Ilhéus recentemente testemunhou a aprovação por parte da câmara de vereadores de um projeto que destina valores exorbitantes às empresas de ônibus municipais, algo que beira a imoralidade. É desolador ver que, mesmo diante de tantas injustiças, somos desrespeitados e ridicularizados ao buscar respostas das autoridades. Nossos cidadãos, incluindo turistas, enfrentam diariamente o abandono nas ruas, o que traz um enorme prejuízo econômico e um desgaste sem precedentes à imagem da nossa cidade.

Os empresários da região sentem os impactos diretos dessa situação, enfrentando prejuízos tanto pelo atraso de seus funcionários quanto pelo desgaste físico que resulta de horas de espera em pontos de ônibus. Essa situação, em que aceitamos passivamente a realidade, demonstra um comportamento de cordeiros diante dos problemas que nos cercam. O mais lamentável é ver a propaganda de uma corporação poderosa em nossos meios de comunicação, desejando aos brasileiros que não entrem no ano novo com o pé direito. Cada povo recebe o que merece, e é triste perceber que, mesmo diante de tantos desafios, a esperança de mudança parece distante.

O Brasil é um país que ainda atravessa profunda tensão entre liberdade de expressão, responsabilidade institucional e maturidade democrática.

Quando uma empresa de grande porte, líder em seu segmento, utiliza seu alcance econômico e simbólico para sugerir ou induzir posicionamentos políticos, especialmente associando o futuro da nação a uma única corrente ideológica, ela ultrapassa a esfera do marketing e adentra o terreno delicado da influência política indireta. Não se trata de negar o direito à opinião — direito legítimo de qualquer cidadão ou entidade, mas de questionar o peso desproporcional dessa voz diante de milhões de consumidores que não compartilham, necessariamente, da mesma visão.

Num país plural, o Ano Novo deveria simbolizar esperança comum, união na diversidade e respeito às diferenças, não uma provocação que divide, rotula ou sugere que há apenas um “pé certo” para caminhar. Quando uma empresa fala como se representasse a nação, corre o risco de confundir marca com poder, mercado com soberania, consumo com consciência política.

O que isso revela, no fundo, é um país em que as instituições ainda lutam para separar economia, ideologia e cidadania; que o debate político se desloca do campo das ideias para o campo das narrativas emocionais; que setor privado se sente autorizado a tutelar escolhas que cabem exclusivamente ao povo.

Em democracias maduras, empresas produzem, inovam, geram empregos e pagam impostos. O destino político da nação pertence aos cidadãos, livres para decidir, sem constrangimentos simbólicos, com que pé desejam entrar no novo ano e em qual caminho pretendem seguir.

Somos um País de gente sem nenhuma noção das diferenças entre direitos e deveres, pior, tem espertalhões mostrando só direitos, escondendo os deveres relativos a cada direito embaixo de tapetes; um dia quiçá nosso povo acorde.

Leonardo Garcia Diniz