Heckel Januário em: DESSERVIÇO À DEMOCRACIA
Claro, a Câmara dos Deputados, uma Casa de discussões por excelência, não deve se posicionar tranquilamente frente a encaminhamentos do Executivo, mas no caso do Decreto objetivando estreitar o diálogo governo e sociedade civil, algo mais estava presente: ressentimentos de alguns aliados e oposicionistas gerados pela recente campanha eleitoral.
Nos primeiros pela falta de apoio da cúpula da coligação partidária às suas candidaturas; nos segundos, em razão do resultado das urnas. Se de um lado os defensores apontavam o edito como um meio do Planalto atender com eficácia as reinvindicações populares, citando até mesmo as demandas reclamadas pelas manifestações de junho/2013, do outro, os contrários viam nele uma artimanha governamental para a implantação de uma ‘representação direta’ –uma espécie de Democracia Direta, como na Grécia antiga, em que todos os cidadãos participavam diretamente das tomadas de decisões–, subtraindo assim, prerrogativas do Poder Legislativo.
Controvérsias congressuais à parte, o fato é que para uma instituição (o Senado menos um pouco) marcada pelo descrédito –aliás, a mais desacreditada de todas perante a opinião pública–, desaprovações ou aprovações desse jeito, na base da emoção, do revanchismo político, escanteando a razão, nos induz a pensar que esta entidade legislativa ainda não se mancou no pedaço, fomentando mais uma vez a continuidade de já terrível qualificação. Fora o noticiário mais badalado nos meios de comunicação semana passada. Entretanto, conclusão, se contra, ou a favor do Decreto, por só conhece-lo de arquibancada, este telespectador deixa para o futuro.
Naturalmente o episódio entrará para os anais da Casa, bem como para a história. E por falar nisso, relacionando esse registro ‘cheirando a alho’ (ditado baiano significando “novinho” e catalogado por Nivaldo Lariú em seu livro Dicionário de Baianês – 2ª edição) com os de antanho, me veio Luís Carlos Prestes, revolucionário político e um combatente das desigualdades e injustiças desde a chamada República Velha. Famosa foi sua Coluna Prestes, que ele comandando um grupo de militares, especialmente tenentes, a pé, percorrera o país de ponta a ponta, denunciando desmandos e conscientizando o povo a lutar por direitos. Preso por dez anos, e sua companheira Olga Benário, extraditada para a Alemanha nazista –e morta na câmara de gás num de seus campos de concentração– pelo governo Vargas, que então era simpático a este regime, ao nazi-fascismo, Prestes, sabedor da transformação, da radical mudança deste mandatário que passara a defender a Democracia, não hesita, por ser dotado de espírito patriótico exemplar, em apoiar esta decisão. O escritor Jorge Amado que o admirava, lhe dedicando, titulou o livro “Cavaleiro da Esperança”.
A referência do ‘Cavaleiro’ se impôs simplesmente como um exemplo de patriotismo, dado os maus, emanados do Poder Legislativo. E se não bastasse tal desserviço à Democracia, certos comentários na imprensa –maldosos, sensacionalistas e mesmo terroristas– ao detratarem as regiões Norte e Nordeste, culpando-as pela escolha presidencial, se associaram de alguma forma a esta “nobre” ação parlamentar. Ao qualificar um desses “notáveis” que escrachara num tom a mais a população nordestina, o comerciário aposentado aqui da Capitania dos Ilhéus, Raimundo Lá Vai Bala, de poucas e boas tiradas, não deixou de externar seu repúdio: “Rapaz, se este sacana não for um nazista total, carrega dois terço no sangue”. Como se vê, deixamos de mencionar o repudiado; por escrúpulo.
Heckel Januário



























































