Coluna Carlos Brickmann / Pelé, suspeitíssimo,
Está nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops paulista, aqueles arquivos que estavam escondidos numa sala sem identificação numa delegacia de Santos: Pelé foi investigado pela Polícia política da ditadura.
Nada estranho: aquela Polícia, que apreendeu livros sobre Cubismo achando que se referiam a Cuba, tinha mesmo de investigar uma pessoa tão esquisita. Pois não é que as autoridades foram informadas de que o elemento atirava bem com os dois pés e era artilheiro? Esse negócio de civil ser artilheiro é irregular. Artilheiro é da arma da Artilharia, e o indivíduo dela não fazia parte. Subversivo, pois. Pior: queria ensinar os brasileiros a votar. Tentava ocupar o lugar das autoridades, que ensinavam o povo a votar no partido do Governo em nome do Brasil Grande. Ou o indigitado repetia o que as autoridades diziam, sendo portanto um simples puxa-saco, ou as contrariava, sendo portanto suspeito de subversão.
Havia mais coisas graves. Quando o elemento disse que precisávamos pensar nas criancinhas, induziu a população, de maneira insidiosa, a acreditar que as patrióticas autoridades investidas dos poderes públicos, com apoio das Forças Armadas unidas e coesas, não pensavam nelas o suficiente. Subversão disfarçada, mas que as autoridades responsáveis por nossa segurança souberam captar.
E foi o elemento o responsável pela intromissão estrangeira em nossa nação. Os franceses o chamavam de Le Roi – o rei. Queriam os imperialistas franceses, à sorrelfa, mudar nosso regime republicano. Era preciso ou não investigar tudo?
O direito dos incomuns
O presidente do Senado, José Sarney, andou transportando empreiteiros para sua ilha particular no Maranhão no helicóptero da PM maranhense, por ordem da governadora – também conhecida como sua filha. Ficou bravo com a repercussão, disse que tem direito a transporte, como presidente do Senado. É verdade – mas não num helicóptero da Polícia, não num momento em que uma pessoa acidentada precisava de transporte até um hospital.
Os ministros Paulo Bernardo e Gleisi Hoffman enfrentam problema parecido: usaram aviões particulares de uma empreiteira amiga. Caso parecidíssimo com o do governador fluminense Sérgio Cabral, só o que avião dele era bem mais chique. O ministro Wagner Rossi caiu, entre outros motivos, por esses passeios.
Transgressões menores? Sim, são transgressões menores, mas são transgressões. Se servirem para que o país se livre dos chupins, ótimo. Afinal de contas, Al Capone, ladrão, assassino, chefe de quadrilha, caiu por uma transgressão menor do que essas, a sonegação de imposto de renda. E ficou fora de circulação.
Cadê o moço?
Brilha intensamente a ausência, nesses últimos episódios, do senador brasiliense Gim Argello, do PTB – que herdou de Joaquim Roriz a cadeira e alguns hábitos. Gim sempre foi desinibido, falante, não havia escândalo em que não fosse citado. Agora, seu silêncio faz um ruído estrondoso.
A Conhecer Consultoria e Marketing, uma das empresas citadas nos atuais episódios do Ministério do Turismo (e que tem como sócios um frentista de posto de gasolina e um motorista de caminhão), é a mesma que, em 2010, apareceu no escândalo que derrubou Gim Argello da relatoria do Orçamento da União.
Cigarro mais caro
Demorou mas o Governo finalmente resolveu agir: os impostos sobre os cigarros, tão baixos que permitiam que o cigarro brasileiro fosse um dos mais baratos do mundo, sobem 20% em dezembro e 55% até 2015. As multinacionais que monopolizam o mercado gozam de uma vantagem exclusiva: a tributação é fixa, variando de R$ 0,764 a R$ 1,30 por maço ou caixinha, seja qual for o preço cobrado (nos demais produtos que existem no mercado, o imposto é uma porcentagem do preço). A alegação para este subsídio aos cigarros é o combate ao contrabando.
Bobagem: contrabando é caso de polícia. E manter o preço baixo (há dois anos não sobe) é estimular o consumo de um produto que as próprias fabricantes admitem que traz riscos à saúde.
Violam a lei – e mal!
Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, mostra uma nova faceta dos delegados indisciplinados e sem comando que desnecessariamente algemaram presos e se consideraram aptos a dar lições ao Supremo Tribunal Federal: “Além de violadores dos direitos dos presos, os policiais são muito incompetentes. A boa técnica determina que os braços dos algemados fiquem para trás, o que não foi feito. Se supõem que os presos são tão perigosos que precisem de algemas, a inobservância dessa cautela põe em risco os próprios policiais, que podem ser vítimas de uma ‘gravata’ de presos algemados com as mãos para a frente”.
De volta ao Rei
Pelé deveria estar feliz por ter escapado às garras da Polícia política. Como se sabe, seu nome é Édison; portanto, Pelé é codinome. Seu pai também usava codinome – no caso, Dondinho. Seu irmão também tem codinome, Zoca. A Polícia certamente iria achar que três parentes, todos com codinomes, eram suspeitos.
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