Ir.’. Everaldo

O novo império

Antes de 1822, como percebe-se, a Maçonaria no Brasil, passou por inúmeras dificuldades. O fracasso da Revolução Pernambucana (Revolução dos Padres) de 1817 e a expedição  do Alvará Régio de março de 1818 obrigaram as Lojas a cessar os seus trabalhos, até que podessem ser reabertas sem perigo. Os maçons, contudo, continuaram a trabalhar, em segredo, no Clube da Resistência, que havia sido fundado por José Joaquim da Rocha, em sua própria casa, na Rua da Ajuda. A Loja Commercio e Artes (que passou a adotar o título distintivo de “Commercio e Artes da Idade do Ouro”) foi reaberta em 24 de junho de 1821, depois que ficou constatado na “ata da sessão de reinstalação” que todos os seus livros haviam sido queimados, e (no dia 17 de junho de 1822) acabou sendo dividida em três Lojas: a União e Tranquilidade, a Esperança de Niterói, além dela mesma.

No dia 10 de março de 1822, seguindo uma indicação de Domingos Alves Branco, a Commercio e Artes conferiu ao Príncipe D. Pedro o título de “Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil”. Aquele que se tornaria, historicamente, o braço direito do futuro monarca, José Bonifácio de Andrada e Silva, foi iniciado na Maçonaria em 26 de maio. Cinco dias antes, em plena sessão da Corte portuguesa, o maçom Monsenhor Muniz Tavares afirmou que “talvez os brasileiros devessem declarar sua independência de uma vez”. No dia 2 de junho, junto com outros maçons, José Bonifácio fundou a Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, uma sociedade secreta que era mais conhecida como Apostolado. D. Pedro fazia parte do grupo e detinha o título de Arconte-Rei. A 5 de agosto, com a dispensa do interstício, D. Pedro, vendo-se cercado por todos os lados por maçons que constituíam a elite pensante e ecnômica da época, é exaltado ao grau de Mestre Maçom do Grande Oriente (quando adotou o “nome heróico” de “Guatimozim” – nome do último imperador azteca morto por Cortez, no México, em 1522).

O agitado período de transição do Brasil para país independente seria de intensas lutas pelo poder, que acabariam envolvendo o Grande Oriente. Dois grupos que integravam a entidade tentavam conquistar a confiança do  príncipe regente D. Pedro (que seria o imperador), com o intuito de comandar a jovem nação independente: o do Grão-Mestre José Bonifácio, ministro todo-poderoso do Reino e de Estrangeiros e figura internacionalmente conhecida, e o do primeiro Grande Vigilante, Joaquim Gonçalves Ledo, político fluminense que embora fosse reconhecido como a maior liderança maçônica da época (ao lado de gente como José Clemente Pereira – que se tornaria Grande Orador – e do cônego Januário da Cunha Barbosa), não tinha o prestígio nacional e internacional de Bonifácio.

Logo depois da proclamação da independência  (em 7 de setembro de 1822), Ledo, numa manobra política, conseguiu destituir Bonifácio do Grão-Mestrado e empossou o próprio D. Pedro no cargo em 4 de outubro de 1822. O troco se daria no terreno político, quando Bonifácio mostrou ao imperador que a luta da independência exigia um período de calmaria interna, coisa que não era exatamente respeitada pelo grupo adversário, que fazia exigências descabidas a D. Pedro (como o juramento prévio de Pedro à Constituição ainda não votada e aprovada, e a assinatura de três papéis em branco) e punha em funcionamento uma rede de intrigas, fatores que poderiam minar a luta externa. Diante disso, enquanto Bonifácio processava o grupo de Ledo, D. Pedro determinou não só o fechamento “temporário” do Grande Oriente – “primo como Imperador, secundo como Grão-Mestre – em 21 de outubro, como também o encerramento das atividades maçônicas quatro dias depois. Vários maçons foram presos, mas Ledo conseguiu fugir para a Argentina.

O fim da intolerância

Em 25 de março de 1823, o Apostolado aprovou o projeto da Constituição Brasileira. Porém, no dia 23 de julho, o Apostolado é violentamente fechado. Enfim, o imperador estava determinado a impedir o surgimento de qualquer associação clandestina, já que em 20 de outubro, as sociedades secretas do Brasil foramproibidas, sob pena de morte ou de exílio. A coisa continuava complicada em 13 de janeiro de 1825, quando o Maçom e Frei Joaquim do Amor Divino Caneca foi fuzilado no Recife.

As Lojas brasileiras permaneceram fechadas durante todo o resto do Primeiro Império e só ressurgiriam  durante o movimento que levou o imperador a abdicar em favor de seu filho D. Pedro II, em 7 de abril de 1831 – quando partiu para retomar o trono português que estava em poder de seu irmão dom Miguel, e acabou sendo coroado D. Pedro IV de Portugal.

Porém, no que diz respeito às manifestações mais importantes, a Maçonaria brasileira voltou à carga em  1830, com a criação do Grande Oriente Nacional Brasileiro, também conhecido como Grande Oriente da Rua de Santo Antonio, e, posteriormente, Grande Oriente do Passeio (nomes que se referiam aos locais onde a entidade se instalou, no Rio de Janeiro), depois denominado, apenas, Grande Oriente Brasileiro.

Formada pelas Lojas União, Vigilância da Pátria e Sete de Abril (às quais logo se juntou a Razão, de Cuiabá), a entidade possuía uma Constituição que previa que o Grande Oriente Brasileiro só seria instalado de fato quando existissem, pelo menos, três Grandes Orientes Provinciais, coisa que ocorreu logo depois, quando, ao Grande Oriente da Província do Rio de Janeiro, juntaram-se os de Pernambuco e São Paulo. A primeira Loja da Província de São Paulo foi a Inteligência, de |Porto Feliz, fundada em 19 de agosto de 1831, no Rito Moderno. Homens de prestígio, como o senador e Grão-Mestre Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, o Grande Orador Joaquim José Rodrigues Torres (o Visconde de Itaboraí), e o Padre e Grande -Secretário Belchior Pinheiro de Oliveira estavam por trás da gerência da Grande Oriente do Passeio.

No começo de 1832, com a assinatura de José Bonifácio, foi lançado um manifesto da entidade, dirigido às demais Potências Maçônicas do mundo, contendo subsídios de extraordinária importância para a História do Brasil.

Na próxima edição daremos continuidade ao presente assunto, destacando atos e fatos relevantes da Maçonaria brasileira.

 

JOSÉ EVERALDO ANDRADE SOUZA

MESTRE MAÇOM DA LOJA ELIAS OCKÉ – N° 1841

FEDERADA AO GRANDE ORIENTE DO BRASIL – RITO BRASILEIRO

ORIENTE DE ILHÉUS – BAHIA.

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