Heckel Januário em: UMAS E OUTRAS INUSITADAS DA CIDADE (XIX)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
Nos dois primeiros decênios do século XX uma rixa das mais violentas, entre duas facções políticas chamadas de Marimbondos e Morcegos, dominava Bebel.
Expõe o fato o tópico explicativo “Iararana ou o Modernismo visto do Quintal _ Um roteiro de leitura” do crítico literário José Paulo Paes sobre Iararana, poema narrativo de Sosígenes Costa. Tal excerto encontra-se nas páginas 419/420 e 422 de Poesia Completa, livro lançado em 2001 pela Prefeitura de Ilhéus, em homenagem ao centenário do referido poeta. Sim, Sosígenes simpatizava com os Marimbondos.
De Emilio Suzart, um amigo da beira itapebiense do Jequitinhonha, um recente e-mail, como a cutucar o prosseguimento destas “Notas…”, relata –fruto de pesquisa– que tal disputa política refletia fortemente nas filarmônicas da cidade: Lyra Popular, adeptos dos Morcegos; 15 de Setembro, dos Marimbondos.
E o envolvimento delas era tão grande que no ano de 1919, conta-se que Alfredo Matos, intendente municipal e um ferrenho adepto da 15 de Setembro não hesita em mandar armar 42 homens de faca, facão, cassetete e cravinote (Bebel à época era conhecida como “Terra dos Clavinoteiros”) para espancar e ameaçar partidários da Lyra Popular, em especial os seus músicos. Nesse cenário de paixão partidária desenfreada não se poupava ninguém, nem mesmo o idoso – pai do músico Felismino Ferreira da Silva– seu Avelino, espancado, visto o grupo não haver encontrado o filho. Inevitáveis reações tiveram curso com o prejuízo da cidade a viver num fogo cruzado. Os que assim procediam eram jurados de morte. Foi o caso do então presidente da Lyra, Aristóteles Duarte, vítima de uma emboscada perto da padaria Brasil de sua propriedade e que se salvara –depois de intensa troca de tiros com os atiradores da política dominante– por puro aborto de sorte. Outro da lista, o Julião São Pedro, encontrava-se foragido. Sobrara para Zeferino, um seu sósia e ‘bi bemor’, igualmente integrante da sociedade filarmônica simpatizante dos Morcegos. Mataram-no com dois disparos nas costas.
O curioso é que Esmero Martins, regente da Lyra (a entidade fora fundada em 1914 como uma continuidade – como inserido no Umas XVII/XVIII – da Bonfim, seguidora fiel dos citados mamíferos), mesmo meio a todo “tiroteio”, teve calma para se apaixonar por Argentina Lopes, famosa e bonita atriz que excursionava pelas bandas de Bebel e, juntos, viajarem para a Europa e não mais voltar. Na comunidade belmontense esses acontecimentos ficaram conhecidos como “O Bando dos 42”. (Trechos baseados no opúsculo “Filarmônica Lyra Popular de Belmonte” publicado em 1992 pelas belmontense Ariadne Rocha e Maria Adalcy)
Temos também de Emilio que Sosígenes Costa fora “nomeado Regente de Terceira Classe em 31/07/1924 para lecionar em Pedra Branca (conforme Livro de Registro de Portarias da Intendência Municipal) ”. Instigante exposição –para os interessados fuçarem se fora só questão de datas–, haja vista Paulo Paes à página 414 da Poesia Completa, na citada análise de Iararana registrar o vate belmontense ter saído para Ilhéus aos 19 anos de idade.
Finalizando estas “Notas…” não poderíamos deixar de constar que a Lyra Popular este ano de 2015 mais uma vez (uma em 2012) a convite – dez filarmônicas foram convidadas – do governo estadual e com o apoio municipal, participara com muito brilho dos festejos do 2 de Julho em Salvador. Data esta que pode ser entendida como a mais cívica de todas, por ser a da Independência do Brasil, realmente.
Heckel Januário



























































