Meu pai; a carroça; os burros e os decibéis retóricos dos obtusos eloquentes.

Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque da nossa pequena fazenda da serra, herança de família que tínhamos lá no Sul; eu aceitei com prazer sem pestanejar. Mesmo com o frio intenso que estava fazendo; eu não dispensava nenhuma oportunidade de estar na companhia do meu sábio pai.

Durante nosso passeio, ele se deteve numa clareira e, depois de um pequeno silêncio, me perguntou-me:

– Filho! Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?
Eu apurei detidamente os ouvidos sobre o silêncio que nos cercava e, em alguns segundos e respondi-lhe:

– Pai! Estou ouvindo um barulho; um rangido de carroça bem distante, lá pra baixo daquela serra.

Ele respondeu-me então: _ Isso mesmo filho; e de uma carroça vazia…
Perguntei-lhe, então: _ Pai! Como o senhor sabe que a carroça está vazia, se ainda não a vimos, pois está tão distante?

_Ora filho; – respondeu ele – é muito fácil saber se uma carroça está vazia, por causa do barulho que ela produz. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz!

E seguimos nosso passeio inesquecível por entre araucárias, pinheiros, bétulas e outras velhas árvores preservadas naquele bosque com a terra coberta por um tapete de folhas invernais que as plantas decíduas se desfazem no outono para sobreviverem ao frio do inverno.
E as nuvens do tempo, ligeiras, passaram sobre mim. Tornei-me adulto; hoje com algumas nuvens sobre os cabelos, sobre a barba, sobre as lembranças do passado, mas até hoje, indelevelmente memorizado; quando vejo uma pessoa falando demais, tratando o próximo com rispidez; sendo prepotente, interrompendo a conversa dos outros interpondo em voz alta ou querendo demonstrar que é a dona da verdade; tenho a impressão de ouvir a voz profunda do meu pai, dizendo: “Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz…”.

No transcurso da minha adolescência, e ate hoje, tenho ouvido o rangir de muitas carroças. Parece que a modernidade e a tecnologia; os processos antropológicos sócio-comportamentais que incidem sobre o homem moderno; a influência sociopolítica e os modernos processos pedagógicos aplicados sobre as massas, que melhoram a compreensão e as interações interpessoais, de nada adiantaram. A vaidade, a arrogância e os pressupostos da presunção do saber e do poder acometem o homem moderno como uma virose pandêmica. Os eixos dessas carroças, não obstante a tecnologia dos lubrificantes de alta viscosidade não as impediu de rangerem tal como nossos velhos carroções cujos eixos untávamos com sebo das carnes do gado.

A referência metafórica com os carroções puxados por uma parelha de bois tem como definidor, sua abrangência como um documento pessoal da nossa experiência de vida. Esse princípio, se comparado às formas filosóficas da intelectualidade, aliados da lógica e da razão pura frente aos antagonismos conflituosos que regem as relações humanas. Aqueles axiomas particulares sob a incidência das carências egocentristas. Por regra, sobrepõe-se como elemento preponderante para as afirmações dos argumentos insustentáveis e tendenciosos das conveniências unilaterais que despertam o nosso repúdio. Um documento inegavelmente reacionário, nosso por direito!

Há um provérbio árabe, que traduzido, diz textualmente: “O bode chora por sua vida; o açougueiro pela sua carne; e o homem obtuso, chora pelos próprios instintos.”.

Não se permita a construção de carroças no universo da coerência e da razão que por certo existem de alguma forma em você. Não será rangendo como um carroção vazio que você imporá seus princípios como verdade absolutista no universo contestável das razões alheias. Esse caso e, pelo menos em relação à morte, somos iguais. Não há o que impor a mais… Felizmente!


Por Mohammad. 15/05/2011 17:04:07