As campanhas eleitorais para prefeitos e vereadores no país, como sempre efervescentes, me fizeram lembrar duas pérolas que rolaram –e continuam na verdade– na internet.

São sugestivas e de certo modo, envolvem o ensinamento de nossa língua. A primeira é a frase “O político brasileiro é o maior religioso do mundo, em cada obra ele tem um terço” que, embora se apresente subentendida, paradoxalmente é de uma clareza inconfundível. A outra, formada por períodos simples e possuindo a característica de nomear o político brasileiro de “filho da puta” (doravante FDP em respeito à rigidez da censura), pode ser considerada uma verdadeira aula de sintaxe, com didática suficiente para botar qualquer douto metido a besta em matéria do idioma português pra trás. Desta forma, com as orações “Conheci um político FDP”, “O político é um FDP”, “Esse FDP é um político” e “Agora nega o roubo, FDP” ela explica que tal expressão é capaz de ser respectivamente adjunto adnominal, predicativo, sujeito e vocativo, sem dizer do lapidado aposto “O ex-ministro fulano de tal, aquele FDP, desviou o dinheiro do ministério”.

As jóias peroladas são, como dedutíveis, frutos de fértil imaginação, mas que denotam, infelizmente, o “elevado” conceito que o eleitor tem de seu representante político. E o mais grave nisso tudo é, no caso de “FDP”  como a “por…” nossa do dia-a-dia empregada num extraordinário leque de sentidos–, longe de querer chegar com sua etimologia primitiva à desavisada progenitora do ilustre, quer mesmo é atingir o rebento, usando, claro, na acepções de corrupto, propineiro entre outros “elegantes” verbetes.

O caldeirão em efervescência dos pleitos eleitorais também me conduziu, tendo tudo a ver, ao julgamento do badaladíssimo “mensalão”, o dos petistas (Há o dos tucanos, com muito mais grana na jogada, o dos democratas e outros a serem julgados) ou Ação Penal 470, assim dita tecnicamente, que hora acontece no STF. Esse é um momento importante para a democracia brasileira, e a razão em grande parte pelo acontecimento se deve aos meios de comunicação, em especial à mídia televisiva. Agora, a tirar pelo que foi fartamente divulgado inclusive pautando o “sofisticada organização criminosa”, slogan imputado aos acusados, e a em curso sustentação oral da defesa, para o aqui não versado em direito, mas de olho na TV Justiça, as notícias veiculadas não abordaram todos os ângulos, ou, a não ser que, os defensores tenham astúcias além da conta. Então, aguardar, aguardar considero o mais prudente.

A essa citada suspeita, uma interrogação é inevitável: e onde fica a isenção? Para alguns experts não existe essa de objetividade no jornalismo porque o profissional do ramo ao redigir um texto é influenciado por suas posições pessoais, hábitos, emoções, mas isso não o desobriga da ética e da responsabilidade de elabora-lo o mais objetivo possível. E depois… Bom, como os meios de comunicação são considerados por sua importância um quarto poder, e como tal dotados de capacidade para fazer a cabeça da gente, enfim para ser um formador de opinião por excelência, confesso que fiquei, haja vista já ter iniciado a formação de juízo de valor, deveras confuso.

Voltando às jóias peroladas, mesmo sendo provocativas, e de minha ideia sobre o nosso político de vanguarda ser ruim, não as endosso irrestritamente, pois iria de encontro às exceções que procuro prezar. No entanto, mesmo atenuando, acredito que a maioria ao candidatar-se a qualquer cargo eletivo, faz mais por ambições pessoais das mais diversas do que por ideais. Viu? Quase rimou, mas uma rima dos diabos!

Abortando este escrevinhado, me resta torcer para que a Suprema Corte consciente de que culpa não se presume, se demonstra, vote conscientemente condenando ou absorvendo os réus, e daí seja lançada a pedra fundamental da depuração de nosso sistema eleitoral.

Heckel Januário