HISTÓRIAS DE UM ILHEENSE
por Tomé Pacheco
NO PRESÍDIO CARANDIRU VI

Tomé Pacheco
Fiquei na Casa de Detenção do Carandiru de 1978 a 1982. Neste período houve a troca de diretor, em que saiu o Coronel Guedes e entrou Luisão. Luisão já era diretor da Penitenciaria Masculina do Estado e trouxe sua equipe, havendo troca de alguns funcionários em que eu, o Isaias, e o Adauto foram trocados. A diferença foi que nós três saímos como traficantes, trambiqueiros e éramos tidos como problemáticos. Inclusive fomos impedidos de adentrar a Penitenciária. Eu fiquei na farmácia, Isaias no almoxarifado e Adauto na oficina mecânica. Nosso almoço era servido no local onde trabalhávamos. O diretor era o Dr. Rubens Lopes.
Minha função era Auxiliar de Serviços Gerais e constava de lavar vidros, limpar o laboratório, engarrafar alguns remédios e prensar medicamentos. Trabalhei também na parte do laboratório onde fabricava alguns tipos de medicamentos como xaropes. Eram dez funcionários e dois farmacêuticos da área química.
Com o passar do tempo eu viria conhecer melhor meus dois colegas, Isaias e Adauto. E assim descobrir que os caras não eram brincadeira não. Soube que o Isaias foi pego em sua casa fabricando dinheiro e estendendo no varal. O Adauto começou a pisar na bola demais com a galera da pesada e não deu outra: deram-lhe fim.
Eu continuei na minha rotina, estudando e já estava no 2º ano de Educação Física. Na farmácia trabalhava por meio período o Corade, que era diretor do Setor de Educação da Penitenciária. Então ele sabendo que eu estudava Educação Física, me prometeu que assim que eu me formasse colocar-me-ia no cargo de Diretor de Esporte e Recreação. Fiquei assim todo entusiasmado e felicíssimo. Continuei estudando com mais afinco ainda porque tinha este objetivo a ser alcançado. Foi o que aconteceu em 1984 quando assumir o cargo. Aí foi só alegria. Deus me abençôo nessa função que passei a desempenha dentro da Penitenciaria no Pavilhão 3. Minha vida agora era lidar com 1200 presos nos campos e quadras de futebol da Penitenciária. Lá a vida era completamente diferente da Casa de Detenção.
Daí então eu comecei a exercer minha nova função. Eu preparava fisicamente a seleção de futebol. O campo era gramado e media 120 x 95m. Havia outro menor onde era disputado a 2ª divisão. Organizei várias atividades, como o campeonato de futebol nos dois campos. Os dois últimos colocados de cada campo eram rebaixados para a 2ª divisão.
Em 1984 entrei em contato com a Federação Paulista de Futebol. O seu diretor Dirceu Fernandes começou a mandar árbitros-alunos, como os antigos a exemplo de Ducidio, Morgado, Wlisses Tavares, Maçoneto, Elzon entre outros.
Volta e meia o senhor Dirceu nos fazia uma visita porque gostava de conhecer os presos famosos tipo Luz Vermelha, Hosmanir Ramos, Chico Picadinho, Marqueta, Ze Vitor, Não Se Bula entre outros. Eu apresentei todos eles a mais alguns no que ele se deliciava e ficava o tempo todo conversando com essa galera de presos
Nesse período pegamos amizade e então veio o convite para que eu fizesse o curso de árbitro, sendo que fui fazer por insistência do senhor Dirceu. Formei em 1985, mas essa é outra história que contarei no decorrer dessa minha Histórias de um Ilheense.
Dr. Marco Aurélio Cunha, era médico ortopedista do Presídio e diretor do São Paulo Futebol Clube. Ele teve a iniciativa de levar alguns jogadores profissionais famosos como Mueller, Silas, Bernardo, Vizzole, Sidney e outros que abrilhantavam nosso campeonato. No dia em que levou o São Paulo para jogar contra a seleção dos presos, foi a maior sensação, a maior alegria dentro do Presídio.
Depois levou o Palmeiras (que é meu time do coração). Nessa época jogavam pelo “verdão” craques como o Leão, Luis Pereira, Wagner, Mário Sérgio (o Rei do Gatilho) e outros que no momento me falham a memória.
Em 1996 foi a vez da Portuguesa que militavam jogadores de primeira ordem como Denner, Capitão, Sinval, Tico e outros. A Portuguesa para quem não se lembra foi campeão brasileiro jogando contra o Grêmio em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
Os jogos de futebol era tão emocionantes que os presos começaram –na verdade uns 80%– a pedir a vinda do Corinthians, mas eu, como um palmeirense de sete costados, vetei. Ora, pensei: como é que eu, palmeirense, iria consentir uma coisa dessas. E persisti comigo, apesar das reclamações, que: “Grama que palmeirense pisa corintiano não é digno de pisar!”. Mas foi uma reclamação só!
O jogo contra o São Paulo foi num sábado. Na segunda-feira eu encontrava-me em minha sala quando apareceu um preso com mais ou menos uns 48 anos e: “Seu Tomé, com licença”. Eu antecipei e disse: “Pois não, pode sentar aí”. Então ele passou a narrar o motivo de ter ido até a minha sala: “O senhor está lembrado daquele 9 do São Paulo, o Marcelo que depois foi jogar no Bahia?” Eu pensado que seria um papo sério pedir-lhe para continuar. Então o preso continuou: “Pois é isso seu Tomé, eu estou fraco, sabe? O 9 caiu bem no meu colo. Com aquelas pernas grossas de garoto ‘saradão’, que gostosura! Passei a noite toda comendo-o na mão”. Aí retruquei: “Pô, o senhor vem aqui me contar uma história dessas? No que ele respondeu: “Ah, seu Tomé. O senhor está na rua e não sabe o sufoco que passo aqui há mais de 20 anos sem ver uma xota! Não é mole não, seu Tomé!”.
Nessa época ainda não era permitido visitas íntimas ao Presídio.
Para ler a PARTE V clique AQUI.




























































Grande Tomé….