JORGE VIEIRA / CEPLAC EM 30 ARTIGOS (XVIII)
Comemoração 50 Anos da CEPLAC
1997- C E P L A C H O J E
40 ANOS PASSADOS.
No inicio predominava a incerteza sobre o futuro. Depois, os trabalhos, a ação, a compreensão e apoio da sociedade cacaueira garantiram uma vida prolongada e efetiva.
Foram os anos felizes para todos – produtores, funcionários, políticos e a população dependente da economia do cacau.
Resistindo aos 40 anos (fevereiro/57), a Ceplac, com uma saúde precária, foi atingida por uma sequência de enfermidades, que a levou a uma situação de “fase terminal”.
Neste aniversário de quatro décadas, o diagnóstico parece não oferecer esperança de vida. O meio ambiente de sua efêmera existência, nestes últimos anos, está poluído, carregado de tremores, incertezas e desânimos. Uma bruxa invadiu seu território, dominou o campo, as árvores e a animação dos produtores. A incapacidade de reverter esta situação, expulsar esta doença, ainda perdura em suas entranhas.
Técnicos, com a escassez de equipamentos, recursos e conhecimento, procuram, na última esperança que resta, uma solução para o problema biológico.
Os produtores, angustiados, desanimados despedem trabalhadores e abandonam as plantas dos frutos de ouro. Alguns buscam na transformação em pousadas ou lojas de artesanato, suas residências citadinas, como meios de sobrevivência. De plantio e renovação no passado à erradicação de cacauais no presente. Chegou-se até a imaginar que a urina das vacas eliminaria as bruxas das árvores do cacau.
E as suas organizações? Inoperantes, incapazes de lutar e demover a crise que paira em toda comunidade cacaueira. Os líderes que existiam no passado, faleceram ou abandonaram esta causa. Não surgiram outros.
A defesa do processo de comercialização e industrialização, a presença e luta internacional, tornaram-se apagadas. O prestigio, a liderança e a mostra de um programa nacional, técnico e coerente com a realidade, desapareceram. Aceitam-se pacificamente todas as resoluções e fixação de preços. Voltamos ao passado, ao inicio dos anos sessenta.
As autoridades, insensíveis com o problema, escasseiam os recursos financeiros, retardam as decisões administrativas, que necessitam urgência, como os financiamentos ao produtor e a manutenção de um Centro de Pesquisas, responsável por estudos e experimentos, na expectativa de salvar uma economia moribunda.
E os políticos? Ausentes, mais preocupados com o processo de continuidade de um Governo, que pouco ou nada fez pela agricultura brasileira.
A região está triste, seca de água, de dinheiro, de entusiasmo, de realizações. Não há lideranças capazes de soerguê-la. Neste clima, não existem inaugurações e assim, estão distantes os políticos regionais.
Mas, resistirá esta instituição a chegada do novo milênio?
Escrevi sobre os 15, 25 e 30 anos de sua existência. Naqueles artigos imaginei o crescimento, o apogeu e a tendência ao desaparecimento.
Desaparecerá esta organização que tanto fez, no passado, para a economia cacaueira e regional?
Uma análise técnica isenta de sentimentalismo e de protecionismo político, me diz que não. E daí, o que acontecerá ou poderá acontecer, nestes próximos anos que antecipam o ingresso no novo milênio, se seu estado é precário, dentro de uma debilidade organizacional?
Voltar ao passado é impossível. Existe outra realidade socioeconômica e política e não comporta mais aquele modelo institucional.
Mantê-la no atual esquema organizacional – simples unidade do Ministério da Agricultura – sobrecarregada de burocracias, de desestímulo funcional e carência de recursos financeiros e humanos, representa a continuidade de decepções, iludindo os produtores e a sociedade com esperanças para o “nada”.
Associado a este elenco de ações para a inoperância, está o Governo, que estimula a saída de profissionais capazes, esvaziando os setores básicos e especializados de estudos e pesquisas agrícolas.
A sua amplitude de ação nacional tem trazido mais problemas que vantagens. Não existe um Plano Nacional para a produção brasileira de Cacau – um “PROCACAU”- do passado. Falta sensibilidade institucional, reflexo da ausência de uma política agrícola neste país.
Deixemos, portanto, Rondônia e o Pará com seus problemas, suas soluções e suas decisões administrativas independentes. Busque o Estado da Bahia seu próprio modelo institucional, ajustado à sua realidade e livre para desenvolver econômica e socialmente sua região cacaueira.
Quanto à política brasileira de produção e comercialização do cacau e seus derivados, todos os Estados deverão estar unidos, sob a égide do Ministério, na formulação de diretrizes e planos adequados à situação mundial. Neste momento, a Bahia estará presente, como líder da produção e do conhecimento tecnológico e econômico, contribuindo para uma política nacional.
Mas, qual o modelo organizacional sugerido para o futuro?
Em fevereiro de 90 escrevi sobre isto. Sugeri uma ideia que me ocorreu, mas que foi esquecida ou contestada pelos medíocres e de visão estreita.
Uma proposta existe na mente de alguns preocupados com a instituição: representa uma retaliação das atividades, a distribuição de recursos, patrimônio e pessoal a organizações, que imaginam, saberiam soerguer seus objetivos e ações. E quem ficaria com a maior parcela? A Embrapa, absorvendo o Centro de Pesquisas, as estações experimentais, o acervo biológico, etc.. O resto seria distribuído a quem quisesse; aos organismos estaduais, federais e mesmo municipais. Uma mutilação, eliminando a região de sua liderança na condução de soluções dos seus próprios problemas.
É uma alternativa. Dos males, o menor. A experiência e conhecimento, a nível nacional e internacional da Embrapa, por certo, seriam a grande vantagem para a continuidade e evolução dos estudos e pesquisas.
Outro procedimento poderia ser mais inovador, mais cooperativo, mantenedor dos ideais de uma região inteligente e capaz de ultrapassar toda esta fase difícil e marchar para um futuro promissor. Seria nada mais, nada menos, que a fusão da Ceplac-Bahia com a Universidade de Santa Cruz, criando uma nova instituição – a Universidade da Terra ou mesmo a Universidade de Santa Cruz, dentro de novo conceito organizacional: o ensino, a pesquisa, a extensão e o apoio ao desenvolvimento regional.
É uma ideia inovadora. Requer compreensão e desprendimento de todos. Pensar mais nas gerações futuras que nos interesses pessoais e do momento presente.
Representa conceitos novos para as Universidades, no seu papel transformador da sociedade, com a formação de profissionais, a geração de soluções para os problemas e a atuação educativa dedicada à população.
Esta união traria grandes benefícios. Da Ceplac, viria o acervo técnico, a experiência investigadora e executora, o relacionamento nacional e internacional, o patrimônio gerado com recursos dos produtores de cacau. Um passado brilhante, onde alguns princípios poderiam ressurgir e aperfeiçoar este enlace institucional.
Da atual Universidade de Santa Cruz, o entusiasmo, o anseio de construir uma grande instituição. A abertura, a universalidade do conhecimento, a difusão das ideias e dos princípios para todas as classes sociais.
A nova Universidade, fortalecida por todos estes meios, conceitos, princípios e experiências seria, de fato, a grande instituição transformadora socioeconômica e política da região. Mentes abertas, mãos trabalhadoras e visão do futuro deverão ser os alicerces para a sua construção.
Como materializar esta ideia, que para alguns pode parecer estapafúrdia, mas que representa a tendência futura? O enlace entre os diferentes níveis de governo e sociedade regional levará à concretização deste modelo. Governos aliados ao empresariado – industrial, agrícola, comercial – e às lideranças regionais compreenderão a necessidade de desenvolver este novo modelo.
Quando esta ideia tomar corpo, quando especialistas e líderes discutirem este assunto, certamente surgirá a fórmula e o esquema de tornar real este pensamento. Uma nova onda de entusiasmo circulará pelas veias dos técnicos e dos homens que fazem esta região feliz e saudável.
O futuro confirmará estas visões idealistas, de apoio e amor à região.
Jorge Raymundo Vieira, Eng. Agrônomo, MS aposentado Ceplac.
Brasília- fevereiro 97
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