Francisco, um papa chamado Jorge;

Os gestos do Papa Francisco;

Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!.

 

 

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Sábado, 16 de março de 2013

Francisco, um papa chamado Jorge

“Quando penso nele como arcebispo de Buenos Aires, me vêm à mente muitas imagens nas quais o vejo sempre no meio das pessoas”, afirma Nora Beatriz Kviatkovski, RJM, em seu testemunho sobre a convivência com o arcebispo de Buenos Aires e atual papa Francisco. Ela é argentina e mestra de noviças da Comunidade Jesus-Maria, em Bogotá, Colômbia. A tradução é do Cepat.

Eis o testemunho.

Pediram-me que, como argentina, desse meu testemunho sobre o cardeal Jorge Mario Bergoglio, desde ontem [quarta-feira, 13] papa Francisco. Não vou falar dele como jesuíta porque creio que isso corresponde aos jesuítas argentinos que viveram e trabalharam com ele. Somente desejo compartilhar o que vivi quando fui membro da Arquidiocese de Buenos Aires.

Quero começar dizendo que para os que tivemos a oportunidade de conhecê-lo ele é simplesmente Jorge. Assim se apresentava quando (recordo um dia em que precisava da sua assinatura para uma carta de pedido à Adveniat ele telefonou para a minha casa solicitando alguns dados… tocou o telefone e disse que quem estava falando era o Jorge. Evidentemente, respondi: mas que Jorge? Jorge Bergoglio, respondeu). Não era seu costume apresentar-se com títulos como doutor, padre, monsenhor ou sua excelência, etc. Simplesmente Jorge

Intuo que tenha herdado a sua simplicidade e austeridade dessa família de imigrantes italianos na qual nasceu há 76 anos, em um dos 100 bairros portenhos, Villa Devoto.

Quando penso nele como arcebispo de Buenos Aires, me vêm à mente muitas imagens nas quais o vejo sempre no meio das pessoas. Nunca o vi com guarda-costas pessoal, nem com motoristas. Em geral se deslocava por meio do transporte público tanto para visitar sua família como para realizar uma visita pastoral ou simplesmente para substituir um sacerdote em alguma eucaristia dominical. E chegava, algumas vezes no meio do barro ou da poeira da terra, saudando com um beijo as senhoras… conversando sobre futebol com as crianças e os jovens.

Particularmente, recordo a noite crítica de 19 de dezembro de 2001 quando, como povo argentino, saímos às ruas para manifestar a nossa indignação contra a gestão do ex-presidente De la Rúa e nos reunimos na Praça de Maio; Bergoglio também estava ali como um cidadão a mais. Também o lembro acompanhando, no bairro Once, os familiares dos centenas de jovens que morreram no acidente da danceteria Cromagnon e, recentemente, com as famílias do acidente fatal de trens. Tenho imagens dele ouvindo-o e consolando as mães das vítimas da droga e da violência.

Amigos que são sacerdotes do clero de Buenos Aires comentaram que em cada oportunidade que necessitavam falar com ele, imediatamente abria um espaço na sua agenda e dedicava o tempo necessário para escutá-los, assim como também proporcionava oportunidades de descanso oferecendo-se ele mesmo para substituí-lo nas eucaristias, caso fosse necessário. Nestes últimos anos impulsionou o compromisso dos sacerdotes jovens com a pastoral urbana, em especial a das favelas e dos bairros populares.

As pessoas mais próximas sempre o destacaram como um homem de grande austeridade e simplicidade de vida. Também posso dizer que deixou transparecer uma grande sensibilidade espiritual, identificando-se com o povo simples. Promoveu e fomentou, pessoalmente, as diversas manifestações de devoção popular. Cada ano participou das Peregrinações Juvenis ao Santuário da Virgem de Luján, que reunia milhares de fiéis. Todos os 07 de agosto acompanhava os milhares de peregrinos ao Santuário de San Cayetano, orando e pedindo pelo pão e pelo trabalho. Ano após ano, no estádio do Boca Junior, incentivou a realização e presidiu a eucaristia para as crianças. Não se cansou de convidar os católicos para que sejam missionários e saiam às ruas para anunciar a mensagem de Jesus.

Vi-o próximo e amigo de rabinos e pastores de Igrejas cristãs, com os quais frequentemente se reunia para compartilhar, conversar e criar espaços comuns de oração e de ações concretas a favor dos mais desfavorecidos.

Sua parcimônia e timidez não eram um obstáculo para se mostrar atento e próximo às pessoas, em especial os mais pobres.

Sim, é verdade, era muito pouco propenso a dar entrevistas a jornalistas e não lembro de muitas entrevistas coletivas.

Falava pouco, mas era muito claro e direto. Suas homilias e cartas sempre eram baseadas no Evangelho e tinham uma clara opção pelos mais pobres. Nunca lhe tremeu a voz para clamar contra as desigualdades no país. Bergoglio comparou pobreza e violação dos direitos humanos e não duvidou em criticar diretamente os diversos Governos por não impedirem o aumento da pobreza, situação que considera “imoral, injusta e ilegítima”, ao ocorrer em um país que possui as condições econômicas necessárias para evitar esses danos.

Para concluir, sobre o Arcebispo de Buenos Aires posso dizer que foi, sobretudo, um “pastor” que colocou a arquidiocese portenha em estado de “missão” e exortou os argentinos a não permanecerem fechados nas sacristias, mas a saírem ao encontro dos mais necessitados, tanto material como espiritualmente. Sem dúvida, o que mais aprecio nele são os gestos populares, próximos e humanos, como foi nesta quarta-feira o gesto de pedir às pessoas que orem a Deus para que o abençoe, antes de dar a sua bênção a todas as nações.

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Sábado, 16 de março de 2013

O altar voltado para os fiéis, a conta paga e a viagem de ônibus: os gestos do Papa Francisco

Papa Francisco_5Um homem vestido de branco no meio de um grupo de batinas vermelhas: todos colocados no mesmo ônibus que atravessa os jardins vaticanos. Diante de seus olhos, a enorme praça, lotada e em silêncio, rezando pelo novo papa. Que está ali, sentado no meio dos seus eleitores, todos viajando para o descanso depois de um dia histórico.

A reportagem é de Paolo Griseri, publicada no jornal La Repubblica, 15-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse gesto representa bem a escolha de ser certamente primus inter pares: como ele preferira se definir poucos minutos antes, aparecendo no Andar das Bênçãos. Porque, se Francisco é o “bispo de Roma“, ele continua no caminho traçado por Ratzinger com o gesto da renúncia: o papa também é um homem. E o bispo, como todos os bispos das outras dioceses, podem ter um “emérito” que veio antes dele.

A viagem no ônibus para Santa Marta é apenas um dos muitos atos simbólicos do primeiro dia como papa de Bergoglio. Partes de uma única linguagem, a mensagem mais forte até agora lançada pelo último sucessor de Pedro. A intenção é a de aproximar o bispo de Roma aos fiéis, o pastor ao povo de Deus. Superando aquela distância que, mais do que o caráter de Ratzinger, havia contribuído para aumentar os recentes escândalos do outro lado do Tibre.

A humanização do sucessor de Pedro continuou na primeira manhã, com a escolha de tomar café junto com outros seis cardeais. Foi a mesma simplicidade de relações que havia levado Bergoglio a receber a homenagem dos seus 114 eleitores, permanecendo de pé entre eles e não se sentando no trono, como gostaria a tradição.

E, entre os gestos da pobreza, o mais evidente está na escolha do nome. Não é nada óbvio para um jesuíta, o soldado do papa em defesa da ortodoxia, chamar-se Francisco, como o pobrezinho de Assis, durante muito tempo com odor de heresia antes de ver reconhecida a sua regra. Mas a escolha da pobreza é um dos pivôs da linguagem simbólica de Bergoglio. Que convida os argentinos a não irem a Roma na próxima terça-feira para a inauguração do seu papado: “Economizem o dinheiro e deem-no em beneficência aos necessitados”. Que, depois da oração da primeira manhã em Santa Maria Maior, vai fazer as malas na residência do clero da Via della Scrofa, onde estava morando antes do conclave. E pede para pagar a conta como um turista qualquer.

Se a questão do deus dinheiro havia sido um dos nós a serem desfeitos no último período conturbado do papado de Joseph Ratzinger, com as polêmicas sobre a gestão do IOR, nada representa um sinal de descontinuidade como os gestos sobre a pobreza.

Mas o gesto simbolicamente mais fortemente dessa quinta-feira foi a escolha de colocar o altar da Capela Sistina voltado aos fiéis, na ocasião, os cardeais. À sua época, Ratzinger teria celebrado a mesma missa dando as costas a quem estivesse sentado entre os bancos. Certamente não porque Bento XVI quisesse pôr novamente em discussão as inovações litúrgicas do concílio, do qual ele havia sido, à sua época, um dos maiores convictos defensores. Mas porque Ratzinger, assim como faria depois ao longo do seu pontificado, quisera tentar reabrir o diálogo com os tradicionalistas lefebvrianos. Uma tentativa que recentemente também produziu a desejada suavização das posições da Fraternidade São Pio X.

Assim, o gesto de Bergoglio, que quis restaurar a disposição do altar segundo a liturgia conciliar, pode ser lida como uma mensagem aos tradicionalistas sobre o fato de que a Igreja de Roma não está disposta a compromissos ulteriores.

Gestos e mensagens que, nas próximas semanas, poderiam se tornar decisões concretas e escolhas de governo da Igreja. Para anunciar que o barco de Pedro sairá da tempestade com uma decisiva mudança de rota guiado por Francisco com aquele “vigor” que Bento XVI havia anunciado ao mundo que já não tinha mais.

Ruptura e descontinuidade não apenas de estilo, mas também de substância. Que coloca para fora do jogo a velha Cúria, incapaz, para o seu próprio azar, de entrar em sintonia com a linguagem simbólica do novo papa.

Assim, a última cena a se contar é, na realidade, a continuação da primeira. Com o micro-ônibus do papa e dos cardeais que avança pelos jardins vaticanos rumo à Santa Marta. Seguido pelo carro vazio de placa SCV1, o veículo de representação que o novo papa não quis utilizar. No fundo, fechando o cortejo, o carro do secretário de Estado, ocupado somente por Tarcisio Bertone. Isolado no novo mundo, fechado em uma estranha charrete de Varenne que tenta em vão fugir da mudança.

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Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!

Discurso do Papa Francisco no encontro com os representantes dos meios de comunicação social

CIDADE DO VATICANO, 16 de Março de 2013 (Zenit.org) – Apresentamos o discurso do Papa Francisco no encontro com os representantes dos meios de comunicação social, realizado neste sábado (16) às 11 da manhã, na Sala Paulo VI.

Queridos amigos,

É para mim uma alegria poder, no início do meu ministério na Sé de Pedro, encontrar-vos, a vós que estivestes empenhados aqui em Roma num período tão intenso como este que teve início com o inesperado anúncio do meu venerado Predecessor Bento XVI, no dia 11 de Fevereiro passado. Saúdo cordialmente a cada um de vós.

Ao longo dos últimos tempos, não tem cessado de crescer o papel dos mass media, a ponto de se tornarem indispensáveis para narrar ao mundo os acontecimentos da história contemporânea. Por isso, vos dirijo um agradecimento especial a todos pelo vosso qualificado serviço – trabalhastes… e muito! – nos dias passados, quando os olhos do mundo católico e não só se voltaram para a Cidade Eterna, nomeadamente para este território que tem como «centro de gravidade» o túmulo de São Pedro. Nestas semanas, tivestes ocasião de falar da Santa Sé, da Igreja, dos seus ritos e tradições, da sua fé e, de modo particular, do papel do Papa e do seu ministério.

Um agradecimento particularmente sentido dirijo a quantos souberam olhar e apresentar estes acontecimentos da história da Igreja, tendo em conta a perspectiva mais justa em que devem ser lidos: a perspectiva da fé. Quase sempre os acontecimentos da história reclamam uma leitura complexa, podendo eventualmente incluir também a dimensão da fé. Certamente os acontecimentos eclesiais não são mais complicados do que os da política ou da economia; mas possuem uma característica fundamental própria: seguem uma lógica que não obedece primariamente a categorias por assim dizer mundanas e, por isso mesmo, não é fácil interpretá-los e comunicá-los a um público amplo e variado. Realmente a Igreja, apesar de ser indubitavelmente uma instituição também humana e histórica, com tudo o que isso implica, não é de natureza política, mas essencialmente espiritual: é o Povo de Deus, o Povo santo de Deus, que caminha rumo ao encontro com Jesus Cristo. Somente colocando-se nesta perspectiva é que se pode justificar plenamente aquilo que a Igreja Católica realiza.

Cristo é o Pastor da Igreja, mas a sua presença na história passa através da liberdade dos homens: um deles é escolhido para servir como seu Vigário, Sucessor do Apóstolo Pedro, mas Cristo é o centro. Não o Sucessor de Pedro, mas Cristo. Cristo é o centro. Cristo é o ponto fundamental de referimento, o coração da Igreja. Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam, nem teriam razão de ser. Como repetidamente disse Bento XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. O protagonista de tudo o que aconteceu foi, em última análise, o Espírito Santo. Ele inspirou a decisão tomada por Bento XVI para bem da Igreja; Ele dirigiu na oração e na eleição os Cardeais.

É importante, queridos amigos, ter em devida conta este horizonte interpretativo, esta hermenêutica, para identificar o coração dos acontecimentos destes dias.

Destas considerações nasce, antes de mais nada, um renovado e sincero agradecimento pelas canseiras destes dias particularmente árduos, mas também um convite para procurardes conhecer cada vez mais a verdadeira natureza da Igreja e também o seu caminho no mundo, com as suas virtudes e os seus pecados, e conhecer as motivações espirituais que a norteiam e que são as mais verdadeiras para entendê-la. Podeis estar certos de que a Igreja, por sua vez, presta grande atenção ao vosso precioso trabalho; é que vós tendes a capacidade de identificar e exprimir as expectativas e as exigências do nosso tempo, de oferecer os elementos necessários para uma leitura da realidade. O vosso trabalho requer estudo, uma sensibilidade própria e experiência, como tantas outras profissões, mas implica um cuidado especial pela verdade, a bondade e a beleza; e isto torna-nos particularmente vizinhos, já que a Igreja existe para comunicar precisamente isto: a Verdade, a Bondade e a Beleza «em pessoa». Deveria resultar claramente que todos somos chamados, não a comunicar-nos a nós mesmos, mas esta tríade existencial formada pela verdade, a bondade e a beleza.

Alguns não sabiam por que o Bispo de Roma se quis chamar Francisco. Alguns pensaram em Francisco Xavier, em Francisco de Sales, e também em Francisco de Assis. Deixai que vos conte como se passaram as coisas. Na eleição, tinha ao meu lado o Cardeal Cláudio Hummes, o arcebispo emérito de São Paulo e também prefeito emérito da Congregação para o Clero: um grande amigo, um grande amigo! Quando o caso começava a tornar-se um pouco «perigoso», ele animava-me. E quando os votos atingiram dois terços, surgiu o habitual aplauso, porque foi eleito o Papa. Ele abraçou-me, beijou-me e disse-me: «Não te esqueças dos pobres!» E aquela palavra gravou-se-me na cabeça: os pobres, os pobres. Logo depois, associando com os pobres, pensei em Francisco de Assis. Em seguida pensei nas guerras, enquanto continuava o escrutínio até contar todos os votos. E Francisco é o homem da paz. E assim surgiu o nome no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e preserva a criação; neste tempo, também a nossa relação com a criação não é muito boa, pois não? [Francisco] é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres! Depois não faltaram algumas brincadeiras… «Mas, tu deverias chamar-te Adriano, porque Adriano VI foi o reformador; e é preciso reformar…». Outro disse-me: «Não! O teu nome deveria ser Clemente». «Mas porquê?». «Clemente XV! Assim vingavas-te de Clemente XIV que suprimiu a Companhia de Jesus!». São brincadeiras… Amo-vos imensamente! Agradeço-vos por tudo o que fizestes. E, pensando no vosso trabalho, faço votos de que possais trabalhar serena e frutuosamente, conhecer cada vez melhor o Evangelho de Jesus Cristo e a realidade da Igreja. Confio-vos à intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, Estrela da Evangelização. Desejo o melhor para vós e vossas famílias, para cada uma das vossas famílias. E de coração a todos concedo a minha bênção. Obrigado.

Disse que de coração vos daria a minha bênção. Uma vez que muitos de vós não pertencem à Igreja Católica e outros não são crentes, de coração concedo esta bênção, em silêncio, a cada um de vós, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vós é filho de Deus, Que Deus vos abençoe!

Enviadas por Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus.