(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)

          Embora o Umas e Outras estivesse pronto para acionar o gatilho e mudar o assunto futebol inserido nas partes VIII e IX, recentes passagens provocaram o adiamento.

O gol de corner – “gol olímpico” no jargão desse esporte – do belmontense Janderson Rodrigues pelo Duque de Caxias dia 25 de janeiro contra o Flamengo no Maracanã foi uma delas.

E não venham, caros flamenguistas, com a lamúria do “aconteceu de cagada” como se diz no popular a um feito praticado sem intenções, porque os meios de comunicação da área esportiva não hesitaram em afirmar que o cara conscientemente tentara algumas vezes na partida antes de colocar a redonda no filó. A possível hipótese, obviamente, não contabiliza as testemunhais provas presenciais e televisivas. Aliás, a de marcar de bola parada no time rubro-negro carioca, já se tornara uma praxe do atleta. Registre-se que em março de 2012, em Macaé, em jogo dessas duas agremiações pela Taça Rio, Rodrigues deixou o dele, gol que lhe rendeu a recompensa das chuteiras do consagrado meia, Ronaldinho Gaucho.

Bem dizer, de algum modo a relação de destaque de filhos de Bebel com o esporte bretão não é de agora. Em 1971 quando da inauguração do nível superior de arquibancada da Fonte Nova, um jornal da capital baiana (não nomeado por falta de lembrança precisa do veículo da matéria) estampara na primeira página em letras garrafais “De Zé Hugo a Zé Eduardo”, uma referência à época, a dois craques baianos, um do passado e outro do presente. Zé Hugo, citado no número VIII deste Umas e Outras…, relembrando, fora um dos catalogados belmontenses a escrever, jogando pelo E. C. Bahia, o nome na história do futebol. E não é nada de mais repetir que a autoria da maquete do Maracanã foi do artista belmontense José Zanine Caldas! Hoje, no Novo Maracanã (como assim o estão chamando depois da reforma para a Copa do Mundo) quem também se apresenta é Rodrigues.  Se existe dúvida se foi de um craque na expressão da palavra ou se de um bom, eficiente e aplicado lateral esquerdo do clube da Baixada Fluminense não importa, o fato é que o gol já integra a seleta lista dos raríssimos “gols de placa” e, a esta altura do campeonato, esteja, fazendo-lhe justiça, inserido nos anais desta famosíssima praça de esporte. E, claro, mui agregado às inéditas ligadas a Bebel.

A “Crônica do Futebol” de Zé Roberto (vice-presidente da Alac- Academia de Letras e Artes de Canavieiras) no jornal Tabu (1ª e 2ª quinzena de Dezembro/2013), oferta do amigo Zunde aqui da Capitania dos Ilhéus, foi outra ocorrência provocante. Conta o aparecimento do futebol em Belmonte nos fins do século XIX paralelo a existência de um hipódromo frequentado pela elite da cidade(coronéis do cacau e suas famílias), mantido por João Calebocório, um rico mineiro apaixonado por cavalos. Além da originalidade da existência de um local para corridas desses equídeos organizado em entidade com quadro diretor e tudo o mais, o que calha ainda mais com o Umas e Outras… é o racismo do professor Pamphilo Guimarães, “…homem elegante, branco de olhos azuis e porte físico altivo, abastado e de tradicional família…” sobre outro docente, Lucio Coelho,  “…homem de princípios e conduta ilibada…” mas de cor negra,  chegado da capital para exercer o magistério,  na  formação de dois clubes de futebol, o Amazonas (de Pamphilo) e do Santa Cruz(de Lúcio), e meio às reuniões do  referido hipódromo.  Para se ter ideia do ponto de discriminação racial chegado, basta dizer que em face da vitória do quadro de Lúcio por 2 a 0 no primeiro jogo, Pamphilo “…irritado perdeu o controle e, após acirrada discussão, agrediu  Lúcio chamando-o de negro descarado e sacando o revólver.”. Não sucedeu uma tragédia, conforme Roberto, devido à intervenção da turma do deixa-disso. E conclui que, incentivado por pessoas da sociedade, Pamphilo chegara a pedir desculpas, porém Lúcio não aceitou e, determinado, “…se afastou definitivamente da sociedade elitizada belmontense e passou a exercer unicamente sua função de conceituado professor, tornando-se inimigo de Pamphilo até a morte.”.

Verídico, inusitado, este caso sobre a Bebel da Região Cacaueira da Bahia, contado com jeito pelo autor, vale uma conferida in totum.

Heckel Januário