REALIZAÇÕES E HISTÓRIA DA CEPLAC – 1957 – 2014.   

 2001 – AS REAÇÕES À IDEIA DE UNIÃO CEPLAC + UESC

                       Desde 1971 tenho escrito pela necessidade de uma Universidade na região sul baiano.  Universidade para a sociedade, para a Bahia e para  o  Brasil.

                        Com o lançamento do meu livro “Idéias e idealismo no mundo do Cacau” e as entrevistas com políticos e autoridades baianas, com cacauicultores, profissionais, professores e líderes regionais, este tema foi abordado.  Troca de experiências, de apoio e entusiasmo e também de reações contrárias. Nenhuma destas manifestações negativas diminuiu meu otimismo e minha convicção sobre a melhor solução institucional para os dois órgãos, “notadamente”  baianos.

                        Por algum tempo fiquei a meditar nas oposições e nos aspectos de risco e dúvidas para a concretização ideológica, especialmente neste país de incertezas e gestões políticas interesseiras.  Finalmente cheguei a uma análise bem realista.

1 – Bom número dos questionamentos, afetando a aceitação da idéia referia-se

a problemas pessoais de funcionários preocupados com sua situação funcional- servidor federal, estadual ou o que seremos? – aliada à insatisfação sobre o atual salário vergonhoso pago pelo  Ministério da  Agricultura.  E o medo de um desmantelamento institucional, podendo ocorrer transferências para qualquer parte do Brasil, à semelhança de um cenário do “apartar da boiada”. Ainda mais, o receio da perda da posição, do cargo, do DAS que hoje é mais necessário que a formação e experiência tecnológica, intelectual e cultural; a autodefesa dos dirigentes na manutenção dos seus cargos.

                        A resposta a todos estes pontos está na proposta de manutenção do status de servidor público federal, atendendo a legislação existente até sua aposentadoria; em nenhum momento se propõe prejuízo econômico. Quanto ao lado técnico, a oportunidade será de um ganho substancial pois  o ambiente de trabalho será a  Universidade – centro de estudos e pesquisas em diferentes ramos da ciência; local de discussões livres no contingente humano mais intelectualizado da região. Haverá progresso mesmo que por “osmose”.

                        2 – A reação contrária dos companheiros do tempo áureo da Ceplac devido ao sentimento arraigado de amor à instituição que foi sua escola e de maior tempo de vida profissional.  Organização que lhe prestigiava, que reconhecia seu trabalho, por mais humilde que fosse que lhe dava orgulho em pertencer ao seu quadro de funcionários. Saudosismo justo e belo. Só depois de algumas recordações e questionado sobre o presente e o futuro, eles começam a aceitar a necessidade de mudanças e alterações do modelo organizacional, sem a perda dos princípios de honestidade, seriedade, entusiasmo e sentimento para com os problemas da sociedade sulbaiana, em especial dos cacauicultores.  Neste momento, temos mais adeptos à ideia, talvez não muito fervorosos, mas conscientes de que esta é a melhor solução.

                        3 – Do outro lado, qual a reação? Outro lado, digo funcionários da UESC.  O clima é de tranquilidade e um pouco de expectativa com o futuro. O espetacular crescimento da UESC e sua aceitação generalizada por todo o estado da Bahia levam a este sentimento. Dificil arrancar posicionamentos mais contudentes sobre este tema; os relacionamentos existentes entre os dois órgãos são cheios de receios e cuidados, evitando algum problema político. As ações e atividades têm muitas vezes provocadas cenas de despeito e luta pela promoção institucional.

                        Na verdade, uma união institucional desta grandeza aumentará o grau de responsabilidade e de atuação “extra campus universitário”, exigindo alguns acertos administrativos,  sem contudo perder a filosofia e princípios que devem reger uma Universidade.  Acredito que os receios são pequenos e não representam impeditivos para esta benéfica e necessária união.

                        4 – Que pensam os produtores de Cacau?  Os problemas da Vassoura de Bruxa, a falta de atendimento financeiro do Governo Federal e a crise sócioeconômica reinante não permitem dedicar seu tempo a discutir assuntos de “futuro” da Ceplac. (instituição criada e mantida por eles, hoje legalmente não mais lhes pertence).

A classe produtora está desorganizada, dividida em facções e com ausência de lideranças; resultado do seu próprio comportamento, do desinteresse do governo aos problemas do Cacau e falta da importância dada ao setor agropecuário brasileiro. O produtor está descrente e imobilizado para reações em defesa dos seus direitos e interesses.

                        5 – As lideranças políticas e regionais estão mais preocupadas com o processo eleitoral já deflagrado e com isto o receio de exposições públicas que podem afetar o comportamento dos seus eleitores. “A ideia pode ser bôa, mas não quero me expôr e contribuir para esta transformação institucional “.  O risco é grande. A visão atual somente vai até a data da eleição. Uma atitude positiva somente será tomada por líderes corajosos.

                        6 – As atuais autoridades, responsáveis pelas decisões, ainda não foram  conscientizadas da vantagem política, econômica, social e técnica da idéia.  Para sua decisão será

necessário um estudo, um projeto que justifique e recomende tecnicamente a concretização da idéia de união dos dois órgãos. É preciso sentir que esta proposição representa  uma  “saída política” para o  governo no que diz respeito aos problemas internos e estruturais da Ceplac.

                        7 – Sob o ponto de vista administrativo ganha-se com o modelo de Universidade; une-se patrimônio físico, projetos e programas técnicos, amplia-se área de atuação, melhor aproveitamento do funcionalismo técnico e administrativo, manutenção dos recursos financeiros do Governo Federal, Estadual e esquema de canalização de doações e contribuições de pessoas físicas e jurídicas.  Não será preciso acabar o Centro de Pesquisas do Cacau.  Ele continuará com todo seu acervo de trabalhos e pesquisas e na coordenação e condução dos estudos do Cacau em todo o território nacional.

                        A Extensão rural e Escolas Médias e Profissionalizantes passarão a ter o apoio e participação do Departamento de Educação da UESC, atualizando a metodologia de transferência de conhecimentos e técnicas aos diferentes setores da sociedade. Será o setor da Universidade  que provocará as mudanças sócioeconômicas na região.

8 – E a Amazonia? O mais importante para a Ceplac dentro dos seus objetivos prioritários é a condução de estudos e pesquisas sobre a produção, beneficiamento e comercialização do Cacau no Brasil e suas relações internacionais. O Cepec continuará coordenando estes estudos na Amazonia, à semelhança da Embrapa com outros produtos.  Quanto às outras atividades desenvolvidas em Rondônia, Pará e Amazonas poderão ser negociadas e entregues aos respectivos Governos estaduais.

9 – Surge a preocupação dos mais entendidos técnicos que questionam “quem vai definir a política do Cacau?” tema que envolve a produção, a comercialização, os financiamentos, a industrialização, a exportação (ou importação) e os Acordos Internacionais. Não será a Ceplac nem a Universidade.  Uma definição desta natureza é complexa e requer estudos, pesquisas, levantamento de dados e informações, legislação e acordos envolvendo o Brasil e países produtores e consumidores de Cacau.  Ultrapassa o conhecimento e papel de uma só organização. Exige presença permanente de produtores, técnicos, exportadores e industriais, representantes dos interesses dos Estados produtores além do órgão de política agrícola do Governo Federal.  A Universidade através do Centro de Pesquisas do Cacau será a grande fornecedora de informações, dados, projetos e planos participando das discussões e recomendações ao julgamento governamental.

                        Toda esta coletânea de ideias de estrutura organizacional representa temas de discussão no desenho de um novo modelo institucional Ceplac + UESC.  Ao registrar todos estes pontos sintetizo que o grande empecilho para a concretização da ideia defendida é:

–          A Falta de Visão Futura. Os dirigentes ficam presos aos problemas do “hoje” e esquecem ou não têm tempo nem equipe técnica especializada para dedicar-se às projeções do “amanhã”.  Reconhece-se que no Brasil é dificil visualizar além de seis meses;  mas, uma instituição com alto grau de responsabilidades e objetivos  sócioeconômicos para uma grande coletividade  necessita enxergar mais à frente, estimar metas, desenhar seu caminho e balizar suas ações neste plano.  Sem isto, fica sujeita a decisões diárias, com administração de “tocar o barco“, “fazê-lo andar sem saber aonde chegar“.  Estamos assim na Ceplac, titubeando sem uma definição do seu modelo institucional adequado para os tempos atuais da sociedade brasileira.

–          Outro aspecto de reconhecida importância é a falta de conhecimento da população, das lideranças e mesmo da maioria dos profissionais, inclusive professores, do que seja uma verdadeira “Universidade”. Seu papel, suas funções e sua importância no desenvolvimento econômico, social, político, técnico e cultural para as regiões sob sua influência, além da contribuição ao avanço da ciência e tecnologia.  A visão que predomina é de uma instituição formadora de profissionais.  A história de algumas Universidades em vários países inclusive no Brasil registra a contribuição aos diferentes setores da economia, à melhoria educacional e cultural da sociedade e às grandes descobertas cientificas beneficiando a humanidade.

–          A Universidade de Santa Cruz tenho certeza, será uma destas Universidades.

 

Brasília, 17 de fevereiro de 2001.

 

Jorge  Ray mundo Vieira, Eng. Agrônomo, MS – aposentado na CEPLAC.                                  


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