REALIZAÇÕES E HISTÓRIA DA CEPLAC – 1957-2014

                        1988 – CEPLAC – A EXPLOSÃO  DO  FIM

                    A proximidade de meus 25 anos ceplaqueanos, do começo da saída e a intensidade dos sentimentos, puros e leais, levam-me a esta explosão.

Planejam acabar com a CEPLAC!  Medidas estão sendo tomados, acordos sendo feitos, interesses políticos e econômicos se associam para desmontar esta grande instituição.

Foram poucos, os que a tiveram como inimiga; só um pequeno número de insatisfeitos e invejosos contrariou as suas ações e feitos.  A grande maioria, a aplaudiu, defendeu-a e beneficiou-se com os resultados do seu trabalho.

Agora, o clima mudou.  Os maquiavélicos, interesseiros e incapazes administrativamente, conseguem tomar o comando.  Sob um manto de “processo democrático e participativo” impõem e dirigem a instituição sob a mais violente forma de autoritarismo.

Os produtores de cacau, estes idealizadores da instituição e parte vital da sua razão de ser, não mais são ouvidos, não mais participam dos planos, projetos e decisões.  O Conselho Deliberativo, órgão que congrega governo federal, estadual, produtores e funcionários, não se reúne a mais de oito meses.  Decisões de sua competência são tomadas à revelia; orçamento, crédito suplementar, alterações estruturais, etc.etc., não mais são levadas a discussões, análise e decisão.

O poder agora parece absoluto do dirigente maior ou de outra fonte política orientadora.  E, diga-se que estamos em um ambiente democrático e participativo.

É certo que, várias reuniões já foram feitas, visando a “operação desmonte”, como, abertamente em Brasília todos sabem.   A CEPLAC, através do seu dirigente, já oferece e concorda com a sua aniquilação.  Informações vindas de outras fontes, porque na CEPLAC, pouquíssimos sabem do que se está tramando; dizem que 700 ou 1.000 funcionários serão entregues à Administração Pública; outra noticia menos decepcionante, afirmam que só ficará a Pesquisa e o Ensino e por fim, a ideia de uma simples “Secretaria” no Ministério da Agricultura.

Quem discutiu estas ideias e estes procedimentos de entrega da organização?

Segundo se sabe os Secretários Gerais Adjuntos, Coordenador de Brasília e Chefes de Departamento não têm conhecimento do assunto. Há, todavia, quem pense que eles ouvem os planos, ficam calados e não fazem nenhuma reação contrária.  Estão favoráveis ou o medo da perda do status e da comissão impede?

De qualquer maneira, estão comprometidos com este plano de desmonte da CEPLAC.  É preciso, ficar bem clara esta posição, de um grupo dirigente, que até bem pouco tempo atrás, defendia outra estratégia.  São as “mudanças” quando não se tem convicções.

A esperança estava no Conselho Deliberativo; fazê-lo voltar a funcionar, livre e independente, interessado e ciente da sua responsabilidade e conhecedor de fato dos problemas econômicos, sociais, administrativos, e políticos que afligem a instituição.

Talvez não estivéssemos nesta situação terrível, de marasmo, perda de entusiasmo, competição desonesta e eliminação de todos aqueles, elementos de categoria técnica e seriedade institucional.

Talvez o receio, de este CODEL mudar o curso desta administração, tem levado a não convocação de reuniões.  Caminhamos para um ano, sem o Conselho Deliberativo discutir, opinar, analisar e definir ações  que têm que ser implementadas pelo Secretário Geral.

Paralelamente, sabe-se que existe um documento alterando o CODEL, reduzindo a participação dos produtores de cacau para apenas três, todos da Bahia, eliminando assim, os produtores da Amazônia; incluindo representantes dos Exportadores (ABEC) e Industriais  (ABIC) e esquecendo a participação do sistema cooperativo.

Pergunta-se, teriam as Associações dos Exportadores e a dos Industriais cedidos um assento para os Produtores e para o Governo, em suas organizações?

Por que a CEPLAC, isto é, a direção, está de acordo com esta proposta?

A CEPLAC não é e nem tem atribuições de definir a política global para o cacau.  Se esta fosse a desculpa, necessitaria alterar toda a legislação que estabelece suas atribuições  e competência.  Ainda mais, deveria contar com o Ministério das Relações Exteriores, o Sistema Copercacau, a SEPLAN e outras possíveis organizações vinculadas a esta economia.

Estranha-se todo este interesse em alterar o CODEL, retirando o peso representativo dos produtores, elemento criador e mantenedor desta instituição desde muitos anos.  Ainda mais, o Codel somente se reuniria, quando assim desejasse o seu Presidente, o Ministro da Agricultura; eliminou-se a obrigatoriedade das reuniões.

Por que todo este interesse nestes aspectos e o esquecimento ou falta de decisão, sobre uma “política de produção de cacau”?  São passados dois anos e sete meses, que o PROCACAU foi concluído (dezembro 85), e até hoje, não se definiu uma nova estratégia para o futuro, especialmente quando existe um superávit mundial, o Acordo Internacional do Cacau não tem funcionado e os preços estão super baixos?

Novamente estranha-se, que a equipe técnica da área econômica internacional do cacau tenha sido desfeita e os estudos realizados anteriormente, não tenham tido o menor reconhecimento.

Para onde vamos, em termos de produção e produtividade do cacau brasileiro?

Não se sabe! Mesmo com as características de produto de exportação e de utilização permanente do solo.  Se não bastasse isto, onde estão os estudos e levantamentos feitos sob o título de “Diagnóstico socioeconômico da região cacaueira do sul da Bahia”?  Perdidos nas estantes da Biblioteca, a espera de algum idealista, competente e isento desta política interesseira, que reviva as ideias, forme uma nova equipe profissional e possa assim, ajudar a população que vive e mantém toda a riqueza desta área.

Nos seus 30 anos, já decepcionado com tudo que a chamada Nova República trouxe que escrevi – CEPLAC – morte, coma ou renascimento.

Estamos nos últimos suspiros.  Morte lenta, desesperadora para todos aqueles que a fizeram nascer, crescer e produzir dentro de uma vitalidade saudável e benéfica.

Não creio que haja salvação. Os remédios são para um falecimento, sem ninguém assinar o atestado de óbito.

A mim, após esta expressão sincera, creio só me resta a demissão.

A consciência, contudo, estará livre e ajustada ao sentimento e a razão.

 

      Brasília, DF – 26/07/1988

 Jorge Raymundo Vieira, Eng. Agrônomo MS aposentado CEPLAC.


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