Heckel Januário em: UMAS E OUTRAS INUSITADAS DA CIDADE (XVI)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
Alguns palavrões, embora a princípio sejam pejorativos, mudam de sentido ao sabor da mudança do tom. É o caso do popularíssimo “filho da puta”. Quem nunca, expressando embevecimento a alguém, disse: “Esse cara é um filho da puta!”? E o porreta é que na maioria das situações nada tem a ver com a inocente genitora do qualificado, mesmo nos calorosos e tradicionais “elogios” de torcida a árbitros de futebol nos estádios. É com essa, digamos assim, ‘palavra-chave’, que iniciamos mais uma, a bem dizer, duas, de outras incomuns de alguma maneira ligadas a Bebel.
Bom, o belmontense Carlos Mega nos anos 60 do século passado estudava em Salvador e formou-se em bacharel em Direito, iniciando a carreira profissional como delegado numa delegacia nas cercanias da Praça da Piedade. Cidadão do tipo sério, voz grave, mas gente da melhor qualidade e, como um farrista e carnavalesco de primeira, do de ‘fazer acontecer’ –junto com Afrânio(estudava química na capital) e o empresário Zeca de Pepino, parceiros de fé– nos velhos carnavais de Bebel, que naqueles idos era de ‘arrombar’, a ponto de ser considerado um dos melhores da Bahia. Já conhecido e com amigos no meio jurídico soteropolitano, estreita também, por força da função exercida, relação com a “malandragem” – mas, como natural, uma malandragem mais para a ‘boemia’, diferente da “barra pesadíssima” de hoje em dia. Certa feita, conta-se, que Mega estava a bebericar umas e outras numa barraca da tradicional festa da Ribeira com o então Secretário de Segurança Pública do Estado da Bahia quando ao largo passam quatro personagens da referida categoria e o avista. Bastou para de forma uníssona, bradarem: “Doutor Mega, seu filho da puta, tá tomando sua cervejinha aí e não nos convida, né! Nós vamos até aí”.
Outra semelhante ocorreu tempos depois. Alfredo Couto, aqui da Capitania dos Ilhéus, ao fim dessa mencionada década fazia Emarc em Uruçuca e conhecendo, como colegas de turma, este escrevinhador e Amado Melo, ambos da terra da foz do Jequitinhonha, surgia uma amizade entre os três. Amado e Alfredo, porém, tornaram-se, como se diz, “par de às”, pra tudo. Abrindo rapidinho um parêntese para puxar a sardinha, esta escola, no nível médio-técnico, era considerada –pelo menos, tinha a fama– de excelência em matéria de ensino no território baiano, além de intermediar ao final do curso um contrato de trabalho do aluno com a Ceplac, claro, após vários estágios seletivos. Continuando, não é que os dois, por incrível coincidência, vão trabalhar juntos no setor entomológico do Cepec, desta instituição! Amado mais tarde viria a se desligar do emprego, e Alfredo, sentindo que a área social lhe era mais compatível, a concluir advocacia na faculdade da antiga Fespi. Nesse ínterim se dedicando a concursos, é aprovado em diversos, escolhendo o da Polícia Federal, daí galgar o magistrado. Foi como Juiz de Direito, que o titularam “rei dos júris”, tamanha a quantidade de julgamentos que empreendera na vara crime da comarca de Ilhéus. Sim, numa ocasião, encontrava-se o agente Alfredo a serviço em Belmonte e, olha só quem de passagem o vê na porta do foro da cidade! Amado Melo –e não podia ser outro– que saltando serelepe de uma bicicleta, em alto e bom som dispara: “Doutor Alfredo, seu filho da puta, você aqui por essas bandas e não me avisa! Tira logo esse paletó e vamos tomar uma, agora”. Comentaram ter o agente-policial meio sem graça e sorrindo, esboçado uma reação e dito: “Amado, Amado, se manca. Não estamos mais na Emarc, não!”.
Como se vê, apesar de se tratar de duas autoridades, não se pode afirmar ter havido a ausência do famoso ‘simancol’ nas ocorrências, pois muito longe de pejorar, ou melhor, sem pejorar, a expressão conotou estima, intimidade e admiração dos falantes; impossível tratamento, por literais e imutáveis, com ‘ladrão’ e ‘corrupto’, por exemplo, conhecidíssimos e badaladíssimos vocábulos no meio político e empresarial-empreiteiro brasileiro.
Heckel Januário



























































