UMAS E OUTRAS DA CIDADE (XXVIII)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
No fim dos anos 60 do passado século pintavam em Bebel oriundos do Rio de Janeiro, José Januário, Mario Roberto e Caio Jarbas, irmãos na flor da idade, garotões sarados e, bem de dindim. Na capital carioca viviam no bairro do Leblon sob custódia do tio Tantão (de registro Sebastião Gomes de Oliveira). Do rol de famílias de abastados cacauicultores, chegavam para ajudar o pai Luís Gomes a tocar as propriedades cacaueiras que margeavam o Jequitinhonha (subindo o rio) até o distrito de Cachoeirinha.
O mais novo, o mais boêmio e ao qual se prende esta Notas era José Januário, que de prima recebeu dos autóctones, por apreciar o tipo de short, o cognome de Zé Bermuda. Mal, mal arriou as malas o chegante tratou de dar um tempo ao preestabelecido objetivo para se dedicar a outro: o de se enturmar com a rapaziada local, rapaziada esta que tinha, como maior preocupação, curtir a vida, não estando nem um tiquinho assim preocupada –por ainda faltar-lhe consciência política– com o regime ditatorial que o país vivenciava. Bom falante, de sotaque carioca, Zé Bermuda não encontrou barreiras para adaptar-se aos costumes dos conterrâneos. Nessa época as festinhas nos clubes América, Flamengo, nas sedes das sociedades filarmônicas Lyra Popular e 15 de Setembro, no Clube dos Carregadores dentre outros espaços, complementadas pela fama da cidade de produzir invejáveis safras de mulheres bonitas na Região do Cacau, faziam a pequena Bebel efervescer. E havia também –como a não ficar para trás desta produção feminina– um grupo de rapazes nascido de maneira natural e nomeado pelas próprias meninas de “boas-pintas”, que o Zé entrou sem necessitar de seleção.
Eram festas diversas –e se davam com intensa participação de nativos e visitantes–, inclusive de cunho religiosas. É numa dessas, a de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade que, Marta Viana, loura adolescente, bonita, avançada e chegada de Salvador se bateu com Zé Bermuda não dando outra: se apaixonaram à primeira vista. Num breve relato, esse festejo ocorre de 7 a 16 de julho de cada ano na Praça da Matriz onde a igreja da santa está situada, meio a missas e novenas festivas, barracas e a alegria contagiante dos partícipes. Sim, num piscar de olhos já estavam aboletados na barraca de Zeca de Pepino, um amigo da moçada, a planejarem os primeiros passos a dois. Comerciante matreiro, carnavalesco dos bons, exímio tocador de timbau e cantor nas horas vagas, Zeca não hesitou em dar uma força ao ‘love’ do neófito casal com os clássicos de sua carreira solo. Foi deste modo que, entre cervejinhas, batidinhas de caju à moda da casa e, um ‘tapinha’ de leve coisa e tal na ‘inocente marijuana de inocentes tempos’, o dia amanheceu sinalizado pelo foguetório da missa. Nesse momento, embebecidos pelas flechadas de cupido, tomaram uma decisão: se casar aproveitando a folga do Padre João ao término da celebração eucarística. Logo Zé Bermuda mandou avisar a mãe, dona Irma, e pediu-lhe que trouxesse flores. A progenitora com o impacto da notícia de imediato procurou saber da moça. Soube estar hospedada com a ex-prefeita Nirinha e sob os cuidados de Altair Resende, uma amiga de Gei Viana, pai da jovem e homem forte do cacau no pedaço. Enquanto os comentários da
inesperada núpcia tomavam conta das ruas, os futuros cônjuges, ligeiros, não titubearam nos preparativos. No altar os padrinhos Ronaldo Perninha, Maria Adalcy, Romualdo Tourinho, Solange Melo, o casal, amigos e o Padre João já selando o matrimônio quando de súbito ecoa na frente da igreja: –Abra a porta, Padre João!, abra a porta! Era a protetora da nubente em tom meio aflito a empurrar a porta entreaberta do templo. Não tardou a chegar o delegado Jorge Paternostro e com outro brado dominar o ambiente: –Padre João, um instante. Estou com o BO da dona Altair; assim sendo este enlace matrimonial está impedido. Cumpra-se.
E a ordem foi cumprida.
Este escrevinhador pertenceu, jogando a modéstia às favas, ao time dos ‘boas-pintas’ e participou de poucas e boas com o protagonista do açodado casamento. Recentes relatos revelam que tempos depois a protagonista, sem mais o viço da juventude teve um relacionamento com Carlos Antônio (Totonho ou Velho Tota para os amigos), outro pertencente ao quadro dos ‘pintudos’.
Opa! Na próxima Notas, Zimbu e os 50 anos de noivado.
Heckel Januário
Em tempo: este escrevinhado teve valiosa colaboração –tirando dúvidas e acrescentando dados pelo WhatsApp– de Rogério Gomos de Oliveira, irmão, por parte de pai, dos três chegantes.
Em tempo2: Zé Bermuda e Mario Roberto constituíram famílias, tiveram filhos, residem na cidade belmontense e descendem –como o advogado Ivan Gomes aqui da Capitania do Ilhéus– do Coronel José Gomes, intendente de Bebel entre 1890 e 1899. O pai do Gey, Demerval Vianna, foi prefeito da cidade entre 1931 e 1935; Dejanira Resende de Souza (conhecida como Nirinha) de 1959 a 1963.
Em tempo3: pai, mãe, irmão Caio, tio, a jovem e o pai Gey, o Velho Tota, o delegado, o pároco e a hospedeira citados, não estão mais aqui entre nós.
Em tempo4: João Clímaco dos Santos (ou simplesmente Padre João) foi um sacerdote querido em Bebel e com mais de 40 anos de paróquia.



























































