NO PRESÍDIO CARANDIRU II

por Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Continuo então com minha chegada ao Presídio Carandiru. Os domingos eram dias de visitas. Por um lado era bom por outro não. O bom era porque o domingo passava rápido; o ruim era porque o trabalho com revista aos visitantes, enfim com a segurança, redobrava. Tinha que ter atenção com tudo, com os visitantes e principalmente com os detentos.

Naquela época, no ano de 1978 até o de 1980, não havia a concessão para visita interna e, sobretudo de mulheres, então os detentos vaziam de tudo para burlar a vigilância dos agentes, até conseguirem.

Lembro que no Pavilhão 8 os detentos colocavam mesas altas ou cavaletes com tábuas em cima, forravam-nas com grandes lençóis, que ficavam tipo “casinhas” e colocavam campânulas. Na construção desses artifícios ficava um olheiro sempre atento, para quando a barra estivesse “limpa”, a mulherada cair dentro. E tinha mulheres que vinha da “zona” para se prostituir nessas “casinhas” que eram montadas no pátio desde pavilhão. O detento, portanto, era que comandava a vinda delas.  Eu mesmo cansei de fazer vista grossa, fazendo de conta que não estava vendo nada. “Já pensou o cara detido num local a mais de vinte anos sem ter uma mulher para se relacionar?”, interrogava a mim mesmo. Pois é, se não fizesse vista grossa o sujeito iria entrar em desespero total. É, mas havia os que não gostavam de mulheres, mas eram poucos.

Depois que as relações íntimas foram liberadas, a cadeia ficou mais leve, diminuiu o número de estupros, de roubo no xadrez, dos crimes etc.

Certo domingo, ao terminar a visita, iniciamos a “tranca” e logo em seguida a “contagem” que consistia em fazer a pergunta ao detento do (nome do pai, da mãe e a data de nascimento), no que ele não podia gaguejar, se isso ocorresse, era encaminhado para a cela para uma melhor averiguação, e aí acontecia uma conferência mais amiúde, a chamada “pente fino”, pois era de costume o detento passar batido pela saída do Presídio e deixar alguém em seu lugar.

No pátio da “Divineia”, geralmente ficavam os agentes mais antigos de olho, para verificar se no meio dos visitantes, algum detento estava se armando pra fugir. E não podia dar bobeira, porque se tracejasse, acontecia mesmo do cara se mandar.

Os detentos eram muitos criativos, e faziam de tudo para burlar a nossa vigilância. Foi assim que num domingo de 1980, eu ia subir até o 4º andar para fazer a contagem e trancá-los, mas eles haviam quebrado todas as lâmpadas do meio da galeria, só deixando uma na entrada e uma no final, o que deixou praticamente tudo às escuras. Ficou como um breu, mas deu para eu e os colegas fazermos a contagem aproveitando a luz que vinha de dentro do xadrez pelo guichê. Ao começar a trancá-los e já estando no meio da galeria onde ficava o Xadrez 48, teve um detento conhecido pelo vulgo de Ceará, que se recusou a entrar. Então eu falei: “Ceará, irei até o último xadrez, trancando, e na volta você vai para a tranca, ok?”. Ele nada respondeu. Calado, permaneceu encostado na parede da porta de sua cela. Então fui até o final da galeria, voltei e encontrado o Ceará disse-lhe: “Ceará agora é sua vez. Vamos para a tranca”. Ele então sacou de um “estilete” e veio em minha direção. Não tendo alternativa, joguei as fichas e os molhos de chaves para cima e corri. Ele correu atrás de mim e o medo era tanto de ele me pegar, que se não me engano, sai pulando na base de uns dez degraus. Pois é isso, o medo faz coisa que depois com calma a gente não acredita. Ao chegar ao pátio os colegas aguardavam por mim, pois só depois de tudo pronto, com a contagem batida, certinha, independendo do dia, era que podíamos ir embora. Sim, chegando quase sem fôlego, fui gritando: “Preparem aí que o Ceará está descendo para me matar”. Foi um corre-corre danado, com todos se armando. As correntes “Chico Doce” não faltaram para a espera do Ceará. Foi então que o nosso diretor Manoel, um senhor elegantíssimo, experiente de muitos anos de Pavilhão 8, entrou em cena e tentou acalmar o Ceará. E convenceu a entregar o “estilete”. Daí pra frente foi a nossa vez. Só sei dizer que nada ficou inteiro na sala do chefe.