Anísio Cruz – março 2018

Finalmente choveu em Ilhéus, e região, depois de várias previsão não concretizadas. Mas estamos em março, mês no qual se finda o verão, e o outono inicia, trazendo esperança a todos os que lidam com a terra, pela perspectiva de boas colheitas. No nordeste brasileiro, como um todo, época do plantio, aproveitando a terra molhada, previamente preparada para receber as sementes. O verde volta a compor a paisagem sertaneja, trazendo de volta o canto dos pássaros. O homem do campo sorri de orelha a orelha, agradecendo ao céu.

Aqui em Ilhéus, o calor insuportável dos últimos dias, foi substituído por uma agradável aragem, com os relâmpagos que cortavam o céu, lá para as bandas da Chapada Diamantina, cruzando agora o nosso espaço, seguido dos roncos dos trovões. Até o momento choveu pouco, bem menos que era esperado, a julgar pelas previsões metereológias divulgadas. Mas as grossas nuvens indicam que ainda teremos mais precipitações. São as águas de março, que fecham o verão, como bem disse o nosso inesquecível Tom Jobim. Elas podem tardar, mas não falham.

As chuvas que caem, me trazem lembranças saudosas, de um tempo em que aguardávamos, ansiosamente, as enchentes do rio Cachoeira, e as inesquecíveis pescarias no “paripe”, armadilha rústica de estroncas, e ripas, na fazenda Jacarecica da minha infância e juventude, que nos permitia apanhar robalos, carapebas, pratibus, piaus, além de siris, calambaus, e os deliciosos pitus, para serem vendidos a intermediários, que madrugavam na outra margem do rio, ávidos pelo pescado. Pescávamos noite e dia, durante as cheias, com equipes que se revezavam na lida, em alegres jornadas, sempre bem recompensadas por meu pai. Do paripe ele conseguiu dinheiro para adquirir o seu primeiro carro, um DKV Belcar, da Vemag, cuja característica, além do motor de dois tempos, era a abertura das portas ao contrário dos carros de hoje. Por isso mesmo, a sua sigla DKV, era distorcida para DE CÁ VÊ, aludindo à possibilidade de assistir às moças quando desembarcavam de saias, deixando à mostra bem mais do que se permitia à época.

As pescarias duravam apenas, o tempo das enchentes, que aconteciam sempre em datas associadas a festejos de santos. Santa Bárbara reinava absoluta nesse mister, e raramente falhava na chegada das chuvas. São José, também sempre foi venerado, com as águas de março arrastando tudo nas enchentes do Cachoeira, fazendo chegar à nossas praias, amazonas, baronesas, troncos de árvores, e sujeira de Itabuna, e toda a região por onde passa. E era bonito ver o rio nos seus picos de enchentes, com cinco, oito, e até mais de 10 metros acima do seu nível normal, cobrindo as pedras, e alargando o seu leito, por onde passava. E porque eu escrevi ERA BONITO? A resposta é simples, e cruel: a Jacarecica agora é Sta. Luzia, e possui outros proprietários; o paripe não pode mais ser feito, por questões ambientais; o pior de tudo e que, o rio poluído, perdeu a sua piscosidade, e hoje a sua fauna é muito pobre. A região, com as suas matas degradadas, já não protegem os riachos que contribuíam como viveiros dos peixes, criados nas águas límpidas onde banhava a minha fase de menino ribeirinho. Os tempos são outros, e nem as águas de março, escaparam às mudanças.