Espantados com o poder econômico dos clubes do País, europeus reclamam dos valores pedidos em negociações

ZURIQUE – Inundado por investimentos, patrocínios e empréstimos de bancos, o futebol brasileiro vive um momento de “boom” financeiro que começa a mudar o mapa do esporte no mundo. Um raio x do futebol nacional mostra que, em vários aspectos, clubes começam a ter receitas parecidas aos dos grandes times europeus. Entre os cartolas de tradicionais equipes da Europa, a constatação é de que está cada vez mais caro tirar um jovem do Brasil. Para especialistas, fica uma questão: até que ponto esta exuberância econômica no Brasil é sustentável ou é apenas mais uma bolha?

 

Receita do Corinthians passou de R$ 125 milhões em 2007 para R$ 227 milhões em 2010 - Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE
Receita do Corinthians passou de R$ 125 milhões em 2007 para R$ 227 milhões em 2010

Nos últimos oito anos, os clubes brasileiros viram suas receitas aumentar em 300%, atingindo praticamente €1 bilhão (R$ 2,5 bilhões) no final de 2010. Os dados foram levantados por Marcos Motta, da RBMF, e apresentados nesta semana em Zurique durante reunião fechada da elite da indústria do futebol mundial, evento promovido pela International Football Arena.

Só no ano passado, a expansão da receita foi de 34%. O que mais impactou nestas contas foram os direitos de TV, publicidade e patrocínios. Nem mesmo a queda na venda de jogadores ao exterior – uma tendência dos últimos três anos – pesou nas contas.

Nenhum clube brasileiro ainda se aproxima dos times com maior renda do mundo, como o Real Madrid, com € 400 milhões (R$ 1 bilhão), e o Manchester United, 320 milhões (R$ 800 milhões). Mas o que impressiona é a expansão rápida.

Hoje, quem tem a maior receita no Brasil é o Corinthians, que passou de € 50 milhões (R$ 125 milhões) em 2007 para 91 milhões (R$ 227 milhões), uma alta de 80%. O segundo é o Inter-RS, com € 86 milhões (R$ 215 milhões), alta de 47%. A terceira maior receita é do São Paulo, € 84 milhões (R$ 210 milhões), expansão de 18% no período). Mas chama a atenção também o crescimento de 64% do Flamengo e de 151% do Santos. Renda de patrocínios aumentou 371% em apenas sete anos, passando de meros 20,8 milhões (R$ 52 milhões) em 2003 para € 98 milhões (R$ 245 milhões) em 2009.

A explosão do valor dos contratos de tevê também injetou milhões no futebol. Só o Corinthians viu uma expansão de 144% entre 2008 e 2010. O São Paulo aumentou em 83% e o Flamengo, 59%. Entre 2012 e 2015 os clubes vão receber um total de 500 milhões (R$ 1,25 bilhão) por ano.

Força. Com o novo acordo, o Campeonato Brasileiro finalmente se aproxima das maiores ligas do mundo. Na Espanha, os clubes receberão um total de 520 milhões (R$ 1,3 bilhão) em 2012 pela transmissão da competição, contra € 668 milhões (R$ 1,67 bilhão)na França. A Serie A na Itália é a mais rica, com 850 milhões (R$ 2,1 bilhão) por temporada.

O Corinthians também terminará 2011 como o clube mais valioso do País – € 377 milhões (R$ 942 milhões), expansão de 68% em dois anos. O Flamengo cresceu 33% e ficou em segundo, com 300,4 milhões (R$ 750 milhões). O São Paulo vem logo atrás, com € 289 milhões (R$ 722 milhões) e alta de 31%. Mas a maior expansão em seu valor é do Santos, com 84% e hoje estimado em 99,3 milhões (R$ 247 milhões).

Os números ainda são pequenos em comparação ao valor do Manchester United, de € 1,4 bilhão (R$ 3,5 bilhões), e do Real Madrid, com 1 bilhão (R$ 2,5 bilhões). Mas a expansão já tem sido suficiente para começar a mudar a lógica das transferências de jogadores. “Hoje, o jogador que vai para a Europa sai em busca de uma opção profissional, não por dinheiro”, afirmou Motta.

Em 2011, só 23 jogadores da primeira divisão deixaram o País em direção à Europa. Em 2008, foram 65. O Brasil ainda se transformou no país que mais repatriou craques nos últimos dois anos, mais de 120.

Em 2010, os clubes gastaram US$ 79 milhões (R$ 138,2 milhões) em transferências, um aumento de 63%. Mais uma vez, os valores ainda estão distantes dos europeus. Mas Motta destaca que a crise na UE tem feito os gastos serem reduzidos em 29%.

Dívida. O tendão de Aquiles do futebol brasileiro, porém, são as dívidas que assolam vários clubes, mesmo entre aqueles que tem feito contratações milionárias. Por isso, analistas estrangeiros alertam que o risco é de que uma bolha esteja sendo formada, como ocorreu com vários clubes espanhóis, que por mais de uma década gastaram além do que podiam. Hoje, estão quebrados.

No caso do Brasil, a maior dívida é do Botafogo, com 150 milhões (R$ 375 milhões), 50% são impostos atrasados. O Fluminense deve € 149 milhões (R$ 372 milhões), contra 131 milhões (R$ 327 milhões) do Atlético-MG. No Flamengo, que tem gastos altos com Ronaldinho Gaúcho, a dívida é de € 126 milhões (R$ 315 milhões), dos quais 80% são impostos não pagos.

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No: www.estadao.com.br

http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,poder-economico-do-brasil-assusta-o-mundo-do-futebol,797942,0.htm