Um estudo conduzido por cientistas da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) testou um método para acompanhamento dinâmico da cobertura vegetal na Mata Atlântica. A ideia é que o monitoramento forneça dados que considerem o efeito do tempo nos processos de degradação e de recuperação ambiental. Assim, os projetos de licenciamento e restauração ambiental teriam dados essenciais para o planejamento das ações.

O método foi testado por cientistas no Sul da Bahia e está descrito no artigo Assessment and methodological proposal for the restoration of Brazilian Atlantic forest ecosystems [Avaliação e proposta metodológica para a restauração de ecossistemas da Mata Atlântica brasileira]. Quem assina o estudo são Vinícius de Amorim Silva e Hercules da Silva Carvalho, do Centro de Formação em Tecno-Ciências e Inovação (CFTCI) da UFSB; Paulo Sérgio Vila Nova Souza, Júlio Gonçalves da Silva Júnior e Ioná Gonçalves Santos Silva, do Centro de Formação em Ciências Agroflorestais (CFCAF), também da UFSB. O artigo foi publicado no periódico Remote Sensing Applications: Society and Environment, volume 42, de 2026.

Por que isso importa?

A questão importa por conta dos objetivos globais definidos para a recuperação dos ecosistemas florestais. O primeiro é fortalecer a resiliência socioambiental, isto é, a capacidade de recuperação ecológica. O segundo é o atendimento das metas da Agenda 2030 da ONU, em especial as que tratam da conservação da biodiversidade e das medidas para reduzir os impactos das mudanças climáticas.

Os cientistas pesquisaram em uma área da Mata Atlântica. Conhecido pela sua alta biodiversidade e pelo risco de extinção de espécies que só existem ali, esse bioma tem um histórico de forte degradação. Efeitos como a fragmentação de paisagens e a perda de qualidade dos habitats requerem medidas estratégicas de recuperação. Um exemplo está na criação de corredores ecológicos – projetos paisagísticos que ligam as áreas legalmente protegidas de mata entre si para facilitar o movimento do fluxo gênico e de espécies e a manutenção das florestas.

E essa recuperação é compromisso assumido pelo Brasil, ao ser signatário de convenções internacionais sobre conservação ambiental e clima. São 12 milhões de hectares de florestas a serem restauradas até 2030. Um dos desafios é monitorar com precisão e velocidade a recuperação e a degradação ao longo do tempo. O estudo conduzido pelo professor Vinicius e equipe testou uma metodologia capaz de medir com nuances essas variações, melhorando as condições para planejar, executar e acompanhar projetos de restauração florestal. O cenário é o sul da Bahia, onde a Mata Atlântica é pressionada pela expansão das áreas urbanas, das atividades agrícolas e dos projetos de infraestrutura. As áreas que restaram desse bioma em municípios como Ilhéus, Uruçuca e Itacaré são pontos estratégicos de conservação.

O trabalho descrito no artigo combina diferenciais. O primeiro é a série histórica que abrange 23 anos, de 2000 a 2023, o que permite entender a dinâmica de uso da terra na área estudada ao longo do tempo. O emprego da lógica fuzzy na modelagem computacional é feito combinando dados de variáveis ligadas ao ambiente e à atividade humana em um só modelo, ao invés de avaliações estáticas da cobertura e o uso da terra. A diferença é dar lógica temporal à ocupação da área analisada, em vez de analisar dados de forma separada.

Outro destaque é o fato de ser uma metodologia desenhada para apoiar a aplicação e fiscalização do Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD), conforme a Instrução Normativa nº 14/2024 do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA). O PRAD é um projeto técnico exigido pelo IBAMA para orientar a regeneração de ecossistemas prejudicados pelas ações humanas, com detalhamento das etapas, métodos e prazos para essa recuperação acontecer. Ter informações precisas e com nuances aumenta a qualidade do planejamento. Com isso, o método está ligado a uma norma legal e pode ser parte dos procedimentos de licenciamento ambiental no Brasil.

O professor Vinícius de Amorim Silva, um dos autores do estudo, fala que integrar os dados de satélite, cobertura e uso da terra e modelagem fuzzy ajuda na eficácia aos projetos de restauração florestal no âmbito do PRAD. Ele aponta que a construção do PRAD envolve etapas como diagnóstico, preparo da área, implementação, manutenção e monitoramento. A abordagem descrita no artigo qualifica as fases iniciais e de acompanhamento. Como o método faz análise espacial contínua, é possível identificar áreas prioritárias para intervenção, sejam as mais degradadas ou com maior potencial de restauração ou recuperação, e usar melhor os recursos.

“Além disso, a ferramenta reduz a dependência exclusiva de campanhas de campo, que demandam tempo e elevados custos operacionais. Dessa forma, o método utilizado atua como um suporte técnico-científico que promove eficiência operacional e aprimoramento da qualidade do planejamento na Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada e Rio Almada”, exemplifica o cientista.