Maçonaria inglesa e a francesa: arestas a serem polidas

Ir.’. Everaldo

A Grande Loja de França nasceu em 1728 e virou o Grande Oriente de França (GOF) em 1738, oficializado em 1773. Adotou o deismo e era tolerante em relação a Deus e a Religião.

A publicação da edição revisada e aumentada das Constituições de Anderson, em 1738, trouxe mudanças. O enfoque deísta (sistema filosófico-religioso ou religião natural) passa a ser teísta (doutrina filosófica que admite a existência de Deus pessoal, primeiro princípio e fim último de tudo que existe).

O deísmo se instalou no pensamento francês. Isso se deve a iniciação de Voltaire na Loja das Nove Irmãs em 1778 que trouxe à elite da maçonaria francesa um conceito de religião natural de cunho deísta (em harmonia com as Constituições de 1723). O rito francês da época não fazia menção a Deus nem a GADU, mas era diante desse último que o iniciando prestava juramento.

Enquanto isso a Maçonaria se expande na França e fundam-se várias Lojas e Capítulos. Foi necessário estabelecer uma doutrina própria dos Altos Graus para cessar a propagação de inúmeros graus e rituais. Em 1782 o GOF cria uma Câmara de Altos Graus e publica uma circular (1784) firmando a reunificação de sete Soberanos Capítulos Rosa-Cruz e criando uma nova instituição: O Grande Capítulo Geral de França, cuja finalidade é ser a “Assembléia Geral de todos os Soberanos Capítulos que existam ou que venham a existir regularmente em França” e que “não afiliará nenhum Soberano Capítulo que não seja portador de constituições outorgadas pelo Grande Oriente de França”. À frente do Capítulo Geral estava Roettiers de Montaleau que faz um estudo dos graus existentes e redigiu um ritual apropriado.

Na Convenção de 1849 o GOF adota a primeira Constituição da Obediência que tinha apenas regulamentos gerais. O 1° artigo reza: “A Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por base a existência de Deus (landmark 19) e a imortalidade da alma (landmark 20); ela tem por objetivo o exercício da beneficência, o estudo da moral universal, das ciências e das artes, e a prática de todas as virtudes. Sua divisa tem sido a de todos os tempos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

O Congresso de Lausanne, realizado em setembro de 1875 na Suíça, objetivava fazer uma revisão da Constituição. Após muita celeuma, em 1877, a Assembléia Geral do Grande Oriente de França eliminou das práticas o conceito de GADU – Grande Arquiteto do Universo e o juramento sobre a Bíblia (landmark 21). Ou seja, não se exigia mais a crença em Deus, por uma questão de respeito à liberdade religiosa e de pensamento – que permitia a filiação de ateístas.

Tal reforma provocou reações. Algumas lojas tradicionais francesas abandonaram o GOF e formaram a Grande Loja Simbólica Escocesa. A Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI) tachou o Grande Oriente de França (GOF) de irregular, pois não seguia as Constituições de Anderson: “Um maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. Apesar de em tempos antigos os maçons serem obrigados em cada País a adotar a religião daquele País ou nação, qualquer que fosse, hoje se pensa que é acertado somente obrigá-los a adotar aquela religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprios; isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de conciliar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância.

Para a maioria dos maçons franceses “aquela religião com a qual todos os homens concordam”, era a religião sem dogmas da qual falava Voltaire no seu Dicionário Filosófico (1764): “o Deus dos filósofos das Luzes, que era o grande denominador comum da natureza e do cosmo, sem que lhe fosse necessário recorrer a manifestações sobrenaturais”.

Estava sendo imposto um Deus pessoal dos cristãos e judeus em vez de um Princípio Criador impessoal. Portanto estavam dentro das Constituições de Anderson de 1723 (não na de 1738).

Para o pensamento inglês da época o ateísmo era contrário ao bom uso da razão, assim a GLUI rompeu com o GOF. E não só pela questão doutrinária, mas tambem porque o GOF permitia a abordagem de assuntos políticos e religiosos (sem proselitismo) e aceitavam mulheres (mas não iniciavam).

O Supremo Conselho de França concedeu em em 1894 a supervisão independente dos três graus simbólicos básicos, que unidos à Grande Loja Simbólica Escocesa reconstituíram a Grande Loja de França, obediência que pratica a Maçonaria tradicional (ou regular).

O Brasil, apesar de manter o sistema de Grande Loja, criou o sistema de Grande Oriente, pois se inspirou na Francesa, mas acrescentou-lhe sua própria cultura.

Em 1761 foi criado o Rito Moderno e reconhecido pelo GOF em 1773. Em 1786, com o estabelecimento dos sete graus do rito (enxugando o praticado na época) ele espalhou-se pela França, Bélgica e colônias francesas e América Latina.

No início do século XIX, o Grande Oriente do Brasil (GOB) fundado em 1822, adotou o Rito Moderno, antes do Rito Escocês (adotado em 1832).

Com o texto acima estamos finalizando esta etapa relativa às “ORÍGENS E HISTÓRIA DA MAÇONARIA”. A nossa próxima abordagem será: A PRESENÇA DA MAÇONARIA NO BRASIL.

JOSÉ EVERALDO ANDRADE SOUZA
MESTRE-MAÇOM DA LOJA ELIAS OCKÉ N° 1841
GRANDE ORIENTE DO BRASIL – RITO BRASILEIRO
ORIENTE DE ILHÉUS – BAHIA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Pitombo, Heitor
Maçonaria no Brasil – Heitor Pitombo
São Paulo: Editora Escala, 2009.

PARA LER A PARTE I CLIQUE AQUI.

PARA LER A PARTE II CLIQUE AQUI.

PARA LER A PARTE III CLIQUE AQUI.

PARA LER A PARTE IV CLIQUE AQUI.