Artigo publicado pelo articulista José Roberto Torero no jornal Folha de S.Paulo, Caderno de Esportes, em 22.10.211.

 

“Onde o povo prefere pousar seu clunis:

numa privada,

num banco de escola

ou num estádio?”

 

Futebol também é cultura. Hoje, para júbilo e gáudio dos amantes das letras clássicas, divulgo uma carta do imperador Vespasiano a seu filho Tito. Vamos a ela. (clunis são nádegas em latim)

 

22 de junho de 79 d.C. (nesta data, exatamente 1933 anos atrás):

            Tito, meu filho, estou morrendo.

            Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas.

            De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.

            Alguns senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio?

            Num estádio, é claro.

            Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum e sempre que o olharem dirão: ‘Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.

            Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão, que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Vel caeco appareat (Até um cego vê isso).

            Portanto, deves construir esse estádio em Roma.

            Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo).

            Esperarei por ti ao lado de Júpiter.

 

PS: Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito não inaugurou o Coliseu com um jogo de Copa, mas com cem dias de festa. Tanto o pai quanto o filho foram deificados pelo senado romano.

 

Até aí o artigo de Torero.

Atualizando, da mesma forma o governo Federal está construindo monumentais estádios em Natal, Cuiabá e Manaus, mesmo que nem haja ludopédio por esses lugares. Para termos ideia, o campeonato de Mato Grosso teve média inferior a mil pessoas por partida e a Arena Pantanal, de Cuiabá, terá capacidade para 43.600 espectadores.

Em Recife, haverá um novo estádio, mas todos os grandes clubes já têm o seu.

Pior será a arena de Manaus com 47 mil lugares: no campeonato estadual, juntando todos os 80 jogos, o público total foi de 37.971.

O Distrito Federal não poderia se suplantado nesse torneio de insensatez: seu novo estádio terá capacidade para 76.000 PESSOAS! Recorde-se que a partida final do Campeonato de 2012 (o campeão é o …CEILÂNDIA) contou com o expressivo público de 970 pessoas.

As gentes da Terra Papagalli não ligaram nem mesmo para o exemplo dos sul-africanos, que construíram cinco novos estádios e quatro são deficitários.

“O pão e o circo continuam…”

DMM