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Rildo Oliveira: O artista transformador, solitário, cidadão e sem apoio

Rildo Moreira de Oliveira (Crédito: JBO)


O muro escolhido fica na travessa Bandeirantes, centro de Ilhéus, onde, todos os dias, milhares de pessoas passam, muitas vezes, sem enxergar um palmo à frente dos seus próprios interesses individuais. Mas na visão e na sensibilidade de Rildo Moreira de Oliveira, de 31 anos, é possível cada um de nós, independente da situação financeira, dar uma parcela de colaboração para que a cidade, a cada raiar de um novo dia, se torne um local mais aprazível de viver. E de suas mãos, este grafiteiro desempregado e sem apoio, exercita e convoca cidadania. E a transforma em pura arte.

Em pouco mais de cinco metros de um muro que até então era um espaço abandonado que deixava cinzento um dos pontos mais movimentados do centro de Ilhéus, Rildo monta há mais de uma semana um “filme” dos tempos áureos da cidade. A pacata e vida dura dos pescadores do cais, a beleza nos mínimos detalhes da antiga avenida João Pessoa, hoje Soares Lopes, e até os casarões que marcaram definitivamente um cenário da riqueza arquitetônica da cidade, que, agora, renascem nos traços e nas “pistolas” cansadas de guerra de um “inconsequente” artista popular.

Desempregado e sem apoio financeiro, foi preciso “mendigar” para dar exemplo. Primeiro, convencer os moradores de um prédio habitado pela classe média-alta da Soares Lopes de que aquele espaço poderia ficar bem mais bonito. Depois, a decepção de ver as portas do Palácio Paranaguá se fecharem quando foi em busca da matéria-prima – tintas, apenas tintas – que alimenta sua vontade de transformar espaços degradados em cultura popular. “Eles não aprovaram, não quiseram fazer porque não tinha interesse para eles. Então resolvi fazer por minha conta já que o muro já tinham me liberado. O material é todo meu, todo meu”, revelou orgulhoso ao repórter do Jornal Bahia Online, como se, no fundo, quisesse dizer a toda uma insensível cidade: tirei um pão de dentro de casa, mas estou alimentando minha alma.

Praticante do grafismo há 12 anos, Rildo é casado. Não tem emprego fixo. Vive de bicos. Mas tem na alma a sensbilidade que muitas vezes falta àqueles que têm tudo em casa. E até um pouco mais. Rildo, durante toda a semana, não lamentava o fato de não ter conseguido apoio para realizar seu sonho, como até seria comum que reagisse desta forma. Muito pelo contrário: “a realização que eu vejo desse meu trabalho é de você chegar aqui e me parar pra vir falar do meu trabalho, entendeu?”, disse ao editor-executivo do JBO, que ao passar pela esquina, se interessou em saber um pouco mais sobre o artista e a sua arte. “Essa é a recompensa maior, o meu maior retorno”, completou.

“Lógico que eu gostaria de fazer mais com o apoio de empresários ou de qualquer pessoa que quisesse me ajudar”, disse ao JBO. A frustração maior talvez seja o fato de que muitos não acreditam que aquela obra, tão sensível e tão cidadã, tenha partido de uma humilde iniciativa e seja financiada por alguém que não sabe sequer o que vai almoçar no dia seguinte. “A primeira coisa que falam é que é a prefeitura me ajudou e eu falo ´não, não, não tem nada a ver com prefeitura´. O bom é que acham bonito, acham lindo, querem levar o muro pra casa (risos). É bem legal.”, revela um satisfeito artista de rua.

É que na calma de cada gesto executado na parede, no sentido de cada olhar que os que passam pelo local dão à sua obra e, sobretudo na lição silenciosa de cidadania que o próprio Rildo dá em uma importante rua de Ilhéus nas últimas semanas, é que fica a grande certeza de que para amar verdadeiramente uma cidade, você não precisa gritar, repetir exaustivamente a palavra “amor”, desde que não sinta tudo isso no coração.

Muitas vezes é um simples gesto que pode dizer muito mais.

De forma silenciosa, solitária e transformadora.


No Jornal Bahia Online

2 respostas para “Rildo Oliveira: O artista transformador, solitário, cidadão e sem apoio”

  • Maria do Socorro Mendonca says:

    Fantástico esse trabalho!!! Que descoberta hein Maurício Maron!!! O ideal seria ele ser instrutor de muitos meninos que temos por aí. Dá um belo projeto. Assim, muito muros sujos tomariam vida.

  • carlos paixao de sa says:

    Este rapaz não tem visão;Pois se ele pintasse a praça Rui Barbosa atual, que é uma obra de arte de Carlos Freitas e o nosso prefeito, ai sim ele
    teria o maior apoio dos gorvenantes; Pois ali sim esta uma obra arte para
    a população de Ilhéus admirar

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