JORGE VIEIRA / CEPLAC EM 30 ARTIGOS (V)
REALIZAÇÕES E HISTÓRIA DA CEPLAC – 1957 – 2014
1985 – INICIO DO PROCACAU – 1976
Era inevitável o seu nascimento. Uma instituição, criada para sanar problemas imediatos e agir no sentido de modificar o panorama técnico-econômico-social do cacau, não poderia viver sem uma diretriz, uma linha, trilha ou plano de trabalho.
O oportunismo de cada instante, as análises do momento, ou mesmo, as decisões baseadas no “eu acho”, não suportariam mais as gestões e as responsabilidades que aumentavam para os dirigentes.
Trabalhar com um produto, gerado por uma planta que leva entre quatro a cinco anos para produzir, que tem características próprias de meio ambiente e exigências físico-químicas, cujo produto é essencialmente exportável e com um processo de negociação específico, do momento e do futuro, não poderia jamais identificar-se com ações diárias ou mesmo anuais.
Por algum tempo viveu-se de instantes, de “safras” e das suas perspectivas e propósitos de obtê-las ou negociá-las convenientemente. As análises do mundo cacaueiro querem produtor ou consumidor, eram puras computações de estatísticas, constatando uma situação, sem, contudo, o desenvolvimento de ações modificadoras.
E foi nesta compreensão, normal em todos aqueles de visão aberta, que se constatou o fato e a necessidade de propósitos futuros, estabelecendo esquemas e meios para obter um produto.
Tinha-se o instrumental básico. Dados e informações, mais ou menos satisfatórias, uma equipe de técnicos em vários campos da ciência e, mais que isto, um desejo de ordenar as ações, estabelecer metas e planos em médio prazo.
Planos estes, que orientassem o comportamento institucional e as relações intergovernamentais, visando a conquista de um reconhecimento da importância do programa e o registro internacional das projeções brasileiras sobre o desenvolvimento da cacauicultura.
A ideia pegou. Foi como um barco, meio salva-vidas institucional, e que se propunha a levar os seus passageiros a um fim fértil e promissor. Vários técnicos foram tentados a contribuir; a pobreza de uns, a ciumada e curta visão de outros, felizmente não impediu o deslanchar dos cálculos, dos estudos, das opiniões experimentadas e a crença daqueles primeiros defensores.
Assim nasceu o PROCACAU. As transferências de paternidade do plano, entre técnicos e administradores dedicados ou não, ao trabalho, já indicavam uma consciência da importância e necessidade deste programa para a então criada CEPLAC. A fixação de metas em regiões brasileiras, também levou a certo constrangimento, e mesmo, críticas internas aos esquemas feitos.
Mesmo sem grandes conhecimentos “in loco” dos países produtores e consumidores de cacau e baseados, mais em informações e dados um tanto imprecisos, mas, únicos no momento, a equipe técnica desenvolveu um esforço extraordinário; o conhecimento sobre as condições brasileiras levaram a um otimismo, uma estruturação e definição das potencialidades, fixando metas para um período futuro de dez anos.
Toda a organização começou a modificar-se. Buscava-se a aprovação do PROCACAU e, com ele, o estabelecimento de normas e princípios que conduzissem as ações de todos, neste sentido.
Assim, o orçamento-programa tinha, anualmente, determinadas as prioridades institucionais; não mais estávamos à mercê de opiniões momentâneas ou dominantes. O principal papel da organização, criada para a defesa da economia do cacau, era seguir o PROCACAU, já aprovado pela autoridade máxima do Governo Federal.
Um ano, dois passados, e já estávamos às voltas com aqueles inconformados, desejando alterar o plano, as metas, a localização geográfica dos plantios. Uma resistência forte e audaz superou tudo isto, na busca de mais experiência, maiores informações, análises mais acuradas da execução, julgamento da receptividade dos produtores, enfim, um tempo maior, para uma avaliação criteriosa e técnica, e não, parcial ou regionalista.
Mas, o caminho foi longo e a recessão mundial influenciando nos níveis de preços, levou a revisões, ajustamentos e alterações de metas. Já os produtores, através do CNPC, conscientes da importância do PROCACAU, estudavam e discutiam, participando ativamente no Conselho Deliberativo da CEPLAC e tomando posições renovadoras.
A euforia contagiante de alguns produtores e técnicos, a inexperiência de outros, a incerteza dos dados e informações internacionais e outros fatores, levaram a uma série de dúvidas e distorções no plano original; e com isto, uma redução de metas e até certo ponto, desaceleração das atividades.
Os questionamentos começaram a surgir:
– Nossas metas de produção ou sua redução, teriam influência nas cotações dos preços internacionais?
– Reduzir uma expectativa de produção futura, não permitiria que outros países, como a Malásia, aproveitassem a oportunidade e acelerassem seus plantios?
– Seríamos capazes de modificar as vantagens que o Mercado Comum Europeu oferece aos países africanos (acordo de Lomé)?
– Impediríamos a Costa do Marfim de ampliar seu comércio com os Estados Unidos da América, nosso maior mercado e ausente do atual Acordo Internacional do Cacau?
– Até onde um plano de expansão da produção iria desestimular o uso de sucedâneos ou a quantidade de cacau nos produtos denominados “chocolate”?
Todas estas indagações exigiam reflexões, ou pelo menos, estudos mais científicos que viessem permitir decisões mais seguras.
A complexidade dos estudos obrigava à formação de pessoal técnico especializado. Preparar o Brasil e a economia cacaueira, com um potencial humano profissional, capaz de conduzir uma política futura de comércio e industrialização do cacau.
E os primeiros passos foram dados. Evoluíram e especializaram-se os setores da economia, e começaram a aparecer os primeiros técnicos especialistas, ao lado dos novos frutos que surgiam das árvores plantadas. Era o PROCACAU na sua verdadeira vida, não mais um plano e sim, uma realidade.
Ilhéus, Bahia – outubro 1985.
Jorge Raymundo Vieira, Eng. Agrônomo, MS – aposentado da CEPLAC.
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