UMAS E OUTRAS DA CIDADE (XXXIII)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
Na parte anterior (a XXXII) dessas Notas nos prendemos à intimidade de Bebel com os Douglas DC-3 (aviões de companhias como Cruzeiro do Sul, Varig, Sadia etc.) e com os monomotores do tipo ‘teco-teco’, ‘cessna’, ‘piper’ entre outros, bem como às proezas de alguns de seus pilotos, como a registrada do aviador Rafael Tosto Filho. O foco desta é em Benedito Ambrósio e Juarez Cardoso, aviadores inseridos no contexto das façanhas e, como não poderia deixar de ser, profissionais da melhor qualidade.
De comportamentos diferentes, o primeiro –embora de tiradas de humor– era circunspecto, o oposto à conduta descontraída do outro. Para começar vale assentar que Benedito jamais frequentou aulas sistemáticas de pilotagem. A familiaridade com a ‘máquina voadora’ de Santos Dumont se deu quando a escarafunchava ao aprender sua mecânica na base do traquejo. Daí o relacionamento com pilotos experientes e, a aprendizagem. Como havia atingido no labor da aviação o limite de idade –idem, de horas de voo–, um lance curioso atingiu-lhe o sentimento: o de ter que viajar em companhia de um copiloto, imposição do Departamento de Aviação Civil–DAC. A princípio, a paixão pela aviação abrandou a aporrinhação que o fustigava, mas não demorou jogar o preceito legal ‘pras cucuias’ e ‘amarrar as chuteiras’, modo de dizer da aposentadoria no reino do futebol. À época Benedito pertencia à Bahia Taxi Aéreo –BATA, empresa em que trabalhou por considerável tempo e onde o mencionado órgão aeronáutico encontrara o registro para considerá-lo o piloto mais velho do Brasil em atividade.
Comunicativo, conversa alargada, o porreta é que com Juarez Cardoso – apesar da fama de excelente piloto–, circulava na cidade a notícia de ele nunca haver tirado o brevê. Comentavam que no tópico ‘prática’ dessas provas de permissão, a aprovação do homem se dava com louvor, no ‘teórico’, só levava cacete. Compensava esse desleixo com a perícia de suas acrobacias. Às tais manobras levava sempre um acompanhante, geralmente um amigo tirado a corajoso ou a valente. Aí, já nas alturas, e depois de umas piruetas, dizia-lhe: – Agora, meu caro, vamos visitar o túmulo do meu avô. E partia rasante em direção ao cemitério de Bebel. A verdade é que não existe informação de algum audacioso –mesmo aquele acompanhado de umas e outras na cabeça para estimular a coragem ou a valentia– tenha saído ileso do voo, ao contrário, o comentário dominante é que o participante pisava em terra literalmente ‘borrado’ e/ou mijado. Outro caso bem falado pelos belmontenses é o da decolagem na tora. Com os teco-tecos cruzando o ar e o cacau –numa boa época– dando nas raízes, despertou em alguns cacauicultores a necessidade de construir pistas de pouso nas fazendas. De um modo geral o revestimento inadequado do solo nessas construções, constituiu em preocupante fator na segurança, mas o maior problema nas que deram certo, ficou por conta mesmo do pequeno comprimento, especialmente para levantar o monomotor do chão. Para vencer o obstáculo a traquinice, a experiência e a habilidade do piloto tinham que falar mais alto. Juarez, dotado desses traços e mais algum, logo veio-lhe a ideia: Com as pontas de uma corda de material forte era só amarrar uma na cauda do avião e a outra num tronco de uma árvore robusta, em seguida imprimir potência
máxima ao motor e, acenar pro –previamente contatado– peão, significando o aceno, cortar a corda do rabo com um facão. Estava solucionada a decolagem em pista curta e mal-acabada no Jequitinhonha Cacaueiro.
Heckel Januário
Em tempo: a narrativa em cima de Benedito Ambrósio se debruçou na conversa que este escrevinhador teve com o próprio piloto em Itabuna há cerca de um ano. Juarez Cardoso não está mais aqui entre nós. A sobre ele se prendeu aos comentados casos rolados em Bebel e que passam de geração a geração. No período de 1983 a 1988 geriu como prefeito o município (desmembrado de Belmonte) de Itapebi. Também residiu por bom tempo aqui na Capitania dos Ilhéus.
Em tempo2: a atual ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) já foi DAC Departamento de Aviação Civil-DAC e, primeiramente DAC (Departamento de Aeronáutica Civil).
Em tempo3: a pista pavimentada –com aeroporto– em Bebel foi construída entre 1951 e 1955 na gestão do prefeito João Santos de Oliveira, entretanto se tem relato de 1944 da presença de um hangar e de um aeroclube, o que comprova a vocação antigamente da cidade pela aviação. A existência desta base de treinamento nos remeteu ao belmontense –de muito radicado em Ilhéus–, advogado e também piloto Ivan Gomes, e que em tempos atrás presidira o aeroclube desta cidade. Aliás, uma crônica do articulista Carlos Pereira no jornal Diário de Ilhéus (anos passados) revela que o referido piloto ao conduzir um defunto de Ilhéus para Belmonte, levou um susto danado em pleno voo ao perceber que o falecido tinha dado um arroto. O medo foi tão grande que na descida por duas vezes ele procurou o manche e não o achou



























































