pastoral de Conjunto.

É possível esta compreensão pelo fato de que a Animação Vocacional nasce do mistério da Igreja e põe-se ao seu serviço. É um trabalho que precisa ser assumido com vigor por todos os membros da comunidade, na firme convicção que não é um elemento secundário ou um acessório da evangelização.

Conseqüentemente, a dimensão vocacional precisa deixar de ser vista como um momento isolado ou setorial, uma simples “parte” da pastoral global. Dentro da Pastoral de Conjunto deverá ser acolhida como atividade intimamente acolhida inserida na ação Evangelizadora de Cada Igreja, dimensão conatural e essencial, parte viva e vivificante da vida e da missão da comunidade Eclesial. E a razão disso, nos lembra o Papa João Paulo II, é o “fato de que a vocação define, em certo sentido, o ser profundo da Igreja, ainda antes do seu operar. No próprio nome da Igreja, Ekklesia, está indicada a sua intima fisionomia vocacional, porque ela é verdadeiramente convocação, Assembléia dos chamados” (PDV, n.34).

Por isso mesmo, nenhuma diocese, Congregação religiosa e novas comunidades podem prescindir da animação vocacional e do dever de organizar a Pastoral Vocacional, pois, o cuidado e o cultivo das vocações não devem ser motivados somente por urgências pastorais ou por escassez de agentes evangelizadores. O que motiva a animação vocacional é o próprio ser da Igreja. Ainda que esta tivesse evangelizadores suficientes em todo o mundo, mesmo assim a dimensão vocacional não poderia ser esquecida, uma vez que esquecer esta dimensão seria deixar de ser Igreja.

É tarefa da Pastoral Orgânica criar junto ao povo de Deus um clima que favoreça o crescimento das vocações através da promoção, da interação e da comunhão entre as comunidades, incentivando o contato e o diálogo entre as pessoas e as instituições eclesiais, entre as diversas vocações especificas, promovendo a dimensão vocacional de toda a ação evangelizadora.

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