JORGE VIEIRA / CEPLAC EM 30 ARTIGOS (XIV)
REALIZAÇÕES E HISTÓRIA DA CEPLAC – 1957-2014
1987 – RETROSPECTIVA CEPLAC- 87
DECEPCIONANTE
Esperança era a palavra chave no inicio de 87. Uma nova administração, técnica e originária da casa, proporcionava uma expectativa otimista para a instituição, castigada nestes últimos anos.
Foi em momentos de repouso, lendo a “Perestroika” de Gorbachev, que decidi fazer este artigo. A coragem do líder soviético, ao analisar friamente e publicamente os problemas do seu país e a necessidade de uma “reorganização”, levou-me a correr o risco de fazer uma avaliação da CEPLAC, sobre o tumultuado ano de 1987. Uma fotografia, sem retoques que evitam encobrir os defeitos e a realidade.
As críticas, os comentários ou as análises do desempenho de uma instituição sempre existiram: nos corredores, onde surgem poucas verdades, muitas incertezas e um excesso de especulações, maldosas ou não, a depender do comentarista; existem também aquelas análises de relatórios bem feitos, preparados para um determinado público, após seleção de textos, fotos ou dados estatísticos. Nem sempre revelam a verdade verdadeira.
A minha avaliação também terá deficiências e erros; ela é pessoal, mas, tem a característica da imparcialidade.
Como já disse, a esperança campeava por toda a instituição, no desejo de ver superados, os problemas surgidos na administração passada e com o advento da Nova República. O ano de 1987, contudo, teve reveses nesta expectativa tão otimista. Vamos aos rápidos comentários sobre:
Política de pessoal – embora já constatado anteriormente, o quadro de pessoal da CEPLAC considerado como excessivo numericamente e carente em algumas áreas especializadas, admitiu 341 novos funcionários; atendimento às deficiências dos setores especializados, através de processo seletivo e democrático? Atendimento a interesses ou recomendações políticas? Estas são algumas das interrogações que pairam no ar.
Um realinhamento que beneficiou o funcionalismo, destruindo, de uma vez, o Plano de Cargos e Salários e apresentando distorções, fruto das “amizades” foi, talvez, o maior dos acontecimentos nesta área de recursos humanos.
No mais, pequenos feitos sem grande repercussão, talvez, resultado da pressão do funcionalismo. No final, um corpo funcional, técnico e administrativo ainda insatisfeito, com baixa produtividade, inquieto e sem expectativas para o futuro.
Esta incerteza gerou, por todo o ano, um clima de competição desleal e interesseira. O foco político partidário perdurou até o final dos meses, no desejo de executar sob pressão, as reivindicações injustas ou impossíveis. A liderança que se esperava alcançar ruiu por terra, pelas ações impensadas, impetuosas ou não participativas.
Política financeira – não foi o volume financeiro a causa das deficiências, da baixa produtividade e de todos os males apresentados. A CEPLAC triplicou seu orçamento, através de créditos suplementares ( orçamento inicial 1.034 bilhões de cruzados com mais 2.502 bilhões de crédito suplementar, dando um total de 3.537 bilhões de cruzados ). Quase duas vezes o que gerou o Imposto de Exportação sobre o Cacau.
É certo que este volume de recursos somente esteve disponível na metade do ano; mas, de qualquer maneira, acredita-se que não foi a área financeira a causa dos grandes problemas vividos pela instituição.
Política programática – aqui ficamos no processo repetitivo das atividades comuns; não se definiu uma prioridade, uma linha de ação que buscasse, além da revitalização do funcionalismo, a execução de métodos e realizações que, alterassem a situação atual, principalmente a do CACAU. Embora provocada, a administração não se definiu por uma política de produção de Cacau. As discussões estéreis sobre o Imposto de Exportação absorveram o tempo e a noção de rumo organizacional.
A essência da razão de ser institucional, não teve a prioridade merecida. Os produtos de todo o esforço foram minguados, em relação ao acervo humano, financeiro e material, disponível. Os pontos críticos, de uma nova tecnologia, a ampliação do conhecimento cientifico em áreas reconhecidamente deficientes, a definição de uma meta com reflexos internacionais, etc., etc., foram esquecidos ou absorvidos por problemas menores. O desempenho programático foi, na verdade, insatisfatório.
Projeto “Repensar a CEPLAC” – tudo levaria crer que se deflagrava um processo de análise global da instituição, com recomendações para um novo período e seriam feitas as devidas correções dos erros passados e as definições para o futuro. E assim foi. O grupo técnico gerou o chamado “livro amarelo” , que não satisfez os produtores de cacau e não teve a seqüência de discussões abertas e livres entre o funcionalismo e a sociedade e assim mofou nos depósitos do almoxarifado.
Era mais uma esperança, de um novo período que não veio e que, parece, morreu antes de qualquer ação de mudanças.
Projeto de Institucionalização – somente no final do ano (outubro 87), através de uma crise econômico financeira dos produtores de cacau, vem à tona, novamente, o Projeto de Institucionalização da Ceplac. Embutido em uma serie de reivindicações financeiras, apresentou-se a proposta de transformar a CEPLAC em uma Fundação. Promessas, esperanças, expectativas políticas, etc., etc.. No final, tudo no mesmo. Ou a luta não foi bem feita, ou o Governo não está realmente convencido de institucionalizar uma organização, com os problemas e distorções existentes.
Quem sabe, ainda busca encontrar um modelo institucional que seja capaz de desempenhar bem seu papel e satisfaça todos os setores da economia cacaueira? E o projeto de institucionalização continua vagando, sem uma condução eficiente, ativa, técnica e política e que leve a uma definição satisfatória, tanto para os produtores e funcionários, como para a sociedade cacaueira.
Os enlaces institucionais – as relações com outros organismos fazem parte da vida da própria instituição. Enlaces com vistas à cooperação técnica, financeira ou de apoio mútuo, a programas de interesse regional. Eles existiram, mas foram predominantemente desviados para as relações de natureza política. A administração de arranjos e de compromissos, teve preponderância sobre as ações em busca de uma cooperação técnica cientifica.
Chega-se ao fim de 87 vivendo um clima, não mais de esperanças, mas de decepções ou incertezas. O descompasso entre a administração e a falta de estabelecimento de uma equipe, unida e dedicada à Ceplac.
Pelo mesmo processo político, a instituição sofreu mudanças administrativas. Sem analisar os “prós” ou os “contras”, sente-se o desgaste emocional de uma organização que outrora teve uma bela imagem, um excelente conceito e resultados concretos.
Os idealistas são aqueles que sempre têm, à sua frente, uma nova esperança, uma nova forma de enfrentar os problemas, um novo espírito a integrar os componentes da instituição e sonhar com dias melhores para todos.
É assim que surge o ano “1988”; novas esperanças, nova expectativa de dias melhores, não só pelo esforço do funcionalismo, mas também pelo merecimento que têm os produtores de cacau e a sociedade na qual eles vivem.
Brasília, DF – dezembro 1987.
Jorge Raymundo Vieira, Eng. Agrônomo, MS – aposentado CEPLAC.
—
PARA LER O ARTIGO Nº 13 CLIQUE AQUI.



























































