Poucos vestígios nos restaram das poesias românticas aqui escritas, no Século XIX, sendo algumas delas da autoria de Nany Calazans (Ana de Bittencourt Calazans), nascida em 1850 no Engenho Cedro, em Santa Luzia do Itanhy, distrito de Estância, município sergipano na beirada do Rio Real, fronteira com a Bahia.

 
Mosquitos, sêcas continuadas e uma epidemia de cólera fizeram o seu pai vender o seu engenho e descer à Bahia, instalando-se em Ilhéus num sítio à margem do Rio da Esperança e mantendo na Vila uma casa ao lado do atual Teatro Municipal.
Seu irmão mais velho, Pedro, poeta internacionalmente famoso na época, cá esteve pouco antes de morrer tuberculoso num navio que o levava a Portugal. Buscava melhoras que não foram obtidas.
Como quase toda jovem alfabetizada na época, mantinha Ana o seu caderno de poesias  onde, ao longo de algum tempo, registrou seus sentimentos em sonetos e rimas.
Este caderno, “Alvoradas”, acabou nas minhas mãos e espero, um dia, poder transcrevê-lo para melhor acesso e socialização. Sua página de abertura foi escrita pelo seu irmão Pedro, com a poesia até agora inédita, aqui publicada.

O Poeta também nasceu no Cedro, sendo o seu pai Joaquim José feito Comendador da Ordem da Cruz de Cristo por Pedro II, na sua curta estadia em Estância, voltando ao Rio da sua viagem ao rio São Francisco, em 1860. O Imperador e sua esposa se hospedaram no antigo casarão da família, ainda hoje em pé e tombado pelo IPHAN. O seu pai era neto de uma índia Tupinambá da aldeia do Buquim, ali bem perto. Consta que sua primeira poesia foi feita ainda quando criança, dedicada à filha “trigueira”do capataz do Engenho Cedro.

Sua esposa, por curto tempo, foi a sua prima Tersila, filha do seu tio José Joaquim.

Eis a pérola que agora passo aos nossos leitores:

Canta! Canta!

Alvoradas são teus himnos,
Matutinos arreboes;
Melodiosos  idylios
Dos brasileos rouxinoes. 

Tão diaphanas phalenas,
Aureas plumas de pavão;
São primaveras ridentes
Sons cadentes que se vão.

Nuvenzinhas cor de rosa,
Nebulosa de astros mil;
Lindos iris furtacores,
Bellas flores do Brasil.

Pipilos de aves implumes,
São perfumes de um rosal
Alguma vez, um lamento
Como o vento no pinhal

A calhandra na alvorada
Canta cedo, minha irman!
No teu hemispherio é dia,
Poesia, é de manhan!

Como a calhandra desperta,
Diz – alerta! – aos sonhos teus
Canta a Pátria, a Liberdade,
Caridade, Amor e deus (sic)!

Canta tudo quanto é bello,
Teu desvelo e aspirações!
Tem a esperança dominios
Nos virginaes corações!

A calhandra no arvoredo
Canta cedo, de manhan!
É dia, o sol se levanta!
Canta, canta, minha irman!

Calazans (Pedro)

 
Guilherme Albagli de Almeida
Departamento de Letras e Artes
Universidade Estadual de Santa Cruz
Ilhéus Bahia