MINHA CABELEIRA
JUVENTINO RIBEIRO
Há mais de dois meses só tenho ido ao salão “Corte Legal”, dos amigos Wagner e Chico, para prosear e atualizar fofocas do noticiário local e do desporto. Ali, a resenha corre solta, principalmente sobre a atual desastrosa situação do meu outrora glorioso Botafogo de Futebol e Regatas e do Esporte Club Bahia, rebaixados à segunda divisão. Não me importo muito com isso e quero que todos saibam que antes de torcedor, sou desportista.
Por outro lado, meu Clube Atlético Mineiro, o Galo das Alterosas, vai muito bem. Também campeão brasileiro, tem surrando impiedosamente seu arquirrival, a raposa (Cruzeiro). No relvado tem confundido o Urubumengo com uma galinha preta e por duas vezes, créu, de 4.
Minha prateada cabeleira tem se avolumado e pessoas parecem incomodadas. Seria inveja? Afinal, só agora, já trilhando a sétima dezena de anos, denoto indício de queda de alguns fios. Sou um humano em constante mutação e, talvez, esteja manifestando meu lado camaleônico. Tô nem aí, como dizia meu saudoso amigo, Hernani Lopes de Sá Filho, engenheiro químico ilheense, um dos idealizadores do biocombustível. Foi o mais entusiasta defensor e propagador dessa alternativa energética.
Há mais de vinte anos, o amigo Paulista, dono da PHD Eventos, seu irmão André e companheiros, rasgavam o silêncio das noites de Ilhéus com a banda de rock, “Carbono 14”, interpretando, principalmente, Gans N´Roses. Ambos ostentavam fartas cabeleiras esparramadas pelos ombros. Um dia perguntei a Paulista quando iria cortar o cabelo, e ele me respondeu que se sentia bem melhor com sua cabeleira do que com uma cabeça parecendo um capacete, como a minha. Agora estou cabeludo e ele com cabeça de capacete. Pessoas mudam. Acho que devem mudar, se for para se sentirem melhor.
No programa Teleton, do dia 8 de novembro, Silvio Santos perguntou à atriz Julia Olliver, de 11 anos, o que queria ser quando crescer. “Atriz ou cantora”, respondeu. O dono do SBT retrucou: “Mas com esse cabelo?” Ela, moreninha, possuidora de farta e encaracolada cabeleira, mostrou-se um tanto desconsertada. “Meu caráter é mais importante do que meu cabelo”, desabafou, postando na net, provavelmente, após ouvir chacotas sobre o ocorrido. A gafe de Silvio rendeu-lhe muitas críticas de internautas, inclusive acusando-o de racismo.
Numa noite deste mês estava lendo Gustavo Corção, em seus escritos sobre a obra de Chesterton, e, coincidentemente, a TV replisava “Saneamento Básico”, ótimo filme do cineasta gaúcho, Jorge Furtado, estrelado por excelentes atores, dentre os quais, Lázaro Ramos e Camila Pitanga. Silene, o personagem de Camila no filme, diz a seu pai ranzinza que reclamava de seus cabelos: Papai, a coisa mais importante do mundo para o ator é o cabelo. Em seguida ela recita para ele este poema de Gustavo Corção, encontrado no livro “Três Alqueires e Uma Vaca”:
O cabelo faz do homem um ser misterioso que carrega na cabeça, na parte do corpo que é mais nítida e mais marcada, uma coisa rebelde como um mar e confusa como uma floresta. Está quase fora do corpo, é uma espécie de jardim privado, onde o dono exerce à vontade sua fantasia e sua desordem. É qualquer coisa que cresce e que transborda como se estivesse livre do domínio da alma.




























































Parabéns Juventino; Ao escrever esse artigo você demonstrou ser um ser humano de bem com a vida, e com o espírito elevadíssimo. Eu também estou trilhando a casa dos setenta, quem aceita o ciclo natural da vida tem a serenidade e alegria para curtir a família e amigos. Uma das receitas para isso é só nós, seres humanos procurar a cada dia que se aproxima, errar menos.
pedro alves.