Os dois após adentrarem no Bar de Zequito e se aboletarem próximos a um grupo que bebia e discutia, logo estavam integrados.

Para os consumidores da “água que passarinho não bebe”, desconhecedores, o bar é aquele do tipo pequeno e basicão, mas possui lá suas características interessantes como a do “papo” que rola no espaço (um neófito poderá ficar encabulado ao ouvir como se soluciona todos os problemas do Brasil ou como até se destitui do trono a rainha da Inglaterra), e como a da facilidade de interação da freguesia.

Bem, a dupla é de tradicionais e bem-sucedidos comerciantes daqui da Capitania dos Ilhéus, e frequentadores do recinto.

O enfoque era o Regime Militar iniciado em 64 e como percebi –eu encontrava-me a cerca de um metro metro da mesa da referida interlocução e da dos recém-chegados–, as opiniões reprovavam peremptoriamente o domínio político militar daquele período.

Com um toque de semelhança em razão da altura –mais para baixa–, não tardou o mais magro: “Me permitam, mas os senhores estão errados. Sabiam que quem construiu a Ponte Rio-Niterói, a Usina Hidrelétrica de Itaipu, a Usina de Angra I e instituiu o Programa Nacional do Álcool, a Polícia Federal, o Banco Central do Brasil, a Embratel, entre tantos outros feitos, foram os militares? Meus caros, não sejam tão injustos com eles!”. O menos jovem levantou-se e: “Sim, meu tio, eles fizeram isso e aquilo, mas esqueceram da parte principal: a social. Arrotavam crescer primeiro um tal bolo e depois distribuí-lo, todavia ficaram só no crescimento e o povo se lascando”. “Ora, você é no… no…. novo e não entende. Cadê a festejada qualidade da Saúde, da Educação, do tratamento de Esgoto que ninguém vê? É tudo conversa fiada. Podem escrever que antes a gente era feliz e não sabia!” retrucou o interferente. O mais robusto ia se pronunciar, mas outro (uma turma de seis) o antecedeu: “Peraí! Pelo que acabo de ouvir o golpe de 64 só trouxe maravilhas pro Brasil, no entanto, uma forte corrupção predominava, ou não? Não podia era botar a boca no trombone, como agora. Os senhores por acaso não estão a par da Ponte do Jequitinhonha construída três vezes e da estrada Ilhéus-Buerarema constando nos anais da República dos militares como o asfaltadinha da silva, citando exemplos aqui pertinho?”. Desta feita com um sotaque meio cearense o parceiro: “Qualé nada. Não existem provas. Com os milicos não havia enganação como hoje; eles prometiam e faziam. Sabem a rodovia Eunápolis a Porto Seguro? Pois é, à época colocaram 400 caçambas, tratores e o diabo a quatro e asfaltaram num mês com asfalto de boa qualidade. Isso sim pode se dizer: progresso”. Um terceiro brada com tom meio exaltado: “Ora, mas naquele tempo não tinha Ibama, tudo era feito a migué”.

Os argumentos do par de adeptos da linha dura de um lado versus os dos baseados no sistema dos princípios da soberania popular de outro, se prolongaram por horas, em mais um dos costumeiros casos do referido ambiente etílico. Pertinho da área do improvisado debate não deixei de dar meus pitacos a favor do regime das liberdades, porém, desprovido de radicalismo, me deixara a reflexionar, a afirmação –exagerada ou não–, de um dos aficionados ao governo de 1964 a 1985, que o que mais estar progredindo no país é a “bandidagem” e a “insegurança”.

Heckel Januário