Heckel Januário em: LETRA FRIA DA VERDADE
A história de Tiradentes –o mártir da Inconfidência Mineira e ícone da libertação nacional– rolando de pouco tempo pra cá nos meios de comunicação é, como se diz, de arrepiar, embora a geral do Brasil esteja longe de ser uma “letra fria da verdade”. Novas versões narram episódios não tão compatíveis com os dos inseridos nos tradicionais compêndios escolares.
Baseados em textos como o de Hipólito da Costa, jornalista do século XVIII -XIX, considerado o iniciador do jornalismo brasileiro, como os de Kenneth Maxwell e Marcos Correa, respectivos historiadores inglês e carioca, no do escritor Martim Francisco, pertencente à terceira geração dos Andradas, tríade famosa na história brasileira, artigos publicados revelam que Joaquim José da Silva Xavier jamais fora enforcado e esquartejado. E o mais incrível: a badalada traição de Silvério dos Reis aos colegas conspiradores que tanto comoveu a estudantada, nunca houve, ou melhor, houve, mas para compor uma espetacular armação tramada e planejada por republicanos e maçons. A respeito da execução, na véspera de ir para o cadafalso ele fora substituído por Isidro Gouveia –um ladrão já condenado a morrer– em troca de proteção financeira da maçonaria a sua família.
Inconciliáveis descrições como, por exemplo, a do sumiço da cabeça de Tiradentes, e a do da barba e cabelo crescidos, impossível na época em virtude da proibição a prisioneiros, sobretudo para evitar a infestação de piolhos, são outras observações usadas pelos articulistas para explicitar a farsa desse passado histórico. Aliás, à pintada semelhança de Tiradentes com Jesus Cristo, resumem como uma obra da elite brasileira que, necessitando agradar o povão com uma identidade nacional após a Proclamação da República, constrói um herói.
Que a maçonaria sempre esteve presente em acontecimentos importantes da história brasileira, especialmente nos libertários, não resta à menor dúvida. Inclusive, Joaquim José, mesmo sendo semi-analfabeto e pobre, mas contando com a ajuda de um amigo, tornou-se maçom. Antes, morando na casa de um padrinho versado em odontologia, este lhe ensinara a profissão o fazendo um perito na arte de arrancar dente, origem do apelido. Em seguida ingressara na carreira militar chegando a alferes, patente ligeiramente abaixo da de tenente e, no movimento encabeçado dos chefes da “mineração do ouro” contra o arrocho da Coroa portuguesa, atitude nomeada pela historiografia oficial de Inconfidência ou Conjuração Mineira.
Até aí tudo bem. Agora, como um simples alferes sem recursos e sem instrução –num período em que a discriminação do poder econômico era fortemente evidenciado– se pontificou à frente de protestantes como coronéis, padres e de gente rica chegada da exaltada universidade de Coimbra, é a interrogação. Eis então, a chave da defesa da tese da “farsa” e da “construção do herói”.
Outras provas interessantes com datas e pormenores são relatadas. Uma delas é a de que Tiradentes, ajudado pelos pares maçons, teria embarcado numa nau chamada Golfinho para Lisboa em agosto de 1792 acompanhado da namorada Perpétua Mineira e dos filhos do ladrão enforcado em seu lugar. Sim, e teria retornado em 1806 ao Brasil e aqui trabalhado e, morrido em 1818.
Como se vê, impulsionada por novos historiadores, parece existir uma tendência de revisar a história do Brasil, escrevendo-a de maneira mais objetividade possível. E terá de registrar pela continuidade dos acontecimentos que, em Brasília, a capital do Brasil, a maioria dos políticos em pleno século XXI deseja instituir o Dia Nacional da Corrupção.
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Heckel Januário



























































