Luiz Castro em: DECOLORES
I FESTIVAL REGIONAL DA CANÇÃO – Ainda jovem com meus 18 anos, tive o privilegio de participar como expectador do referido festival, que ocorreu na cidade de Ilhéus, durante o mês de dezembro de 1968, nas dependências do Ginásio Herval Soledade.
Estávamos em plena ditadura militar com censura dos militares, que deixou profundas marcas na vida de um numero incontável de pessoas no país.
O festival foi amplamente divulgado pela imprensa regional da época através de rádios e jornais.
Conforme o estatuto do festival promovido pela JUWAL (Juarez Oliveira e Walter Matos), cada competidor poderia inscrever no máximo três criações, podendo ser, as canções, defendidas pelo próprio autor, ou a critério do mesmo, entregues a qualquer pessoa para interpretá-las. Admitia-se que as canções pudessem ser interpretadas por cantores profissionais, mas não eram permitidas inscrições de compositores profissionais.
Foram inscritas mais de 100 canções, e após a primeira seleção, apenas 30 delas passaram para a fase classificatória. Após a etapa final cinco canções foram escolhidas como vencedoras e reunidas a outras seis apresentadas no festival fizeram parte da gravação do long play (LP), patrocinado pelo então gerente do Banco da Amazônia de Ilhéus, Aristóteles Beleza de Mello.
As cinco canções classificadas foram as seguintes:
Primeiro Lugar: RANCHO DO SONHO – Wandick Ferreira (compositor) – Gilberto Sena (interprete)
Segundo Lugar: ESTRADA – Mauro e José Machado (compositores) – José Machado e Creuza Povoas (interpretes)
Terceiro lugar: O PENSADOR – Wandick Ferreira (compositor) – Eduardo Aragão (interprete)
Quarto Lugar – CANTO DA JUVENTUDE – Romário Carvalho (compositor) – Os Metralhas (conjunto musical dirigido por Renato Carvalho (interprete)
Quinto Lugar – SERESTEIRO – Wandick Ferreira (compositor e interprete)
As composições incluídas no LP foram as seguintes:
CANÇÃO PARA QUEM TEM AMOR – Anésio Gomes (compositor) – Odraude Silva (interprete)
CANÇÃO DO AMANHÃ – Wandick Ferreira (compositor) – Gilberto Sena (interprete)
MINHAS PRAIAS – Anésio Gomes (compositor) Odraude Silva (interprete)
OFERTA DE AMOR – Denise Contreiras (compositora) –Gilberto Sena (interprete)
DECISÃO – Izaias Silva e Hamilton Couto (compositores) – Juscelino Leal (interprete)
A imprensa regional destacou a importância do evento como uma iniciativa inédita na região, como tivesse sido inaugurada uma forma de expressão cultural que se aproximava uma pequena cidade do interior da Bahia ao que ocorria nos grandes centros.
O compositor Wandick Ferreira foi um dos autores que mais se destacaram no festival, sendo elogiado como revelação do festival. Sua composição Rancho do Sonho caracteriza um grupo de carnavalesco que segue a desfilar e cantar. Sua letra diz dos momentos em que o povo se faz ação, vejamos:
“Multidões encantadas vão cantando/É o rancho do sonho que vai desfilando/Canta a vida com amor/canta a paz e nada mais/
Vai seguindo o seu destino/ mas sem pressa de chegar/
Vai levando a esperança de quem vive a sonhar
Vai liberto da tristeza que já foi pra não votar…
Não tem muro que não passe/ Não tem ilha que não ligue/
Uma ponte fictícia entre risos sem malicia/
Ocidente e Oriente legendárias legiões/
Vai levando a igualdade sob forma de canções…
Multidões encantadas vão cantando/
É o rancho do sonho que vai desfilando/
Vai a guerra, vai a lua/
Volta a terra, mesmo nua/
Planta o amor para vingar/
Corta aquela erva daninha que brotou tão orgulhosa/
Vaidosa na ausência da mais pura e linda rosa…
Não tem muro que não passe…”
A composição Canto da Juventude, do compositor Romário Carvalho/Metralhas, tem a seguinte letra.
“Entre os homens só há rivalidade/Não querem ter um pouco de paz/No mundo em que hoje se vive/Só se fala de guerra e nada mais.
O home m para ser universal/Precisa pensar na irmandade e na paz/ Brancos, negros, cor não importa/Pois somos todos iguais.
Canhões, granadas e metralhas/ Destroem nossas casas, as nossas cidades..
Crianças, jovens e velhos/ Soluçam nas ruas sem pão e sem lar.
Amor, flores e harmonia/ Devem ser as armas de combate.
Aos inimigos da paz universal.
Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós.
Juntos todos podemos lutar por um ideal.
Sem derramar nosso sangue e gritarmos alto por igual.
Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós…”
Diante do exposto afirmamos que o I Festival Regional da Canção deve ser compreendido como parte desse movimento cultural do final da década de 1960, onde a juventude ilheense teve o privilegio de participar.
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Colaboração de Luiz Castro
Bacharel Administração de Empresa – Aposentado

























































Grande e inesquecível amigo Luis Castro
Parabéns e obrigado por sempre nos brindar com grandes recordações que vivemos em Ilhéus na nossa juventude, tempo em que fervilhava cultura arte e movimentos populares.
Essa música dos Metralhas eu até hoje canto no banheiro, com mais uma que também nunca me saiu da memória e que foi interpretada por um galego de óculos fundo de garrafa, que era mais ou menos assim:
” Pula por cima do pau ou piau que a maré tá cheia
Pula por cima do pau ou piau que a maré tá cheia
Não adianta fugir, nem discutir nem brigar…
foge das ondas do mar… pois aqui ninguém começa a falar
cantador que viciou a correr e conhecer
pois ninguém sabe que o mundo gira qual roda gigante…
e quem do alto balança, vai acabar num rochedo etc etc ”
Refrão:
Pula por cima do pau ou piau que a maré ta cheia ( bis )
Também teve uma música interpretada pelo nosso amigo Aragão que não sei por onde anda.
Beijo grande com saudade dos nossos bons tempos de Teatro aí em Ilhéus, e lembranças a todos.
José Rabat Chame
Vitória da Conquista – Ba
P.S. Juarez de Oliveira e Walter Matos são dois saudosos Ilheenses, ambos no Oriente eterno.
Juarez de Oliveira foi casado com a irmã de Dr. Edgard e de César, filhos do saudoso Edgard do rádio e que morava na rua do café. Ela reside aqui em Vitória da Conquista.