Luiz Castro em: DECOLORES
ENTERRO DE ANÃO REALIZADO POR WANDECO

Existe um grupo chamado ” GÇVA” (Grupo dos Caçadores de Velório de Anões) , que vive afoito atrás dessa raridade. Eles conseguiram catalogar apenas 2 pessoas que frequentaram o velório de algum anão. Detalhe : ambas eram “penetras”.
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Jagú era um anãozinho que morava em Águas Vermelhas. Uma cidade cheia de belezas naturais : belas montanhas, rios de águas cristalinas e vales, mas os olhos dos habitantes de Aguas Vermelhas estavam voltados apenas para uma pessoa : Jagú.
Sendo o único de pequena estatura na cidade, era vítima constante de piadas e insinuações maldosas. Jagú convivia bem com as brincadeiras, pelo menos aparentava. Ele levava tudo sempre na esportiva. O próprio Jagú também gostava de contar piada de anões. Olha só, uma que ele contou para um grupo de colegas :
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No metrô, um anão começou a escorregar pelo banco e um passageiro solidário, o recolocou na posição.Pouco depois, o anão escorregou novamente e o mesmo passageiro o recolocou no assento. Quando a situação se repetiu pela quinta vez, o homem, já irritado, esbravejou: – Será que você não consegue ficar sentado sem escorregar?
Ao que o anãozinho respondeu: – Meu amigo, já passamos por cinco estações, estou tentando desembarcar, mas o senhor não deixa!
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Jagú tinha um senso de humor aguçado, mas o GÇVA aguardava impacientemente apenas por um coisa : pela morte do pobre coitado. Mas quanto tempo seria necessário ? O pequeno notável esbanjava saúde por todos os poros .Teriam que esperar Jagú envelhecer ?
Num belo dia… ou melhor, num triste dia, Jagú foi comprar alguns quilos de batatas. O carroceiro José, na sua distração, vinha em alta velocidade e não se deu conta que o pobrezinho cruzava a rua.
As patas do cavalo esmagaram o pobre Jagú. O animal parecia que tinha prazer em “assassinar” o pobre anão. As patadas eram firmes e ritmadas, como numa coreografia.
A impressão que tínhamos era que o bicho tinha premeditado o tal crime. Por fim, ele relinchou , exibindo todos os dentes amarelos e seguiu o seu caminho como se nada tivesse ocorrido. A notícia espalhou-se pela cidade como fogo no álcool ou álcool no fogo. A verdade era que todos estavam dispostos a comparecer naquele velório. Vários compromissos foram adiados, só por causa de Jagú.
O prefeito tomou a frente e liberou o clube da cidade. A prefeitura responsabilzou-se pelas flores, as coroas e os dizeres sobre as faixas roxas com as bordas amarelas.
A multidão chegava euforica e cheia de aparatos modernos como máquinas digitais, celulares, filmadoras e tudo o que tinham direito. O momento era para ficar registrado.
Dentro do caixãozinho bege ,aberto, no centro do clube, estava o saudoso Jagú. Na testa ainda estava cravada a ferradura do assassino.
Sem cerimônias as pessoas aproximavam-se da pequena urna para tirar fotos. Alguns mais empolgados faziam o sinal de “legal” com o dedo polegar, bem próximo ao rosto de Jagú. Outros eram filmados sorrindo e alisando o rosto do pequeno defunto. Os mais ousados encostavam os seus rostos ao do “mortinho” para uma foto mais extravagante. Os flashes emanavam de todos os cantos.
Seu Pedro Bodão, figura conhecida na cidade, teve a idéia de contratar seu primo que se fantasiou de palhaço e contou umas 25 piadas de anão durante o velório. Ao fundo ouvia-se um forró ” quente” cujo texto tinha duplo sentido.
Aquele evento estava longe de ser um velório,mais se assemelhava a uma festa. Dona Maria levou seu microondas e vendeu pipoca durante todo o velório. As crianças corriam de um lado para o outro, esbarravam no caixão o tempo inteiro e a pequena base da urna bege ficava troncha, disposta a cair. Sempre tinha aquele que gentilmente a recolova no seu devido lugar.
Alguns comiam salgadinhos, paçoca, pipoca em cima do caixão aberto. O rosto de Jagú ficou forrado de farelo. Dona Donana solicitamente espanou toda o restolho da face do anão ,com a fralda do bebê, e a empurrou para debaixo das flores.
As mulheres mais despudoradas discutiam entre elas sobre os atributos físicos do anão. O anão era trípede ou não ? Eis a grande questão !
O abuso foi brutal a ponto de muitas levaram as flores do velório para enfeitar as suas próprias casas. Mulherada cara de pau !
Os homens bebiam xícaras e mais xícaras de café e riam alto. Seu Pedro Bodão, como sempre inventando moda, puxou Dona Maria para dar uns passinhos de forró. Dona Maria que não é fraca, aceitou o convite toda prosa. Por fim, as crianças , estimuladas pelas mães, brincaram de roda em volta do caixão.
O GÇVA fez a festa ! Registrou o velório em fotos coloridas, sépia e em preto e branco. As fotos ficaram lindas, bem enquadradas .
Quando fecharam a urna o povo se decepcionou. Todos seguiram o cortejo até o cemitério da cidade. A cova já estava aberta a espera de Jagú.
O padre Oséias disse algumas palavras de conforto e afirmou que o nosso anão já era um anjinho e estava no reino da glória. Antes do corpo baixar a sepultura, chegou o bêbado Marfuí que fez o seu discurso : – Anão ! Anão ! Onde está a gostosa da Branca de Neve ? Fala anão, desgraçado ! Acorda ! Você não era um dos sete ?
As pessoas choravam de tanto rir e o padre tentava acalmar o povo irreverente. No final, quando a urna begezinha descia, o padre virou o pé, escorregou e caiu na cova junto com a urna de Jagú.
O padre nervoso pedia para que lhe jogassem uma corda ou lhe estendessem a mão para que pudesse sair do buraco úmido que cheirava a morte.
O bêbado entrou novamente em ação . O ex- frequentador do AA disse com a voz trôpega : – Não tira esse padre daí, não. Deixa ele fazer companhia ao anão. Fica padre ! Ficaaaaaa no buraco fundo e escuro ! É isso que o senhor merece !
O povo mais uma vez não se conteve e caiu na gargalhada. Minutos depois o padre saiu do buraco com a batina cheia de terra e com os olhos arregalados.
O prefeito da cidade também fez o seu discurso :- Povo de Águas Vermelhas ! Este pequeno grande homem era uma figura cativa em nossa cidade. Ele era a prova de que os pequenos também podiam. Este pequeno grande homem tinha a padoca pequena, mas um grande coração. Estatura de criança, mas alma de guerreiro ! Descanse em paz, pequena criatura !
A equipe do prefeito, a seu mando, investigou a vida de Jagú. Algumas semanas depois descobriram que este tinha mais um irmão, que por coincidência também era anão.
A prefeitura fez questão de pagar todas as despesas para a vinda de Jigú, o irmão gemêo do finado Jagú. O irmão foi morar em Águas Vermelhas na mesma casa do falecido.
Na verdade, todos aguardavam pacientemente ou impacientemente o falecimento do irmão de Jagú para fazerem uma festa mais animada que a do velório de Jagú. Muitos acreditavam que aquele seria o segundo e último velório de anão que presenciariam em toda a sua vida.
Colaboração de Luiz Castro
Bacharel Administração de Empresa



























































